Choque de Verdade

Os dois últimos primeiros-ministros antes de Passos Coelho, Durão Barroso e José Sócrates, utilizaram um sound-byte semelhante para marcar uma vontade das respectivas governações: os choques. Barroso tinha o choque fiscal, Sócrates o tecnológico.
O ex-líder do PSD prometeu em campanha eleitoral uma descida dos impostos como forma de relançar a economia, o consumo privado e a competitividade das empresas. Quando chegou ao governo disse no Parlamento que tinha encontrado um país de tanga e por isso em vez de descer impostos, subiu o IVA.
Sócrates virou-se para o choque tecnológico para facilitar a vida às pessoas e para as tornar mais IT friendly. O principal argumento deste choque foi o famosíssimo computador Magalhães, distribuído às crianças nas escolas sob o olhar embevecido do então primeiro-ministro e dos seus colegas de governo. O Magalhães, fabricado por uma empresa cujas dúvidas nunca foram dissipadas, fez sucesso sobretudo nas mãos de Chávez, que numa daquelas sessões para pacóvio ver onde faz a apologia de uma democracia que só ele entende, decidiu mostras aos seus quejandos, a robustez exterior do pequeno computador luso. Digo exterior porque duvido que Chávez saiba a diferença entre a tecla Enter e o disco rígido.
Hoje os portugueses estão mais tecnológicos e mais info-incluídos, pese embora uma larga quantidade de alunos do 9º e do 12º ano não saber construir uma frase em português correcto (sabem com certeza escrever em linguagem de chat ou de sms) e muito menos a tabuada. Com um pouco de sorte, saberão a tabuada dos 2, porque a decoraram sob forma de ladainha, como quem decora a letra de uma música da Lady-GaGa.
Posto isto faz falta um terceiro choque, o qual, quero crer, muito ajudaria à credibilização da política, da economia e da sociedade em que vivemos: o choque da verdade.
Hoje não há cem por cento de certeza na veracidade da informação que nos é fornecida. O que num dia é dito, é desmentido mais tarde e a mentira tem consequências políticas, financeiras e sociais. Depois a Justiça tarda e nalgumas vezes falha e a impunidade segue em frente no seu percurso triunfal.
Se na política a mentira pode ser punida com derrotas eleitorais, temos um exemplo recente, na economia e nas finanças nem sempre é possível castigar quem não fala a verdade, usando esse método para especular e levando nalguns casos empresas à falência e pessoas ao desemprego ou a situações em que são os próprios países através da forma como estão expostos aos mercados e às suas consequências, a sofrerem as consequências desse perigoso método de mentir.
Veja-se também o sempre recorrente problema da evasão fiscal, em que as empresas e os empresários usam métodos de contabilidade criativa para fugir aos impostos, entre outros expedientes. Tem por base o quê? A mentira, naturalmente.
Ou seja, o culto da verdade traria inegavelmente mais benefícios que prejuízos aos mesmos de sempre, isto é, os que vivem permanentemente a ser enganados (eleitores que ainda acreditam na força do voto e povo trabalhador por conta de outrem), aos que não têm como enganar (povo trabalhador por conta de outrem, novamente), e aos que não querem fazer do engano e da mentira um modo de vida (haverá ainda alguns, estou certo).

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