As despesas de Cavaco

Cavaco Silva não tem nem nunca teve um milímetro de tolerância daqueles que não gostam dele, nunca votaram nele e que ele os derrotou por mais de uma vez. O homem que quando era primeiro-ministro dizia que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, o mesmo que não gastava mais do que cinco minutos a ler jornais, sempre foi uma espécie de alvo a abater. Longe vão os tempos em que o Portas e quejandos, se dedicavam exclusivamente a encontrar uma ponta por onde pegar em relação a Cavaco. À sua volta havia muito motivo, mas dele nunca conseguiram mais do que uma polémica relacionada com umas obras no apartamento da Travessa do Possolo que nem chegou a ser fumo, quanto mais fogo.
Mais recentemente tentaram a todo o custo, sem nunca se provar qualquer acto ilícito, envolvê-lo na escandaleira em que se transformou o BPN, uma vez por causa de umas acções e outra pela aquisição de uma casa no Algarve. Mais uma vez não se chegou a lado algum, já para não falar que no tempo dessas ocorrências, Cavaco Silva era um cidadão igual a tantos outros e não desempenhava qualquer cargo público.
Ganhas as eleições de forma categórica, e goradas as intentonas de o derrubar por via de danos colaterais, Cavaco vê-se agora novamente na berlinda da contestação por causa de uma frase infeliz, dita depois de ter sido massacrado com a polémica das reformas que aufere, nomeadamente a de colaborador do Banco de Portugal.
Naturalmente que Cavaco Silva não foi feliz no que disse. Naturalmente que as despesas a que se referia não são as mesmas da esmagadora maioria dos reformados que vivem com grandes dificuldades neste momento e também me parece óbvio que toda a gente percebeu o que ele quis dizer. Mas como o disse de modo errado, mas muito provavelmente com grande sinceridade, assistimos agora à sua crucificação em público.
Eu acho que os políticos, pese embora serem pessoas normais e iguais a tantas outras, devem tentar, na medida do possível, ser um exemplo para a comunidade, uma vez que são eles que decidem as nossas vidas em muitos aspectos. Como tal, é normal que as pessoas se zanguem, se indignem e até façam piadas e comentários menos abonatórios a respeito daquilo que disse. Mas convenhamos, só mesmo num estado de completa demência colectiva alguém pode achar que o Chefe de Estado se deve demitir por causa de uma frase que foi dita em relação à sua vida particular.
E aqui veja-se bem a diferença que faz a situação de Cavaco para a de muitas outras pessoas. Catroga e não apenas ele, vai receber um ordenado pornográfico, ainda goza com quem o questiona a esse respeito, mas mesmo assim passa sem se molhar pelas pingas da chuva quando ela cai torrencialmente. Cavaco, numa frase que ficará, é certo, para os anais da história como das menos felizes, é-lhe sugerida e peticionada a sua demissão. Talvez fosse bom as pessoas lerem o que diz a Constituição a respeito da figura do Presidente da República, da mesma forma que seria bom perceber-se exactamente a importância que o cargo tem no figurino democrático português.
Será que é mais grave o que Cavaco disse do que ver o então presidente Soares a pedir para um agente da PSP desaparecer da sua frente? Eu acho que as duas são igualmente más. Merecem reparo e até alguma crítica bem humorada. Porventura uma entrada directa para o anedotário nacional. Mas convenhamos, estão qualquer uma delas muito longe de poder afastar quem as proferiu da responsabilidade que o povo lhe conferiu.
Como tal, deixem-se de petições patetas que há coisas mais importante em que pensar.

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