quarta-feira, 30 de novembro de 2011

1 de Dezembro - Quem não tem memória não tem futuro

Um dos feriados que o governo pretende suprimir ou comemorar a um domingo quando o calendário ditar a um dia de semana, é o de amanhã: o 1 de Dezembro.
Por muito interessante que seja o discurso da produtividade do país ou a falta dela, aquilo que me ocorre dizer é que quem não tem memória, não tem futuro. Ou seja, se há feriado importante no calendário português o 1 de Dezembro é seguramente um dos principais. E porquê? Porque marca a restauração de Portugal enquanto país independente e autónomo, depois de 60 anos de domínio espanhol.
Alguns abominam esta data porque acham que estaríamos melhor pertencendo a Espanha do que como nação que somos. Talvez. Em Timor-Leste também havia timorenses que achavam melhor serem indonésios.
A verdade é que alguns séculos antes, na célebre Batalha de Aljubarrota que ditou a derrota do exército espanhol e o fim da crise dinástica provocada pela morte de D. Fernando o qual não tinha descendência masculina, muito foi o sangue que se derramou para construir um país chamado Portugal, sem estar dependente das cortes castelhanas. Quem diz Aljubarrota, diz todo um período de conquistas que desenharam a geografia do país que hoje somos, nomeadamente na fase das conquistas aos mouros.
Felizmente em 1640, havia um D. João IV (curiosamente de descendência espanhola) que tinha a noção da necessidade imperiosa de sermos uma nação independente. Na altura houve uma mobilização generalizada nos diversos sectores da sociedade para que Portugal não fosse uma província espanhola, consubstanciada num grupo de nobres revoltosos que invadiram o palácio real, aprisionando Margarida de Sabóia, à data dos factos encarregue do reino e representante dos interesses filipinos e matando um dos maiores traidores da pátria, neste caso Miguel de Vasconcelos. E assim se restaurou Portugal.
Os anos seguintes foram naturalmente de conflitos com os exércitos espanhóis, mas a independência do Estado manteve-se.
Se isto não é importante e não merece um dia feriado, então o 25 de Abril também não faz qualquer sentido ser comemorado no dia em que se deu e o 5 de Outubro a mesma coisa. Porque se um marca o fim da ditadura e a fundação do regime democrático e o outro o início da república que é o sistema que temos até hoje, o 1 de Dezembro marca a restauração de Portugal enquanto nação livre e independente. Sem isso não haveria 5 de Outubro e muito menos 25 de Abril.
O que se pretende fazer agora, confunde-se com a diminuição do gesto de coragem daqueles que no passado ajudaram a fazer de Portugal o país que somos. A pretexto de mais trabalho e mais produtividade, faz-se tábua rasa da memória colectiva de um povo.
Tal como em 1640, Portugal parece estar a perder a cada dia que passa a sua independência, vivendo hoje sob o comando dos mercados, do dinheiro do FMI, das imposições da troika, das orientações de uma União Europeia sem liderança política e da vontade discricionária de Merkel e Sarkozy, que parecem ser nos dias de hoje o D. Filipe IV de Espanha e III de Portugal do século XVII.
Haja memória.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O que sobrou da greve?

Qual foi o problema que a greve geral do dia de ontem resolveu? Nenhum.
Os cortes nos subsídios dos funcionários públicos e dos reformados mantêm-se. O aumento do horário laboral no sector privado, também. Não houve nenhuma alteração, nem era expectável que houvesse.
Então o que sobrou da greve?
Quem a fez vai ter o reflexo financeiro negativo no ordenado do próximo mês. A produtividade do país foi prejudicada. Os cidadãos foram muito incomodados. A PSP teve de distribuir umas porradas e uns energúmenos que desafiaram a ordem pública foram passar a noite a uma esquadra.
Hoje o país acordou pior do que adormeceu na noite anterior à greve.
No meio disto tudo os dirigentes sindicais fizeram o número mediático. Apareceram na imprensa. Bramiram contra o governo e os patrões. Contabilizaram uma vitória de Pirro para os respectivos partidos, neste caso o PCP e o PS.
Há mais alguma coisa importante a referir? Parece que sim. Numa sondagem feita há poucos dias o primeiro-ministro mantém a melhor popularidade entre os políticos, pese embora as medidas de austeridade que teve de apresentar, acrescido ao facto de ter manifestado publicamente alterações de opinião em relação ao que disse na campanha eleitoral. Significa isto que, pese embora a surpresa que isso possa causar, os portugueses não olham para Passos Coelho como um problema mas sim como uma solução. O problema foi para Paris. A solução poderá estar em Massamá.
Em relação às motivações da greve, julgo que nenhum português com juízo deixará de compreender a violência que significa para algumas famílias a perda de rendimentos com os quais contavam para equilibrar a economia doméstica. Mas fazer greve altera alguma coisa? E se essas medidas não forem tomadas o que acontecerá daqui a uns tempos? Haverá dinheiro para pagar ordenados no Estado? Para garantir a segurança dos cidadãos? Para manter hospitais abertos a funcionar com condições de assistência? Para manter aquilo a que chamam o Estado Social que tem servido em grande parte para gastar acima das possibilidades do próprio Estado?
Provavelmente não.
Mas também para que serve um Estado com as contas saldadas e o seu povo sem dinheiro para comer e as empresas sem recursos financeiros para investir e criar postos de trabalho? É de facto uma encruzilhada aquela em que vivemos.
Ainda assim, isto não significa que não possam ser feitas outras coisas, nomeadamente reduzir os gastos supérfluos do Estado a que vulgarmente agora se chama de “gorduras”. Também sou dos que acham que é preciso apurar melhor alguns mecanismos de controlo e repartir o esforço por todos e não apenas por alguns. Há uma carga fiscal pesada sobre parte dos contribuintes, mas também há muitos que ainda conseguem passar entre as pingas da chuva sem se molharem.
Uma última nota para o que se passou ontem em frente ao Parlamento. Quem lá esteve a manifestar-se tem um conceito de liberdade e de democracia diferente do meu. Para eles a liberdade significa fazer tábua rasa do conceito de Estado de Direito, avançado em sinal de provocação contra as forças da autoridade. Arrogam-se de propósitos que só eles entendem, a pretexto de uma liberdade que é só deles. A cambada que esteve a provocar e a insultar as forças de segurança na escadaria do Palácio de São Bento não são democratas. Se fossem entenderiam que a representação do Estado é escolhida através de eleições cujo resultado todos devem respeitar. Se eles se indignam em relação a um Estado que não existe para os sustentar, eu indigno-me com o ideal anárquico com que se arrogam para desafiarem a autoridade e colocarem em perigo a ordem pública. Sou contra qualquer tipo de violência, mas nestes casos é começar numa ponta e acabar na outra. Quem não quer viver com regras básicas de respeito e convivência, tem de sofrer as consequências.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Estamos pobres mas não estamos infelizes.

O Algarve está numa encruzilhada por mais que queriam fazer crer o contrário. Não se trata de pessimismo nem de catastrofismo, mas sim da mais pura e dura realidade.
Senão vejamos:
O desemprego atingiu números inimagináveis há uns anos atrás. É uma das regiões com a maior taxa e onde parece não haver renovação do tecido económico, o que pode significar a completa incapacidade de criação de novos postos de trabalho que possam ajudar a inverter a situação. Mais de 13% da população activa não tem emprego. De região recebedora de mão-de-obra proveniente de vários pontos do planeta, que tinha na construção civil o principal sector, temos agora a situação de debandada generalizada. Não há trabalho para os de cá, quanto mais para os de lá. Aliás, neste domínio o Algarve parece hoje, nalgumas zonas, um imenso estaleiro de obras abandonadas, já para não falar dos milhares de apartamentos e moradias que estão concluídos mas vazios por falta de quem os compre. Tão cedo a situação não se irá inverter, pelo menos enquanto a banca mantiver uma política de restrição ao crédito.
No turismo, como já não bastava a nuvem da crise financeira que assola toda a Europa nomeadamente alguns países que são clientes potenciais do destino que é o Algarve (a Irlanda é um bom exemplo), a qual retrai a procura, o governo decidiu ajudar o sector aumentando a taxa do IVA. Resultado: hotéis fechados nalgumas alturas do ano, restaurantes vazios e comércio às moscas.
Mesmo com a Ryanair a vender bilhetes de avião ao preço do bacalhau a pataco, não é suficiente para contrariar o sentimento negativo que se verifica no sector. Até o turismo nacional é melhor não contar muito com ele, uma vez que em 2012 e 2013 se algumas famílias não vão receber o subsídio de férias, talvez não tenham argumentos suficientes, leia-se euros, para descer até à melhor região da Europa. Mesmo que passem o ano inteiro a fazer poupança e nalguns casos isso pode significar deixar de comprar bens de primeira necessidade, dificilmente poderão vir gozar o sol e a praia. Acredito que ainda hajam pessoas que prefiram passar 11 meses de angústia e de pobreza envergonhada, para terem a oportunidade de se vir pavonear uma ou duas semana para o calçadão de Quarteira, para a avenida marginal da Praia da Rocha ou sacudir o esqueleto no Manta Beach. Mas serão a minoria.
Por fim os demais sectores de actividade estão cada vez mais decrépitos e vetados ao abandono, desde logo a agricultura e as pescas que hoje não se constituem como motor da economia, bem pelo contrário. O turismo era a nossa única indústria lucrativa e como é sabido parece haver todo um plano para a aniquilar e não é de hoje.
A cereja em cima do bolo bolorento que nos querem dar a provar, é o estado caótico em que se encontram as autarquias da região, umas mais do que outras, que vivem numa situação financeira aflitiva, sem condições para honrar a tempo e horas compromissos com fornecedores, com a implicação que isso tem nas empresas, sejam elas micro, pequenas ou médias. Para além disso, descapitalizadas como estão, não têm condições de fazer investimento público o que significa falta de trabalho para muitas empresas que empregavam centenas de pessoas e estão a deixar de o fazer. Falo das autarquias uma vez que na maior parte dos concelhos, senão mesmo em todos, são a maior entidade empregadora e as que mais investimentos locais fazem.
Para fechar com chave de ouro, vamos ter o pagamento de portagens na Via do Infante com todas as implicações económicas e sociais que isso irá significar na vida das pessoas e das empresas, empurrando-nos para uma estrada miserável e assassina como é a125, cheia de buracos, cruzamentos e entroncamentos, casas dentro da berma e nalguns casos quase na faixa de rodagem, repleta de armadilhas e semáforos que não permitem uma viagem normal de 20 quilómetros de distância ser feita em menos de meia-hora.
Este é o Algarve que temos hoje e não há garantia nenhuma que o de amanhã seja melhor. Não sei se fizemos mal a alguém ou se isto é apenas o resultado de não termos tido a coragem e o desvelo para prevenir males como estes.
Nem tudo é mau. Temos um estádio que é um encanto, pese embora quase não ser utilizado, uma auto-estrada que nos leva à capital em pouco tempo, a Ryanair que nos liga à Europa por meia dúzia de euros, uma Ria Formosa que é uma maravilha da natureza, praias como não há outras na Europa, peixe fresco a assar na grelha, boa aguardente de medronho e o Zézé Camarinha que é o ícone da virilidade masculina nacional.
Estamos pobres mas não estamos infelizes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Com papas e bolos se enganam os tolos

Nesta altura de forte crise financeira mundial, em que poucos conseguem ver a luz ao fundo do túnel, há muita gente a ganhar dinheiro. Se não repare-se:
No dia em que a cimeira da União Europeia decidiu o perdão de metade da dívida grega, os mercados reagiram de imediato com as acções de alguns bancos a subirem para cotações interessantes tendo em conta os dias que correm. Ou seja, o acordo animou os mercados. Repare-se que não houve nenhum facto financeiro em concreto, houve apenas uma decisão política que como é óbvio tem consequências.
Porque o perdão da divida helénica tinha consequências para aquele país, o primeiro-ministro lançou-se numa jogada política de propor um referendo ao povo, para não ficar sozinho com o ónus da decisão. Do ponto de vista democrático a medida é louvável, mas para os signatários do perdão essa iniciativa levantou uma nuvem de incerteza. O que fizeram os mercados? Caíram a pique, tendo-se vivido no passado dia 1 de Novembro um autêntico vendaval de dinheiro a sair a rodos dos mercados financeiros. Quem foram os autores do vendaval? Os mesmos de sempre: os especuladores.
Note-se que não havia qualquer certeza do referendo vir a ser agendado, o que hoje se confirmou. Os nervos invadiram as principais praças financeiras mundiais, apenas e só porque surgiu um sentimento dissonantes em relação ao que os mercados entendem ser um grau de estabilidade. Assim sendo, os bancos que mais expostos estão à dívida grega viram as suas acções baixar para mínimos históricos e os accionistas sentiram a amargura de ver o dinheiro a fugir-lhe entre os dedos, ainda que de modo figurado.
O dinheiro fugiu? Não. Apenas mudou de mãos. Alguém perdeu para que outros tenham ganho, senão agora uns dias mais tarde.
Ou seja, a situação é tão pateticamente dramática que qualquer vírgula ou comentário de um líder político, é o suficiente para gerar um tsunami nos mercados financeiros. Qual a razoabilidade de tudo isto? Aparentemente nenhum. A vida deste novo tempo faz-se de mais ou menos adrenalina, mais ou menos incerteza e com certeza de muita jogada ao mais alto nível para ganhar dinheiro.
Longe não virão os tempos, em que um problema de flatulência da senhora Merkel, seja o suficiente para mandar abaixo a estabilidade dos mercados.
Quanto maior é a parvoíce, não encontro outro nome para a forma como os mercados reagem a coisas que não valem nada e nem sequer se chegam a confirmar, mais dinheiro sobrará nas contas bancárias milionárias dos especuladores. Por isso o mundo está como está.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Estadistas e Políticos

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil, definiu e bem a diferença entre um político e um estadista, afirmado que na Europa sobram os primeiros e faltam os segundos.
Segundo Cardoso, estadista é aquele que se preocupa com o Estado, independentemente das consequências, vendo ao longe o que outros não conseguem ver ao perto e tomando medidas sem se preocupar com eleições. Por outro lado, um político é aquele que, podendo estar coberto de boas intenções, decide em função das circunstâncias preocupando-se essencialmente com o impacto eleitoral que as suas decisões podem suscitar.
Isto, numa primeira análise, leva a pensar que não há estadistas em democracia, nem políticos em ditadura. Não deixe de ser um pouco verdade.
Repare-se no caso de Portugal, talvez não seja muito politicamente correcto afirmar, mas é difícil de contrariar, que o único governante que para o bem e para o mal não se preocupou com eleições foi Salazar, o qual, tivesse tido o discernimento suficiente para deixar o povo decidir livremente o seu destino, findo o pesadelo económico em que Portugal estava mergulhado quando ascendeu a Presidente do Conselho e hoje seria recordado em todas as praças deste país com bustos e estátuas de corpo inteiro. O rumo da história não foi este. Não só não percebeu a hora de sair, como mergulhou de cabeça numa guerra estúpida nas colónias ultramarinas, amordaçou as liberdades dos seus cidadãos e perseguiu aqueles que pensavam de modo diferente. Foi de bestial a besta num instante, sendo certo que hoje são muitos os que olham à volta e só vêm pilantragem e sem-vergonhice e ficam com a sensação que isto só se endireita com alguém que não tenha medo de cortar a direito, independentemente das consequências. Ou seja, um estadista como Salazar o foi antes de se tornar ditador.
Porque o que o Portugal democrático nos trouxe foi essencialmente homens e uma mulher políticos. Apenas um, estava no caminho certo daquilo que seria colocar em primeiro lugar e sem hesitações os interesses do Estado, sem estar preocupado com sondagens eleitorais. Mas esse, alguém tratou de o matar de propósito ou por consequência colateral, no interior de uma avioneta despenhada num telhado de Camarate.
Depois de Sá Carneiro, nenhum primeiro-ministro governou sem pensar em eleições e sobretudo em reeleições. Mesmo Cavaco Silva que foi de longe o melhor primeiro-ministro de Portugal e que retirou o país do sentimento albanês em que vivíamos, foi capaz de fazer tudo o que era necessário fazer para nos dar a nós um sentido de decência e de vivência responsável. Tudo o que veio a seguir foi a decadência completa do exercício governativo, com uns que fugiam e outros que mentiam, acrescentando até uma criatura que preferia dormir a sesta do que atender aos compromissos oficiais das suas funções, nos intervalos em que dissertava sobre incubadoras e pontapés no recém-nascido.
O resultado está à vista: um Portugal a soldo refém da ajuda externa, depois de ter desperdiçado oportunidades, umas atrás das outras.
Resta-nos a esperança de acreditar que outro Salazar virá, mas desta vez um que saiba conviver com a democracia e o direito à liberdade, mas que tenha a audácia, a inteligência e sobretudo a seriedade do homem de Santa Comba Dão.