segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Je ne suis pas Charlie Hebdo nem pouco mais ou menos

O ataque à redacção do jornal francês Charlie Hebdo conseguiu gerar uma onda de solidariedade nunca vista. Os motivos eram óbvios: ninguém queria, nem quer, ficar sob o jugo da intolerância, do fundamentalismo islâmico e, consequentemente, do terrorismo.

Era, naquela circunstância, muito fácil escolher o melhor lado, diria mesmo, o único lado aos olhos da tolerância do chamado mundo ocidental.

Porém houve muita gente que conseguiu ver para além do óbvio e, apesar do lamento pela morte dos jornalistas, observar e chamar a atenção para o lado desnecessariamente provocatório das publicações do Charlie Hebdo, as quais parecem ter legitimidade face à barbárie protagonizado ao longos dos anos, mas muito particularmente nos últimos, pelos grupos radicais e pelas próprias sociedades islâmicas que vivem segundo ancestrais tradições e costumes que chocam qualquer um de nós. Associou-se à liberdade de imprensa a inocência imprescindível às democracias modernas em que nos orgulhamos de viver.

Mas o Charlie Hebdo é tudo menos um jornal inocente e tem uma particular vocação para apagar fogueiras com gasolina. Senão veja-se o cartoon que publicou recentemente sobre a queda de um Airbus russo em solo egípcio, cujas causas são ainda desconhecidas, apesar do Estado Islâmico (EI) ter reclamado a sua autoria. O cartoon é uma vergonhosa provocação aos familiares das vítimas entre as quais várias crianças que com certeza não são culpadas  dos bombardeamentos da Russia às posições do EI.

O Charlie Hebdo no fundo não distingue nada nem ninguém quando se trata de fazer vincar a sua opinião, também radical, sobre os assuntos e os acontecimentos que acontecem por este mundo fora. O Charlie Hebdo é, também ele, um lado da intolerância e da violência uma vez que a faz gerar não apenas junto dos radicais islâmicos mas também de pessoas honestas e anónimas que tiveram o azar de ter um familiar a bordo de um avião de linha aérea que se despenhou e do qual não há sobreviventes. Isto não é liberdade de imprensa, é o mais radical e desnecessário humor negro que não faz rir o mais divertido dos leitores.


Bem fazem os líderes mundiais quando se juntam para protestar contra o terrorismo e pela liberdade de imprensa. Mal fazem quando a pretexto disso se associam a um jornal que outra coisa não faz senão acicatar ódios convencido que tudo nesta vida é alvo de sátira, inclusive a morte de pessoas inocentes.