terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Intervenção na Reunião da Câmara Municipal de Tavira a 31 de Janeiro de 2012

No passado dia 17 de Janeiro, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Tavira participou num almoço do seu partido, onde fez declarações públicas que merecem o meu reparo.

Se a sua intervenção tivesse apenas eco para o interior do Partido Socialista, não faria muito sentido avaliá-la e muito menos aqui, uma vez que cada um vive e convive com a realidade que quer. Tendo sido dada nota pública da mesma, quer pela imprensa quer através das redes sociais e nestes casos chegando ao conhecimento dos munícipes, não quero deixar de expressar o meu sentido de análise sobre o assunto, uma vez que considero tremendamente injustas e não verdadeiras algumas afirmações que foram feitas.

Afirmou o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Tavira que a política deve ser feita de verdade e sem promessas que não se podem cumprir. Concordo, subscrevo e aplaudo.

Porém, logo a seguir, afirmou que no presente mandato que apenas chegou a pouco mais de metade, muita coisa já foi feita, nomeadamente obras que estavam «prometidas há muitíssimos anos» (sic) e que nos anteriores apenas se faziam urbanizações, casas e apartamentos, já que «equipamentos municipais, nem por isso, obra pública, nem por isso». Fim de citação.

Como é do conhecimento geral, incluído o do Senhor Presidente, esta afirmação não corresponde à verdade e nem mesmo o ambiente comicieiro que pode ter um almoço partidário, justifica semelhante imaginação criativa. Aliás, imagino a cara de espanto com que ficaram alguns Presidentes de Junta de Freguesia do PS, nomeadamente os de bom senso porque também os há, quando escutaram estas palavras, sabendo eles que nos últimos mandatos a esmagadora maioria das obras públicas feitas no seu território, foram da iniciativa da Câmara Municipal.

Antes deste executivo entrar em funções, foram cumpridos três sempre com o mesmo Presidente de Câmara. No último eu integrei o executivo autárquico, tendo a meu cargo como principal pelouro as empreitadas municipais, leia-se obras públicas, entre outras missões que me foram confiadas.

Quando alguém usa a expressão «obras públicas nem por isso», para além de estar a negar as evidências está a criticar-me directamente. Seria legítimo se fosse justificado. Não o sendo, é merecedor de reparo.

Não vou cair na adjectivação para não cometer a mesma injustiça da qual me sinto vítima, mas também porque tenho do exercício da política uma ideia de cordialidade onde o confronto de ideias não pode abalar as relações pessoais que se querem civilizadas e normais. Porém, não posso deixar de referir que é de uma demagogia gritante, alguém afirmar que durante os 12 anos em que o PSD liderou um projecto autárquico em Tavira, apenas se fizeram urbanizações e apartamentos.

Para que fique bem claro, as que se fizeram foram sob regras de um Plano Director Municipal que não foi elaborado, nem decidido, nem aprovado por nenhum autarca do PSD. Era um instrumento que transitava da gestão socialista, tendo sido o último do Algarve a ser aprovado, atrasando bastante o desenvolvimento do concelho, nomeadamente ao nível das transferências dos fundos de coesão, tão necessários à concretização de obras públicas no município.

Aliás, nem percebo hoje como não percebi no passado, porque o PS tem tanta aversão ao sector da construção civil, conforme demonstrou mais uma vez nas palavras do seu líder concelhio e Presidente da Câmara. Desdenhará as receitas que daí advêm e que ao entrarem nos cofres municipais servem para fazer o bem público? Prescindirá do impulso que o sector da construção civil dá ao combate ao desemprego, uma vez que gera milhares de postos de trabalho directos e indirectos? Aliás, basta abrir os olhos e ver que é estranho este discurso contra o sector da construção civil quando se tem um vice-presidente que é arquitecto e com legitimidade trabalhou para a concretização de alguns projectos urbanísticos no passado recente, ou quando o Presidente da Assembleia Municipal eleito pelo PS é ou era empresário da construção civil, o qual também desenvolveu vários projectos urbanísticos no concelho, alguns deles para a própria autarquia.


Porque só pode ser de um exercício de memória, neste caso a falta dela, a raiz da imprecisão das afirmações do Senhor Presidente da Câmara de Tavira, vou, com um espírito solidário de altruísmo, mas também de paciência, recordar um conjunto de obras que foram feitas entre 1998 e 2009. Não vou mencionar todas porque são mesmo muitas. Vou apenas concentrar-me nas mais importantes. No fim, se no espírito do Senhor Presidente ainda subsistir um “nem por isso”, ou eu não fui suficientemente explícito e aí mea culpa, ou outra razão assiste a tamanha incompreensão. Uma vez mais não vou cair no erro de adjectivar para não ser mal entendido e preservar o que de melhor existe na democracia que é a boa convivência entre pessoas de pensamentos e opiniões diferentes mas que no fundo se relacionam com educação e cortesia.
Vou, portanto, resumir-me a factos concretos.

Então vejamos, sem qualquer ordem de preferência:

Património que na nossa cidade estava abandonado em 1997 e foi recuperado:
Palácio da Galeria
Casa Irene Rolo
Casa André Pilarte
Casa Cabreira (actual arquivo histórico)
Mercado da Ribeira
Convento da Graça (adquirido ao Estado pela autarquia, com o voto contra do Senhor Presidente quando era membro da Assembleia Municipal, e entregue à Enatur para recuperação e exploração).
Conservação da muralha envolvente ao Convento da Graça

Novos equipamentos desportivos ou de lazer que não existiam:
Pavilhão Municipal da Luz de Tavira
Piscinas Municipais (cujos projectos e apenas isso transitaram do executivo do PS que cessou funções em 1998)
Polidesportivos da Conceição de Tavira, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Santa Margarida, Santo Estêvão e do Livramento
Relvado do campo de jogos do Ginásio Clube de Tavira
Arranjo da pista de ciclismo
Construção da Escola Fixa de Trânsito e do Parque Radical
Requalificação do Parque Infantil de Santiago no Largo Tabira de Pernambuco
Construção do Jardim da Água
Construção do Jardim do Infantário da Cruz Vermelha
Construção do Jardim do Sapal, junto ao Pingo Doce
Construção do troço de Tavira da Ecovia
Construção de campos de ténis juntos às piscinas municipais
Parque de Lazer da Fonte Férrea em Cachopo
Requalificação paisagística do Pego do Inferno


Rede viária nova

Estrada do Cabeço do Boi
Estrada do Beliche/Umbrias de Camacho
Estrada da Malhada do Judeu/Alcaria Fria
Estrada dos Castelos/Corte António Martins
Estrada das Alcarias Altas
Estrada de ligação da 397 às antenas da Alcaria do Cume
Estrada da Carrapateira
Estrada dos Estorninhos
Estrada dos Relvais
Estrada da Mealha
Estrada de Vale de Ebros
Estrada do Barranco da Nora
Ponte de Santiago
Ponte da Fornalha
Ponte dos Castelos
Marginal da Torre de Aires

Pavimentação das estradas que estava em mau estado:
Estrada “Caminho do Meio”
Estrada da Fonte Salgada/Ribeiro dos Mosteiros
Estrada dos Estorninhos
Estrada do Faz Fato
Estrada da Amoreira
Estrada da Maragota
Estrada do Almargem/Mata de Santa Rita
Estrada do Poço das Bruxas (Santo Estêvão)
Repavimentação de várias ruas de Tavira que tinham sido danificadas com as obras das redes de saneamento básico das Águas do Algarve e da Taviraverde.

Requalificação urbana
Requalificação da Praça da República
Requalificação da Rua da Liberdade
Requalificação da Rua dos Pelames e do Largo Gonçalo Velho
Arranjos exteriores da Atalaia
Arranjos exteriores da Horta do Carmo
Requalificação do Largo do Alto de Santa Ana
Arranjos exteriores do Bairro dos Pescadores de Santa Luzia
Arranjos exteriores do Bairro dos Pescadores de Cabanas
Requalificação da marginal de Santa Luzia
Requalificação do Largo da República na Luz de Tavira
Requalificação da Rua da Estação na Luz de Tavira
Requalificação do Largo da Igreja de Santa Catarina da Fonte do Bispo
Requalificação do Largo da Igreja de Cachopo e ruas adjacentes
Requalificação do Largo da Igreja de Santo Estêvão
Requalificação do Largo da Igreja da Nossa Senhora do Livramento em Tavira
Pedonalização das ruas António Cabreira, Dona Brites e Estácio da Veiga



Obras de natureza social e religiosa
Centro de Dia de Santo Estêvão
Centro de Dia de Cachopo
Centro de Dia de Cabanas
Centro de Dia de Santa Luzia
Restauro da Igreja de Cachopo, de Santo Estêvão, da Capela de Santa Ana e da Capela de São Sebastião
Requalificação do Centro Paroquial de Cabanas
Requalificação da Casa do Povo da Luz de Tavira
Construção de raiz da nova sede da Casa do Povo de Santo Estêvão
Requalificação da Casa do Povo de Santa Catarina da Fonte do Bispo
Cedência de terreno e comparticipação na construção do Centro de Acolhimento Uma Porta Amiga
Construção da Casa Mortuária da Conceição de Tavira



Habitação Social
Requalificação do Bairro Jara
Construção de fogos na Atalaia, na Horta do Carmo, em Santa Catarina da Fonte do Bispo, na Quinta das Salinas, em Santa Luzia, em Cachopo e na Conceição de Tavira.

Educação
Requalificação da Escola da Estação
Requalificação da Escola da Porta Nova
Requalificação das Escolas de Santa Luzia
Requalificação da Escola de Santo Estêvão
Construção de um edifício novo na Escola Dom Manuel para o ensino pré-primário e primeiro ciclo
Construção do novo Infantário ECO

Outros Equipamentos Públicos
Biblioteca Municipal Álvaro de Campos
Mercado Municipal
Mercado de Cabanas
Sede da Junta de Freguesia de Cabanas
Centro de Ciência Viva
Espaço Internet (foi o primeiro no Algarve)
Museu de Cachopo
Instalação da rede de fibra óptica municipal
Armazém da Junta de Freguesia de Santa Luzia
Armazém da Junta de Freguesia da Luz de Tavira
Dezenas de sedes sociais para clubes e associações
Construção dos parques de estacionamento das Salinas, da Rua Chefe Afonso, do Bairro 1º de Maio (vulgo Bela Fria) e da GNR
Construção do Parque de Feiras e Exposições
Construção de apoios de pesca em Santa Luzia e Cabanas e para os mariscadores da Torre de Aires
Pólo do Instituto de Emprego e Formação Profissional
Nova loja da Segurança Social
Quartel dos Bombeiros em Cachopo
Construção dos cais de embarque nas praias de Cabanas e Terra Estreita
Construção de várias rotundas em cruzamentos da EN125 e respectivo arranjo paisagístico, nomeadamente junto ao cemitério de Tavira, Alto do Cano e Fonte Salgada

Entretanto foram deixadas em curso ou em situação irreversível:

A via de cintura do Mato de Santo Espírito
A estrada da Malhada do Peres
A segunda fase dos fogos de habitação social do Bairro Jara que este executivo entregou as chaves discretamente para não causar alarido às centenas de famílias a quem prometera uma casa em campanha eleitoral, sabendo que não podia cumprir.
A estrada de Santa Luzia
A estrada da Alcaria Fria/Alcaria do Cume
A estrada do Carapeto
A nova escola da Horta do Carmo
A marginal de Cabanas que não sendo a autarquia a dona da obra, foi quem fez o projecto e financiou parte da empreitada.
As infra-estruturas do Parque Industrial
A construção do Museu Islâmico (ex-edifício do BNU)

A estas obras acrescentam-se também muitos milhares de euros em investimentos feitos na área do ambiente em todo o concelho, pela Tavira Verde, Empresa Municipal, os quais resultaram num grande benefício para os munícipes, nomeadamente na contentorização dos RSU, na remodelação das redes de água e de esgotos, na construção de ETARs nos montes mais populosos do interior, bem como a instalação das respectivas redes.

Ainda bem que ficaram estas obras por terminar ou por começar. Elas são de Tavira e dos tavirenses. Se assim não fosse o actual mandato resumir-se-ia a pouco mais do que uma rotunda feita no cruzamento da Rua Luís de Camões com a Francisco Sá Carneiro, ou o corte ao meio da Praça da República que significou o desrespeito pelo direitos de autor do arquitecto que projectou a obra de requalificação daquele espaço, o qual, até prova em contrário, não veio dinamizar a baixa comercial, apenas injectou mais trânsito automóvel no centro da cidade.

Disse igualmente que há muitos anos não havia um Verão em Tavira como o último. É curioso. Fez-se exactamente o que já se fazia e até os artistas dos maiores concertos eram repetentes, à excepção da fadista Carminho. Só que no passado tratou-se sobretudo de investimento da autarquia e agora ou estavam integrados na programação Allgarve ou vieram ajudar a vender apartamentos do Convento das Bernardas. Tudo o resto foi exactamente no mesmo figurino daquilo que durante vários anos se fez. Mas aqui não me quero alongar, até porque não tive responsabilidades políticas nesta área. Alguém o fará melhor que eu e com mais legitimidade.

A história não se nega, conta-se e interpreta-se.
As obras públicas e os equipamentos municipais que enumerei fazem parte da história recente do nosso concelho. A expressão “nem por isso” não foi feliz, muito pelo contrário. Dita em ambiente de festa partidária até pode recolher alguns aplausos, o que até nem aconteceu. Tendo eco na opinião pública que não usa cartão de militante mas possui boa memória, tem um ar de história mal contada para não dizer outra coisa pior.

No período em que fui vereador das infra-estruturas, apenas quatro anos, adjudicaram-se cerca de 270 empreitadas, tendo em 2007 registado 90 adjudicações o que constitui o maior número de sempre. Aqui enumerei mais de uma centena de obras públicas que são as mais emblemáticas.

Nem tudo o que foi feito teve o resultado desejado e muito ficou por fazer. Mas o surto de obras públicas feitas no concelho desde 1998, são em número impressionante e não há como negá-las. Muitas tiveram comparticipações ou do Estado ou da União Europeia. Naturalmente. Eram esses os instrumentos que estavam ao dispor da autarquia. Mas que ninguém pense que esses apoios nos foram entregues com facilitismo. Foi preciso correr atrás deles. Fazer candidaturas. Fazer projectos, Desbloquear impasses e executar e gerir empreitadas. O muito que se fez só pode ser motivo de orgulho para os tavirenses de boa consciência.

Espero que a minha intervenção tenha servido para ajudar a aclarar ideias e esclarecer dúvidas. Não a fiz por razões que não tenham a ver com a minha boa consciência de autarca que fui e sou e resumi-me a factos.

Não faço gestão de silêncios e estou convencido que após esta minha intervenção, não ficará ressentimento da vossa parte mas sim o reconhecimento que o concelho que receberam para administrar pelo voto e vontade popular em 2009, é muito melhor que aquele que um dia alguém recebeu, numa tarde de Janeiro de 1998, aqui nesta mesma sala.

Valorizar os nossos adversários e reconhecer os seus méritos quando eles existem é ao mesmo tempo valorizar a nossa acção e a vitória que tivemos sobre eles.

Tavira, 31 de Janeiro de 2012
Paços do Concelho

Fernando Viegas
Vereador do PSD

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

As despesas de Cavaco

Cavaco Silva não tem nem nunca teve um milímetro de tolerância daqueles que não gostam dele, nunca votaram nele e que ele os derrotou por mais de uma vez. O homem que quando era primeiro-ministro dizia que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, o mesmo que não gastava mais do que cinco minutos a ler jornais, sempre foi uma espécie de alvo a abater. Longe vão os tempos em que o Portas e quejandos, se dedicavam exclusivamente a encontrar uma ponta por onde pegar em relação a Cavaco. À sua volta havia muito motivo, mas dele nunca conseguiram mais do que uma polémica relacionada com umas obras no apartamento da Travessa do Possolo que nem chegou a ser fumo, quanto mais fogo.
Mais recentemente tentaram a todo o custo, sem nunca se provar qualquer acto ilícito, envolvê-lo na escandaleira em que se transformou o BPN, uma vez por causa de umas acções e outra pela aquisição de uma casa no Algarve. Mais uma vez não se chegou a lado algum, já para não falar que no tempo dessas ocorrências, Cavaco Silva era um cidadão igual a tantos outros e não desempenhava qualquer cargo público.
Ganhas as eleições de forma categórica, e goradas as intentonas de o derrubar por via de danos colaterais, Cavaco vê-se agora novamente na berlinda da contestação por causa de uma frase infeliz, dita depois de ter sido massacrado com a polémica das reformas que aufere, nomeadamente a de colaborador do Banco de Portugal.
Naturalmente que Cavaco Silva não foi feliz no que disse. Naturalmente que as despesas a que se referia não são as mesmas da esmagadora maioria dos reformados que vivem com grandes dificuldades neste momento e também me parece óbvio que toda a gente percebeu o que ele quis dizer. Mas como o disse de modo errado, mas muito provavelmente com grande sinceridade, assistimos agora à sua crucificação em público.
Eu acho que os políticos, pese embora serem pessoas normais e iguais a tantas outras, devem tentar, na medida do possível, ser um exemplo para a comunidade, uma vez que são eles que decidem as nossas vidas em muitos aspectos. Como tal, é normal que as pessoas se zanguem, se indignem e até façam piadas e comentários menos abonatórios a respeito daquilo que disse. Mas convenhamos, só mesmo num estado de completa demência colectiva alguém pode achar que o Chefe de Estado se deve demitir por causa de uma frase que foi dita em relação à sua vida particular.
E aqui veja-se bem a diferença que faz a situação de Cavaco para a de muitas outras pessoas. Catroga e não apenas ele, vai receber um ordenado pornográfico, ainda goza com quem o questiona a esse respeito, mas mesmo assim passa sem se molhar pelas pingas da chuva quando ela cai torrencialmente. Cavaco, numa frase que ficará, é certo, para os anais da história como das menos felizes, é-lhe sugerida e peticionada a sua demissão. Talvez fosse bom as pessoas lerem o que diz a Constituição a respeito da figura do Presidente da República, da mesma forma que seria bom perceber-se exactamente a importância que o cargo tem no figurino democrático português.
Será que é mais grave o que Cavaco disse do que ver o então presidente Soares a pedir para um agente da PSP desaparecer da sua frente? Eu acho que as duas são igualmente más. Merecem reparo e até alguma crítica bem humorada. Porventura uma entrada directa para o anedotário nacional. Mas convenhamos, estão qualquer uma delas muito longe de poder afastar quem as proferiu da responsabilidade que o povo lhe conferiu.
Como tal, deixem-se de petições patetas que há coisas mais importante em que pensar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Comandante e o rato

A 15 de Janeiro de 2009, um Airbus 320 descolou do aeroporto de La Guardia em Nova Iorque, com destino a Charlotte, uma outra cidade norte-americana. Aos seus comandos ia um ex-piloto da força área daquele país, Chesley Burnett Sullenberger, Sully para os amigos.
Nada fazia prever que naquela manhã de frio, o 320 da US Ariways tivesse um inesperado encontro com um bando de gansos, pouco tempo depois de levantar voo. Quis o acaso que os pobres pássaros fossem aspirados pelos potentes reactores do Airbus, o que provocaram a imediata paragem de ambos.
Porque estas coisas são treinadas em simuladores até à exaustão, a tripulação liderada pelo Comandante Sully iniciou os procedimentos de aterragem de emergência, uma vez que o avião tinha perdido a sua fonte de força para voar. Para quem não conhece, o aeroporto de La Guardia fica numa zona com grande densidade urbana, encostado a Flushing Bay. Reportado o acontecido e visto que não era possível levar o avião em segurança até uma das pistas de aviação que existem na zona, o Comandante Sully decidiu amarar o Airbus em pleno rio Hudson, de modo a evitar uma catástrofe maior e por ser o local onde havia mais probabilidade de salvamento para os passageiros. E assim foi. Numa verdadeira demonstração de perícia e sangue-frio, o avião amarou e foi possível resgatar todos os passageiros e tripulação, sem um arranhão sequer. Apenas não foi possível evitar algumas constipações uma vez que foi necessário molhar os pés nas geladas águas do Hudson.
O Comandante Sully, como mandam as regras e o sentido da responsabilidade, foi o último a abandonar o avião e só o fez depois de se certificar que não havia qualquer passageiro esquecido a bordo, correndo naturalmente o risco de se afundar juntamente com a aeronave nas águas do rio. Tudo terminou em bem e Sully é hoje um herói nacional de tal dimensão que chegou mesmo a ser falado para concorrer às eleições para presidente dos Estados Unidos da América.
Compare-se agora esta atitude com aquela que tem sido relatada pela comunicação social em relação ao comandante italiano do navio que afundou esta semana.
O role de disparates e irresponsabilidades parece não ter fim. Desviou-se da rota sem autorização por um capricho pessoal, brincou com a vida dos passageiros - alguns acabaram mesmo por falecer - e só não foi pior devido à proximidade de terra. Depois abandonou o barco deixando para trás a coordenação do resgate e quando lhe foi dada a ordem para regressar ao navio, desrespeitou a mesma e apanhou um táxi para um hotel onde, segundo se sabe agora, foi detido pelas autoridades.
Ou seja, ser Comandante com letra maiúscula não é apenas ter determinada certificação. É uma questão de carácter, de honradez, de coragem e de competência profissional.
Por isto Sully ficou na História dos Estados Unidos da América como símbolo de bravura e determinação e o Popey italiano não só vai passar umas férias a um estabelecimento prisional como também nunca mais poderá colocar as mãos em cima de um leme.
Sully foi um verdadeiro Comandante. O italiano do Concórdia não passou de um rato, que na primeira aflição abandonou o navio e os seus passageiros, deixando-os à sua sorte.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Nomeações políticas

As nomeações políticas fazem parte da organização funcional do Estado, seja a nível central ou local. Muitas correspondem a situações de direcção de serviços, havendo outras que são de complemento ou assessoria aos decisores (chefes de gabinete, adjuntos, assessores, entre outras).
Não deve constituir anátema o facto de alguém ser militante de um partido e não ter o mesmo direito de um independente, na circunstância de ser nomeado para um cargo no Estado. Obviamente que o primeiro critério não deve ser esse, sobretudo se estão em causa razões de competência técnica.
Nalguns países quando muda o governo muda toda a administração desconcentrada do Estado. Noutros isso não acontece porque os dirigentes do Estado são de carreira e desempenham os seus cargos independentemente de quem está a governar. Depois há situações como a portuguesa que é uma espécie de sistema híbrido, dando-se mesmo o caso de haver dirigentes nomeados que são políticos no activo de um partido de oposição ao governo, tendo a missão de executar uma política com a qual não concordam, emanada por pessoas em quem não confiam politicamente.
Por essa razão, quer-me parecer, e esta é cada vez mais uma ideia generalizada mas nem sempre praticada, que o melhor método de escolher dirigentes para alguns serviços do Estado é a experiência profissional e respectiva competência, com critérios aferidos por concurso público com regras claras e transparentes.
Caso contrário, esteja no governo quem estiver, o que vamos assistir sempre e em qualquer circunstância são episódios de nomeação política sem qualquer relação de coerência com as competências técnicas. É bem verdade que nos partidos existe muita gente competente. Mas também é bem verdade que existem outros que deviam estar moralmente impedidos de desempenhar certos cargos na administração pública.
O caso agora conhecido do presidente das Águas de Portugal é um bom exemplo disso. Uma pessoa que estava em processo de contencioso com a empresa, enquanto desempenhava as suas funções de autarca, só devia ser equacionada para qualquer lugar depois de ter todas as situações pendentes devidamente regularizadas. Isto é o que os meus padrões morais e acredito que de muitos portugueses, me inclinam a defender.
É um sinal de desrespeito e até de incentivo à imoralidade, ver o Estado pela mão do governo, nomear alguém nestas condições.
Há dias vi uma situação também deveras interessante, mas de menor impacto. Para o conselho de administração do Hospital Distrital de Faro, foi nomeada uma pessoa que apresentava no seu currículo, o qual foi publicado em Diário da República, um conjunto de cargos que desempenhou ou desempenha no PSD. Eu não estou com isto a dizer que a pessoa em causa, a qual imagino ser muito estimável, não tenha méritos para o lugar. Apenas digo que é uma circunstância deveras estranha que alguém coloque este tipo de informação e ninguém com dois dedos de juízo tenha mandado retirar antes da publicação que foi assinada por dois ministros deste governo. É que quem leu o Diário da República desse dia, ficou convencido que para chegar a administrador de um hospital em Portugal é necessário ser militante do PSD.
Por fim um manifesto de interesses. Eu não sou contra nomeações políticas que obedecem a lógicas também elas políticas, que as há. Eu próprio já desempenhei um cargo de nomeação política devidamente previsto na lei, cujos critérios se enquadravam a proximidade e a confiança necessárias entre quem nomeia e quem é nomeado.
No entanto, nem directa nem indirectamente devia dinheiro ao município nem tinha qualquer contencioso com o mesmo. Por isso nunca ninguém colocou em causa a minha nomeação, a qual era vista, até aos olhos da oposição, como perfeitamente normal e justificada.
O que aconteceu agora nas Águas de Portugal não é normal nem é justificável. É isso sim uma demonstração clara que nesta matéria são mais as semelhanças entre PS e PSD que as diferenças. Quando chega à hora da verdade, esquecem o que disseram em campanha eleitoral e resolvem a vida aos amigos mais chegados. Isto é mau para os partidos e para a democracia e é uma pena que quem manda não o perceba.
Aberto o pote, é quem mais pode.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

TDT , só para quem pode

Eu não me arrogo de saber mais do que quem quer que seja mas também não me permito convencer que não vejo o que os outros vêem. Até porque em muitos casos basta abrir os olhos e olhar à volta.
Eu não conheço os detalhes desta operação de passagem do sinal analógico de televisão para o digital e admito que não seja um bicho-de-sete-cabeças. Costumo até referir que o Homem chegou à lua no século passado, também já colocou uma sonda em Marte e domina todo um sistema de comunicações planetárias através de uns objectos voadores a que vulgarmente se chamam satélites, como tal a Televisão Digital Terrestre (TDT) presumo que seja apenas mais um degrau na evolução tecnológica da nossa vida doméstica. Mas isto é para mim que me habituei a lidar com pequenos electrodomésticos desde criança e não me permito ler um livro de instruções porque confio na minha intuição para aprender mexendo. Como eu há muita gente. Mas diferente de mim também há.
Eu moro num concelho, lindo e fabuloso por sinal, onde há gente espalhada por 600 quilómetros quadrados de território. Na maior parte desta área que correspondo ao interior, situam-se aldeias, pequenas localidades ou aquilo a que vulgarmente chamamos de montes, onde vivem pessoas iguais às que vivem no litoral, mas em condições de vida completamente diferentes. A esmagadora maioria destas pessoas tem uma idade já bem composta, para não dizer muito avançada. Uma fatia delas habita nas chamadas zonas sombra, onde o sinal do digital não chega em condições de ligar o aparelho que transforma o velho televisor com mais de 10 ou 15 anos, num receptor de TDT. A estas pessoas só lhes resta, pelo que percebi, comprar uma antena que tenha bom contacto com os tais satélites que sobrevoam as nossas cabeças todos os dias sem nos incomodar porque andam muito alto. E isto, naturalmente, tem um custo, tal como tem o aparelho, a caixinha, que dá vida digital ao televisor analógico.
Sei bem o que vai acontecer. Há pessoas que, durante muitos dias a única voz humana diferente da sua que escutam é a que sai dos altifalantes da televisão, vão passar a ver um ecrã de “chuva” que nunca mais vai passar.
Naturalmente que os senhores que estão em Lisboa refastelados nos melhores gabinetes da capital, acham que isto não conta para as estatísticas e que vivemos num mundo de gente muito esclarecida e rica. Sim, porque para um cidadão português continuar a ter direito ao serviço público de televisão, vai precisar adaptar-se se ainda não estiver e essa adaptação custa euros. Acontece que os tais senhores ainda não perceberam que há portugueses que vivem no limiar da grande dificuldade e o dinheiro do mês não lhes chega para comida e medicamentos, quanto mais para comprar uma caixa que lhes permite continuar a ver o Goucha, a Júlia Pinheiro ou a Teresa Guilherme. Preocupa-me aliás aqueles que vão ficar impedidos de ver o Benfica a caminhar para mais uma vitória na Super Liga.
Entender isto é entender o que é o mundo real. Aquele que acontece todos os dias, que não é exactamente o nosso porque tivemos outra sorte na vida.
Este caso faz-me lembrar um ex-político da minha terra que um dia afirmou que nos bairros sociais não eram necessários lugares de estacionamento porque os moradores não tinham dinheiro para comprar carros. Para os senhores da TDT, deve haver também muita gente que não os entendem quando falam na televisão, como tal não precisam de os ver e ouvir.
Bem sei onde vai cair o ónus de tudo isto: no governo.
Há os quem pensam que em cada casa existe um moderno plasma ou LCD. Nada de mais errado. Há muitas pessoas que ainda têm um "caixote" e só sabem ligar a ficha do televisor à tomada eléctrica.