sábado, 22 de outubro de 2011

Mudam-se os tempos

Ao ver as reacções dos partidos às declarações do Presidente da República sobre as medidas de austeridades que o governo vai inscrever no orçamento de Estado, chega-se facilmente à conclusão que mudando os tempos as vontades também se alteram.
Concentremo-nos apenas nos partidos democráticos, já que dos outros sabe-se que são até contra o vento e a chuva se ela não for de esquerda.
O PSD e o CDS têm os dois a mesma opinião, mas um deles está mais incomodado do que o outro, por razões óbvias.
Ou seja, olham para as declarações do Presidente da República com um falso respeito e dizem compreender as preocupações do Chefe de Estado. Isto publicamente. Em modo reservado devem ter trepado pelas paredes, perante o incómodo que constituiu Cavaco Silva ter feito eco das preocupações da esmagadora maioria dos portugueses. As críticas são ainda mais dolorosas para o conforto dos partidos da maioria, na medida em que o Presidente da República quando fala de Economia sabe perfeitamente o que está a dizer. Devem-se se contar pelos dedos de uma mão e se calhar nem é necessário, os economistas que estão mais habilitados do que ele para falar de finanças públicas.
É que Cavaco não podia ter sido mais objectivo e claro. Não precisou de falar em economês para só alguns entenderem. Usou expressões clarividentes num português suave que toda a gente percebe. E o que disse foi muito simples: há limites que não podem ser ultrapassados e se calhar nestas medidas existe já um pisar do risco.
Como é prática corrente, quem está no governo usa e abusa do politicamente correcto. É incapaz de um gesto de rebeldia e de contraposição. Prefere falinhas mansas a dizer o que lhe vai na alma. E como tal, a reacção é sempre muito publicamente contida e demasiado profilática, de modo a não causar danos. Quando os dirigentes do PSD dizem que não ficaram incomodados com o que disse o Presidente da República, não estão a ser sinceros.
Já o PS sentiu-se crescer com o comentário de Cavaco Silva. Pudera. Tem estado debaixo de fogo desde que o ano começou e sem grande capacidade de reagir. Vê agora uma salvaguarda para conseguir ter a margem de manobra que o acordo da troika lhe retirou. Por acaso, mas só mesmo por isso, grande parte destas medidas correspondem à tentativa de remendar o desvario que foi a sua governação num passado recente, mas isso o tempo e as eleições perdidas já estão a tratar de fazer esquecer.
O que é estranho é que aplaudem o teor dos comentários presidenciais que são exactamente no mesmo tom do discurso de tomada de posse de Cavaco Silva que tanto indignou os socialistas. Lembram-se de Francisco Assis acusar o Presidente da Republica de produzir um discurso de facção? O que mudou desde então? Mudou muita coisa, mas uma está inalterada que é a opinião de Cavaco em relação à situação do país, independentemente de estar o PSD ou o PS no governo.
O mesmo PSD que aplaudiu Cavaco na tomada de posse, agora sente-se incomodado. O PS que acusou Cavaco de elemento de facção, agora revê-se nas suas declarações.
- É a política, estúpido!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Che e as portagens na Via do Infante

Um dos movimentos contra as portagens na Via do Infante convocou-me por e-mail para participar no protesto de amanhã que parte de diversos pontos do Algarve em direcção ao Parque das Cidades. Eu já sabia da iniciativa porque li os folhetos que a anunciavam bem como as faixas que se encontram instaladas nalguns pontos da ER125.
Porque sou ingénuo e bem intencionado, cheguei a equacionar participar, na medida em que as causas justas promovidas por movimentos cívicos, são terrenos férteis onde me sinto bem. Não precisei mais do que um e-mail para concluir que a causa continua justa, mas alguns movimentos não são cívicos, são partidários, e o terreno está contaminado.
No texto que me foi enviado para participar, trazia uma frase que pode motivar muita gente mas a mim não me enche e até vaza. Consta que amanhã é a data do falecimento de Ernesto “Che” Guevara, a quem alguns chamam de libertador mas que no fundo foi mais um revolucionário assassino. Tenham paciência mas não consigo encontrar outras palavras para quem pega numa arma e subtrai vidas humanas e nem o epíteto da guerra civil ou da luta armada em nome da revolução justifica matar. Também foi morto. Bem sei, às mãos de outros assassinos parecidos com ele.
O Che é um símbolo dos movimentos de esquerda e muito em particular do comunismo. Quando o que está em causa é alargar a base de apoio de um movimento, numa causa que é sobretudo cívica e que toca em todos os utilizadores por igual independentemente da ideologia, está-se a afunilar a entrada pela qual algumas pessoas terão de passar se quiserem juntar-se ao protesto. E faz-se isto muito às claras, porque na verdade o que está por trás dos movimentos anti-portagens são sobretudo motivações partidárias. Nada contra desde que as coisas sejam chamadas pelos respectivos nomes. Dir-me-ão que não só mas também. Direi que sobretudo e eu nisso não alinho.
Sou contra as portagens, acho-as uma atitude a roçar o gozo, uma exploração por uma bem que já foi pago, um retrocesso no desenvolvimento da região, um motivo para o aumento da sinistralidade rodoviária e uma significativa perda da qualidade de vida para os algarvios, mas não embarco em comboios destes onde o maquinista leva numa mão a foice e na outra o martelo.
Sou militante de um partido que está aprisionado a esta questão por razões que não são ponderosas, mas sim de circunstância pelo facto de agora se encontrar no governo. Mas eu estou livre no pensamento e na acção e não é por ter um cartão laranja na carteira e as quotas pagas que me ouvirão dizer que isto tem de ser porque não há alternativa. Isto não tem de ser e há alternativa, como aliás sempre houve.
Agora participar numa manifestação porque o Che Guevara levou um tiro a 8 de Outubro, tenham lá paciência mas isso é que não.