terça-feira, 11 de dezembro de 2012

2013, o que podemos fazer por nós?



Se 13 é o número do azar, 2013 é o número da aflição.

É assim que se vão sentir muitas famílias durante o próximo ano quando o chamado reajustamento da economia que resulta do orçamento do Estado aprovado recentemente lhes entrar pela porta a dentro.
Não é tanto a avaliação qualitativa do documento o que importa neste texto, até porque não me sinto em condições de a fazer, mas antes uma reflexão generalizada sem qualquer intuito de dizer se é bom ou mau o que dele resulta. Até porque, olhando para os lados, é sempre fácil encontrar quem não concorda com um conjunto de medidas que nos levam dinheiro do bolso em impostos do que o seu contrário. A austeridade é madrasta, a complacência é madrinha.

Isto pode ser dramático e para muitas famílias com toda a certeza será. Porém estou inclinado para o lado daqueles que acham este parto não tem forma de ser feito sem dor, se o objectivo passa mesmo por não nos fecharem a torneira do dinheiro que chega após as avaliações periódicas da troika e que evitam o país de parar. Não há epidural suficientemente eficaz que nos evite o sofrimento. Isto vai ser mesmo a sangue frio. Valerá a pena? Essa é a grande questão. Eu também sou dos que tem dúvidas se não acabamos por morrer da cura.

Ainda assim acho que este pode ser um ensaio ou mesmo o exame final para saber se existe outra forma de vivermos que não seja acima das nossas possibilidades. E eu acho que há.

O Papa Bento XVI, por mais do que uma vez, tem chamado a atenção para uma coisa óbvia, mesmo para aqueles que não seguem a sua palavra. É necessário mudar o paradigma do quotidiano das sociedades modernas, valorizando mais os gestos de fraternidade, humanismo e bondade, contenção e resistência ao facilitismo, em vez do consumo desenfreado que não nos leva a outro caminho que não seja ao sobre endividamento, à incapacidade de fazermos face às responsabilidades contraídas e à insolvência da economia doméstica das famílias.

E por aqui há tanto caminho por onde andar.

Desde logo nos hábitos normais. No aproveitamento e no racionamento daquilo que consumismo por ser uma necessidade básica. Faz algum sentido que um português desperdice em média quase 100 quilos de comida por ano? Quantas bocas se alimentavam com esta quantidade de alimentos, multiplicada por quase 10 milhões de nós? E esta comida não tem de ser comprada? Alguém a produz, é certo. Mas não é para desperdício é para consumo adequado.

Depois nos recursos, energéticos ou de outra natureza, sobretudo os não renováveis. Não será hora de olharmos para o nosso dia-a-dia e começarmos a cortar no supérfluo? Existem tantas formas de poupar todos os dias em casa ou na rua. Com tecnologia adequada e hábitos corrigidos que vão desde o desligar luzes que não fazem falta até à correcta climatização, passando por um conjunto de outras atitudes que no fim do mês reduzem substancialmente os chamados “custos de produção” da “empresa” à qual damos o nome de vida familiar. Faz algum sentido nos deslocarmos sempre através dos meios mais caros e poluentes. Sabiam por acaso que uma viagem de ida e volta de comboio do Algarve a Lisboa, mesmo em primeira classe, custa tanto como apenas as portagens que um carro ligeiro paga na auto-estrada?

E isto só por si chega? Claro que não. Só gasta quem tem e muita gente não tem. Mas é na atitude e na vontade que se mudam as coisas que estão mal.

As crianças pedem-nos tudo o que lhes brilha nos olhos. Fará algum sentido satisfazer imediatamente a vontade desse pequeno(a) ditador(a) que nos derrete o coração mas nos ensurdece os ouvidos e nos torra o juízo quando reclama por algum capricho? Desde quando são melhores pais os que mais oferecem? Então e o resto? O beijo, o abraço, a atenção e o carinho, tudo recursos afectivos renováveis de elevado valor sentimental, ainda por cima gratuitos.

Mas nós só somos felizes quando temos o telemóvel da última geração, o tablet mais recente ou o carro mais potente recheado de extras? Aquele com que circulamos pelas esplanadas cheias de gente que passam o dia com uma chávena de café já vazia na frente e se espantam com o luxo dos outros? Fica bem meter no facebook as fotografias que tirámos nas férias na Republica Dominicana pagas até ao limite do plafond do cartão de crédito, quando nem sequer conhecemos bem o concelho onde vivemos?

Então e o resto? Então e quando olhamos à volta e não nos sobra mais do que dívidas para pagar?
Se calhar o 2013 vai fazer bem a muita gente que aprendeu a viver de uma fartura balofa que não tem qualquer sustentabilidade e no dia-a-dia será confrontada com os pequenos nadas da vida que tão gratificantes são, quando resultam do gesto generoso de alguém.

Mas também há os outros. Aqueles que já não lhes sobra nada. E quem nada tem nada gasta. Os que o desemprego e a pobreza gravaram na alma a aflição e a angústia de nada poderem fazer. É para esses que é preciso olhar e também por esses compreender que não existem verdades absolutas. Hoje são eles, amanhã podemos ser nós.

Sem falsos moralismo e consciente de todos os meus pecados, acho que o ano que se aproxima é um bom teste de resistência não só à nossa capacidade de sofrimento mas também à nossa habilidade em mudarmos de vida e de paradigma, bem como em tornar a nosso quotidiano mais racional. Os bons exemplos não se pedem, demonstram-se. E alguns ficam-nos muito bem e não custam nada.