terça-feira, 11 de dezembro de 2012

2013, o que podemos fazer por nós?



Se 13 é o número do azar, 2013 é o número da aflição.

É assim que se vão sentir muitas famílias durante o próximo ano quando o chamado reajustamento da economia que resulta do orçamento do Estado aprovado recentemente lhes entrar pela porta a dentro.
Não é tanto a avaliação qualitativa do documento o que importa neste texto, até porque não me sinto em condições de a fazer, mas antes uma reflexão generalizada sem qualquer intuito de dizer se é bom ou mau o que dele resulta. Até porque, olhando para os lados, é sempre fácil encontrar quem não concorda com um conjunto de medidas que nos levam dinheiro do bolso em impostos do que o seu contrário. A austeridade é madrasta, a complacência é madrinha.

Isto pode ser dramático e para muitas famílias com toda a certeza será. Porém estou inclinado para o lado daqueles que acham este parto não tem forma de ser feito sem dor, se o objectivo passa mesmo por não nos fecharem a torneira do dinheiro que chega após as avaliações periódicas da troika e que evitam o país de parar. Não há epidural suficientemente eficaz que nos evite o sofrimento. Isto vai ser mesmo a sangue frio. Valerá a pena? Essa é a grande questão. Eu também sou dos que tem dúvidas se não acabamos por morrer da cura.

Ainda assim acho que este pode ser um ensaio ou mesmo o exame final para saber se existe outra forma de vivermos que não seja acima das nossas possibilidades. E eu acho que há.

O Papa Bento XVI, por mais do que uma vez, tem chamado a atenção para uma coisa óbvia, mesmo para aqueles que não seguem a sua palavra. É necessário mudar o paradigma do quotidiano das sociedades modernas, valorizando mais os gestos de fraternidade, humanismo e bondade, contenção e resistência ao facilitismo, em vez do consumo desenfreado que não nos leva a outro caminho que não seja ao sobre endividamento, à incapacidade de fazermos face às responsabilidades contraídas e à insolvência da economia doméstica das famílias.

E por aqui há tanto caminho por onde andar.

Desde logo nos hábitos normais. No aproveitamento e no racionamento daquilo que consumismo por ser uma necessidade básica. Faz algum sentido que um português desperdice em média quase 100 quilos de comida por ano? Quantas bocas se alimentavam com esta quantidade de alimentos, multiplicada por quase 10 milhões de nós? E esta comida não tem de ser comprada? Alguém a produz, é certo. Mas não é para desperdício é para consumo adequado.

Depois nos recursos, energéticos ou de outra natureza, sobretudo os não renováveis. Não será hora de olharmos para o nosso dia-a-dia e começarmos a cortar no supérfluo? Existem tantas formas de poupar todos os dias em casa ou na rua. Com tecnologia adequada e hábitos corrigidos que vão desde o desligar luzes que não fazem falta até à correcta climatização, passando por um conjunto de outras atitudes que no fim do mês reduzem substancialmente os chamados “custos de produção” da “empresa” à qual damos o nome de vida familiar. Faz algum sentido nos deslocarmos sempre através dos meios mais caros e poluentes. Sabiam por acaso que uma viagem de ida e volta de comboio do Algarve a Lisboa, mesmo em primeira classe, custa tanto como apenas as portagens que um carro ligeiro paga na auto-estrada?

E isto só por si chega? Claro que não. Só gasta quem tem e muita gente não tem. Mas é na atitude e na vontade que se mudam as coisas que estão mal.

As crianças pedem-nos tudo o que lhes brilha nos olhos. Fará algum sentido satisfazer imediatamente a vontade desse pequeno(a) ditador(a) que nos derrete o coração mas nos ensurdece os ouvidos e nos torra o juízo quando reclama por algum capricho? Desde quando são melhores pais os que mais oferecem? Então e o resto? O beijo, o abraço, a atenção e o carinho, tudo recursos afectivos renováveis de elevado valor sentimental, ainda por cima gratuitos.

Mas nós só somos felizes quando temos o telemóvel da última geração, o tablet mais recente ou o carro mais potente recheado de extras? Aquele com que circulamos pelas esplanadas cheias de gente que passam o dia com uma chávena de café já vazia na frente e se espantam com o luxo dos outros? Fica bem meter no facebook as fotografias que tirámos nas férias na Republica Dominicana pagas até ao limite do plafond do cartão de crédito, quando nem sequer conhecemos bem o concelho onde vivemos?

Então e o resto? Então e quando olhamos à volta e não nos sobra mais do que dívidas para pagar?
Se calhar o 2013 vai fazer bem a muita gente que aprendeu a viver de uma fartura balofa que não tem qualquer sustentabilidade e no dia-a-dia será confrontada com os pequenos nadas da vida que tão gratificantes são, quando resultam do gesto generoso de alguém.

Mas também há os outros. Aqueles que já não lhes sobra nada. E quem nada tem nada gasta. Os que o desemprego e a pobreza gravaram na alma a aflição e a angústia de nada poderem fazer. É para esses que é preciso olhar e também por esses compreender que não existem verdades absolutas. Hoje são eles, amanhã podemos ser nós.

Sem falsos moralismo e consciente de todos os meus pecados, acho que o ano que se aproxima é um bom teste de resistência não só à nossa capacidade de sofrimento mas também à nossa habilidade em mudarmos de vida e de paradigma, bem como em tornar a nosso quotidiano mais racional. Os bons exemplos não se pedem, demonstram-se. E alguns ficam-nos muito bem e não custam nada.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A escumalha


Eu tenho respeito por todos os movimentos da cidadania, mesmo aqueles com que posso não estar de acordo. Tenho igual respeito por aqueles que decidem fazer greve, sejam quais forem as suas motivações e muitos têm-nas e são totalmente legítimas. Eu nunca fiz greve, mas também não posso garantir que um dia não farei. É uma questão de opção. Se um dia fizer, tenho a certeza que não será para apedrejar quem quer que seja.
No meio de tudo isto, não consigo ter respeito e apenas me sobra o repúdio, por aqueles que a pretexto de uma situação de contestação promovem a violência e a desordem, a título gratuito e sem qualquer contenção.
Reportando ao caso concreto da última manifestação da CGTP, facilmente se percebeu que em frente ao Palácio de São Bento existiam várias realidades. Estavam lá as pessoas que estão preocupadas com a situação e acham que é através de manifestações e gritaria que se resolvem os problemas de um país falido deixado à beira da bancarrota, mas misturados com elas estavam bandos de marginais, gente que vive e convive com a provocação e a desordem e não desejam outra coisa que não seja a implosão da democracia, da liberdade e da segurança dos cidadãos.
Para além destes estavam também aqueles que têm como missão defender a ordem pública, ou seja as autoridades policiais.
Em 2004, era Sarkozy ministro do Interior do governo francês e vivia-se em Paris momentos de grande agitação e violência, principalmente na zona dos subúrbios. Grupos de jovens mais ou menos organizados semeavam o pânico, agrediam polícias e bombeiros, lançavam fogo a automóveis, lojas e caixotes do lixo, entre outras patifarias. Faziam-no a pretexto ou a reboque da contestação às condições de vida que se estavam a degradar progressivamente. Sarkozy na altura identificou esta gente com a palavra «recaille», em português: escumalha.
Como é óbvio a dita não é exclusiva de França nem de outro país qualquer. Nós também temos alguma, mas a nossa parece estar bem defendida e salvaguardada.
Hoje li nas notícias e na Internet relatos de gente que esteve na manifestação, com posições que são no mínimo curiosas. Condenam o apedrejamento que foi feito à polícia, mas ao mesmo tempo justificam-no e consentem-no. Estou a falar de pessoas com motivações políticas e partidárias de esquerda. Extrema-esquerda, por sinal. Mas não tinha ainda ouvido tudo. Hoje ouvi o resto. Há um movimento intitulado de Precários Inflexíveis que só de facto inflexíveis são em relação à mais absoluta e completa estupidez. Questionado várias vezes um dos seus representantes por um jornalista da TSF, sobre a sua posição em relação à escumalha que atirou pedras à polícia, não foi capaz em um só segundo de manifestar reprovação, bem pelo contrário. Nem a CGTP foi capaz de ir tão longe.
Eu não sei se estas pessoas têm a noção exacta da legitimidade das suas convicções, mas quando passam a mão pelo pêlo de tipos que a poucos metros da polícia jogam pedras e objectos em chamas para causar dano, não é apenas às forças de autoridade que estão a agredir, é a todo um povo que não abdica de viver em Liberdade e Democracia.
Quem passa a vida com os valores do 25 de Abril na boca e os usa para tudo e mais alguma coisa, devia saber que esta gente não tem nada a ver com um conceito de revolução que visa devolver direitos e garantias à população. As motivações desta canalha são a implosão do Estado de Direito, o alastrar de um clima de anarquia onde quem não se consegue defender, acaba agredido ou pior do que isso. Quem joga uma pedra de calçada a uma pessoa, tem de ter noção que a pode matar. E quem tem intenção de matar, mesmo sem o conseguir fazer, deve ir preso porque é criminoso.
Quando os intelectuais de esquerda que temos por cá branqueiam este conjunto de circunstâncias, outra coisa não fazem que não seja conferir legitimidade pública a criminosos. Se ontem estivessem na frente da polícia skin-heads de movimentos da extrema-direita, caía o Carmo e a Trindade. Mas aquela escumalha mal encarada que esteve ontem na frente da manifestação no momento em que a polícia carregou tem alguma diferença dos cabeças rapadas? Só se for em meia dúzia de convicções porque no resto são farinha do mesmo saco. São escumalha. Não há como os rotular de outra forma. E devem ser presos, porque são perigosos para a sociedade, para a democracia e para a liberdade de todos nós que somos cidadãos ordeiros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Estamos entendidos


As pessoas têm direito a manifestar-se?
Sim
E a atear fogo na escadaria da Assembleia da República?
Não.
Então onde podem atear fogo?
Simplesmente não podem, mas se isso for um imperativo de consciência que o façam na casa de cada uma delas, se for completamente isolada da do vizinho.
Mas isso pode estragar a casa?
Naturalmente.
Mas podem desnudar-se?
Depende.
Depende do quê?
Da qualidade dos que está debaixo da roupa.
Mas despir-se pode ser ofensivo?
Pode.
Para quem?
Para quem está habituado a ver melhor do que aquilo que é mostrado.
E para os que não estão?
Fica ao critério de cada um.
Então pode?
Poder pode, mas nalguns casos é melhor ficar vestido.
E mandar garrafas à polícia?
Nem à polícia, nem a outras pessoas
Nem de plástico?
Nem de plástico.
E se forem de vidro?
É melhor jogarem para o vidrão, se estiverem vazias.
E se não estiverem?
Depende.
Do quê?
Se vale a pena beber o conteúdo previamente.
Mas e se a intenção é agredir a polícia?
Não se pode.
Porquê?
Porque são pessoas iguais a nós que estão a trabalhar e também podem estar indignadas com a situação mas cuja função é garantir a segurança dos cidadãos, inclusive os energúmenos que os insultam, arremessam garrafas e dão fogo à escadaria do Palácio de São Bento.
Então não se pode agredir a polícia?
Não.
Mas a polícia pode agredir os manifestantes?
Se não for agredida nem provocada, também não o fará.
E há piada em fazer uma manifestação e não partir a cabeça a um polícia?
Há. Mas o problema não está na piada está na atitude.
Mas não se pode ver no arremesso da garrafa o sentido figurado de protestar contra o governo?
Pode, mas a polícia não é o governo.
Então não há alternativa?
Claro que há.
Qual?
Outras formas de protesto.
Tais como?
Bater com a cabeça numa parede que seja dura.
Isso é protestar?
É
Mas isso pode aleijar quem protesta?
Pois pode, tal como aleija o polícia que leva com uma garrafa de vidro.
E chamar nomes?
Depende dos nomes.
Filhos da puta?
Isso não é nome, é insulto.
Então no que ficamos?
Se não conhecem as mães das pessoas e não têm a certeza sobre a integridade moral das ditas, é recomendável não insultar.
Mas pode ser em sentido figurado?
Não existem figuras de estilo para a filha da putice. Ou se é ou não se é.
Então que outras formas de luta e de protesto existem?
Votar nas eleições quando elas são convocadas.
Temos de esperar pelas eleições?
Convém.
Porquê?
Porque é assim a democracia e se queremos continuar a conviver com ela, é bom que se cumpram as suas regras.
Mas e quem não gosta de cumprir regras?
Não cumpre.
Mas isso tem consequências?
Claro.
E quem também não quer ter consequências?
Isola-se numa ilha deserta no Pacífico.
Mas isso não é muito longe?
É.
Não há alternativa?
Há.
Qual?
Respeitar a ordem pública numa sociedade onde não estamos sozinhos.
Mas pode-se manifestar e protestar?
Pode-se.
Mesmo mostrando as mamas?
Sim.
Mas existem mais formas?
Existem.
Quais?
Participar activamente no desenvolvimento democrático do país.
Como?
Integrando movimentos cívicos ou militando em partidos.
Mas e se a pessoa não se revê em nenhum partido dos existentes?
Junta amigos e forma um partido novo.
Mas isso não dá muito trabalho?
Dá.
Mostrar as mamas, chamar nomes, atear fogo ou arremessar garrafas não é mais fácil?
É.
Então para quê complicar?
Porque o resultado é diferente.
E manifestações sem insultos, nem violência?
Parece-me bem. Já dizia o Mário Soares, quando lhe convinha, que as pessoas têm direito à indignação.
Mas e vale a pena?
O poeta diria que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Eu acrescento: quando se acredita e há razão.
A democracia é assim tão chata e exigente?
É, mas não a ter é muito pior.
Há quem não a tenha?
Há.
E não se manifestam?
Não.
Porquê?
Porque não têm esse direito.
Ok, percebi…estamos entendidos.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um sábado nas estradas do céu


Para mim o dia 13 de Outubro de 2012 começou nas margens do Mondego às seis da manhã com o despertador a mandar levantar para encarar o desafio físico mais exigente que alguma vez enfrentei. Tinha à minha espera a prova Granfondo Skyroad na Lousã, recriação de uma etapa de montanha na modalidade de ciclismo.

Desafiado por amigos e colegas e sem ter a certeza de conseguir superar os 3500 metros de acumulado de subida numa extensão de 150 quilómetros, decidi enfrentar esta empreitada apesar das muitas dúvidas que tinha se conseguiria chegar ao fim ou se cairia na tentação de me desviar para o percurso do Mediofondo, o qual era mais curto e menos exigente.

Eram oito da manhã quando parti no meio de uma pelotão de 800 ciclistas de ambos os sexos, todos brindados com uma espécie de frio glaciar que rapidamente nos gelou os músculos, as articulações e até a alma. O sol estava ainda escondido atrás da montanha com mais de 1000 metros de altitude que sobranceia a bonita vila da Lousã.

Para mim os primeiros 20 quilómetros foram dramáticos. Gelado em cada milímetro quadrado do corpo, não conseguia encontrar um ritmo e uma cadência que me permitisse andar com confiança. Tentei encontrar um grupo de ciclistas no qual me sentisse confortável, mas parecia que eu era o único desconfortável no meio dos 800. Assim comecei a ficar cada vez mais para trás e a mentalizar-me que a minha inscrição neste evento desportivo tinha sido um atrevimento descarado.

A única boa notícia que tive na primeira subida do dia à Serra do Açor, muito perto dos 1000 metros de altitude foi o sempre desejado abastecimento. No hotel onde fiquei hospedado, saí sem poder tomar um pequeno almoço decente, devido à hora, e o pouco que comi antes da partida para meter algum açúcar no organismo, rapidamente se esfumou nos primeiros quilómetros a subir. Uma prova como esta exigia uma boa dose de hidratos de carbono às 6 da manhã. Infelizmente não foi possível.

Com o estômago mais reconfortado fiz-me à estrada ao som de bombons e concertinas que alegravam a zona de abastecimento e disfarçavam o muito frio que se fazia sentir. Poucos minutos depois senti o resultado daquilo que a organização me tinha disponibilizado para comer. Finalmente consegui começar a andar, com outro ritmo e cadência.

Não demorei muito para apanhar uns ciclistas que seguiam na minha frente com os quais fiz umas dezenas de quilómetros serra acima. O vento muito forte, gelado por sinal, só me trazia à cabeça o conforto e a temperatura do vale dos lençóis.

O GPS não mentia e a proximidade dos 1000 metros de altitude estava a escassa distância. A paisagem era de cortar a respiração, ainda mais para mim que não conhecia aquela zona de Portugal.

Superada a primeira grande dificuldade, no alto da Serra do Açor, finalmente umas descidas para respirar e dar descanso às pernas e ao coração. Pela frente tinha o segundo grande desafio: a subida da barragem de Santa Luzia a qual tinha uma distância curta, menos de dois quilómetros, mas um declive médio de 11,5% com troços de rampa muito inclinados, obrigando a trabalhos forçados. Quando muito perto do início da subida olhei para cima e vi o pórtico onde tinha de passar, fiquei com o sangue congelado nas veias. A muito custo e aos zigue-zagues lá fui subindo para disfarçar a dificuldade que sentia em levar a bicicleta para cima.

Passado este obstáculo e com uns 60 quilómetros já cumpridos estava na altura de descer até à Pampilhosa da Serra. Naquela bonita terra perdida no meio das montanhas, estavam à nossa espera duas coisas: o segundo abastecimento e uns troços de subida com 22% de inclinação feitos dentro do chamado casco urbano da vila. Foram minutos dramáticos pelo menos para mim. O pulsómetro mostrava o meu batimento cardíaco nas 180 batidas por minuto. No fim desta rampa quebra-pernas começava uma outra subida menos penosa mas nem por isso menos castigadora.

Com o organismo compensado com o reforço do abastecimento e mais umas coisas que os ciclistas levam no bolso para se alimentarem, precisei apenas de voltar ao meu ritmo, lento por sinal. Para meu grande espanto comecei a passar por vários ciclistas que estavam com, ainda mais dificuldades do que eu na subida ao alto da serra. Iniciei então um longo período em que estive quase sempre sozinho naquela imensidão de território a perder de vista. Olhava para trás e não via ninguém e para a frente o resultado era o mesmo. De vez em quando lá passava um carro. Mas ciclistas nem vê-los. Fui descendo a grande velocidade numa estrada só para mim com um piso fantástico, contrastando com a miséria de vias que nós temos no Algarve. Não há comparação, infelizmente.

Passado algum tempo finalmente companhia momentânea. Uns quilómetros depois, lá estava ela: a subida para Picha. Já com 100 quilómetros nas pernas não há como não sorrir ao ver a placa dessa localidade perdida na Beira. Um soldado da GNR colocado no respectivo cruzamento, autorizou-me a subir para a Picha e eu como sou obediente à autoridade lá fui. No centro da Picha estava mais um abastecimento. A boa disposição reinava entre os locais, tanto no rosto deles como delas. Deve ser uma emoção viver na Picha.

Não havia tempo a perder. Castanheira de Pêra era a próxima paragem e ainda tinha muito para subir. Assim fiz, uma vez mais sozinho e abandonado. Os da frente não esperavam por mim e pelos que vinham atrás eu também não esperava. Amor com amor se paga.

Parei, no verdadeiro sentido da palavra, no abastecimento em Castanheira de Pêra para comer. Ao contrário dos anteriores, encostei a bicicleta e fui à procura de conforto para o estômago. Já vinha em débito e ainda havia uma subida a quase 1000 metros de altitude antes de descer para a Lousã. O cansaço era enorme. Estava com 120 quilómetros nas pernas e sabia que os últimos quilómetros seriam os da ansiedade a tocar no vermelho. Saí daquela localidade acompanhado de um outro ciclista, com o qual fiz toda a escalada à Serra da Lousã. Foi para mim a pior subida de todas, pese embora não ser muito inclinada, apenas 3,8% de declive médio. Mas a ansiedade misturada com o cansaço, as dores musculares e nas articulações, mais as ameaças de câimbras que felizmente não se vieram a verificar, pareciam puxar-me para baixo quando a obrigação era seguir para cima. Já não havia ritmo nem cadência. Era apenas uma subida ao calvário. As placas que estavam colocadas na berma da estrada dando conta da distância para o cume e a inclinação média a cada quilómetro, aumentavam ainda mais a minha ansiedade. Aos poucos fui subindo por entre a vegetação espessa apenas interrompida pelas zonas ardidas nos incêndios de Verão.

Quando vi a placa com a marreta partida nem queria acreditar. A subida tinha terminado e daquele ponto para a frente não haviam mais subidas nem sequer zonas planas. Era descer vertiginosamente em direcção à Lousã. Foram 18 quilómetros de pura adrenalina onde os dedos das mãos agarrados às manetes dos travões começavam também a doer. Estava difícil encontrar uma parte do corpo que não estivesse ressentida daquele esforço. A paisagem mais uma vez era deslumbrante, pontuada com pequenas povoações onde as casas são feitas de xisto e conferem aos nossos olhos a satisfação de confirmar a beleza da especificidade das regiões do nosso país.

Entretanto a descida parecia não ter fim, mas teve. Já na vila da Lousã, uma curva apertada para a direita mostrava-me finalmente a meta. O desafio estava superado e à minha espera estavam o Carlos, o Nuno e o Vitor, os três colegas do Clube GBES que também se prontificaram a superar este enorme desafio. Olhei para o cronómetro e vi o meu tempo. Oito horas quase certas, nas quais estavam incluídas as minhas paragens para comer nos reabastecimentos.

Este relato para aqueles que estão habituados a este tipo de desafios, nomeadamente aqueles que fazem do ciclismo a sua profissão, pode até parecer anedótico. Mas para mim o desafio foi épico. Da mesma maneira que um dia tomei coragem para descer a 30 metros de profundidade no mar, experiência que até essa altura sempre achei ser incapaz de realizar, também esta foi bastante marcante. Já tinha feito longas distâncias muito perto dos 150 quilómetros, mas nunca com este acumulado de subida. Daí o desafio

Para uma pessoa que esteja habituada a andar de bicicleta e treine com regularidade, esta quilometragem não assusta. Na semana do Granfondo tinha feito em dois dias seguidos quase 240 quilómetros, com 3500 metros de acumulado de subida. Mas esta empreitada de uma vez só foi mesmo uma experiência única e inolvidável.

É para repetir, sem dúvida alguma.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A diferença entre Soares e Churchill



Mário Soares é o político mais político de Portugal e como tal tem coisas boas, satisfatórias, más e muito más. As suas últimas intervenções a propósito do governo, só podem ser rotuladas de muito más e extraordinariamente populistas.

O senador socialista é dos poucos portugueses que sabe bem o que é governar com imposições de austeridade derivadas de apoio financeiro externo, uma vez que foi no seu tempo de governante que o FMI esteve em Portugal, assistindo-nos e impedindo-nos de ficarmos numa situação de bancarrota sem dinheiro para pagar as mais elementares obrigações do Estado.

Uma vez que tivemos de novo de receber apoio externo porque os mercados deixaram de nos emprestar dinheiro, pela simples razão que não confiam em nós e na nossa capacidade de proceder ao reembolso, Mário Soares sabe bem o que isso implica, mormente porque são-nos e foram-nos colocadas tarefas para cumprir as quais deverão levar ao chamado reajustamento da economia, devolvendo-nos a capacidade de nos financiarmos novamente nos tais mercados. Ou seja, voltarem a ter confiança em nós, coisa que neste momento não existe.

Por saber que é assim e ainda que haja medidas e iniciativas, nomeadamente ao nível da comunicação e da postura do governo face aos problemas, deveria ser alguém muito avisado como Mário Soares o primeiro a colocar-se do lado da razão e não da emoção. Do lado da solução e não do problema.
Não o faz por uma simples razão que está-lhe no sangue: o combate político de derrotar quem não é da sua preferência partidária e a vontade desmedida de protagonismo que um homem público mesmo no ocaso da vida não consegue perder.

E isto é mau? Não. É péssimo.

Se António José Seguro viveu em Marte durante os seis penosos anos da vigência socrática e por isso não tem relação directa com o que aconteceu ao país, Mário Soares parece que esteve por cá mas ficou-se por um silêncio cúmplice, quiçá como resguardo de conforto aos milhões que saiam do Orçamento do Estado directamente para a Fundação que tem o seu nome. Numa altura em que Portugal estava em plena roda-viva, a despesa pública aumentava exponencialmente e o governo assinava contratos ruinosos com as PPPs, Soares assobiava para o ar, por entre uma candidatura presidencial falhada em toda a linha e apoiada por Sócrates e as muitas declarações públicas que fazia, anuindo sempre com o caminho de desastre que o país estava a trilhar. Nessa altura não estava preocupado? Será que alguma vez esteve? Está agora porquê? Está mais consciente agora ou as transferências do Estado para as fundações deixou-o mais alerta?

Existem hoje mais razões de preocupações do que aquelas que haviam na década de 80 do século passado quando o FMI entrou no país e Soares colocou os portugueses a apertar tanto o cinto até não haver mais buracos para suster a fivela? Na minha opinião existem outras diferentes, mas o país hoje está mais capacitado para dar a volta à situação do que estava nessa altura, ainda que o processo esteja a ser tremendamente doloroso.

Mas uma coisa mudou com toda a certeza. Mário Soares tem mais 30 anos do que tinha nessa altura e muito mais responsabilidade, uma vez que no entretanto foi Presidente da República e assumiu perante os portugueses uma posição que lhe permitiria, se quisesse, ser o fiel da balança dos conflitos ou dos consensos. Nunca o fará. É mais socialista que democrata. É mais complicado que simples. É mais protagonista do que assistente. E é também mais desafiador do que desafiado e eu dessa característica até gosto.

Por isso nunca será lembrado em Portugal com o consenso que Churchill tem hoje no Reino Unido e no mundo inteiro. É a diferença entre os grandes homens e os excepcionais. Churchill foi excepcional.

Nota: Chegou ou vai chegar mais um cheque de 4.300 milhões de euros da assistência financeira que servem, não só mas também, para pagar os ordenados a muitos portugueses que estiveram nas manifestações de 15 e de 29 de Setembro. Não é caso para muita publicidade, até porque se trata de uma consequência do cumprimento do acordo feito entre o Estado português e a troika, mas também não é demais lembrar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Malandragem



Mesmo quando estou a dormir sou contra as coligações que o PSD faz com o CDS de Portas. Já escrevi noutras circunstâncias e sempre que o faço, admito por uma fracção de segundos que um dia virá em que conclua que estava enganado em relação ao assunto. Acontece que até hoje não tive motivos para acreditar que a minha teimosa convicção esteja baseada em falsos pressupostos e agora, então, muito menos.

Não tenho outra forma de dizer a coisa: a atitude correcta de Passos Coelho no fim de semana que passou era ter demitido o Portas e consequentemente todos os ministros e secretários de Estado que foram indicados pelo CDS, o que, à partida, pressuporia o fim deste governo, com toda a consequência que isso acarretaria, nomeadamente ver o PS do marciano Seguro e a tralha socrática a voltar ao governo. Quiçá…mesmo assim não sei.

É preciso ter lata e Portas tem-na de sobra. Um tipo que sabe o que diz o memorando da troika porque também o assinou. Que foi avisado das medidas de austeridade, antes das mesmas serem anunciadas. Que se refugiu num silêncio fúnebre, a pretexto de ouvir o partido, como se não soubesse o que o mesmo pensa sobre o assunto. E que veio manifestar as suas reservas e discordâncias, depois de ver o resultado da manifestação de sábado para poder passar para a opinião pública a ideia que está do lado dos que sofrem, revela na prática um exercício de patifaria política digno de uma crónica de bons malandros.

O governo é composto por dois partidos em que um deles teve muitos mais votos que o outro. O outro é o CDS que não teve a maioria dos eleitores que foram às urnas a votar nos seus candidatos e no seu programa. Quem os portugueses escolheram para formar governo foi o PSD, o qual por não ter obtido uma maioria absoluta chamou o CDS para uma solução governativa, a fim de fazer face ao caderno de encargos que a troika nos entregou e que estes dois partidos, mais o PS, assinaram.

Sei que as circunstâncias são outras, mas tenho infinita pena que o PSD nunca mais tenha tido um líder com o estofo que Cavaco Silva teve em 1985. Para os que não se recordam, nesse ano o actual presidente da república ganhou as eleições legislativas sem maioria absoluta. O que fez? Formou um governo pequeno, sem coligações nem acordos parlamentares, com gente qualificada da política que nessa altura havia em maior número do que há hoje e fez-se à vida até que um dia o famigerado PRD lembrou-se de inventar uma moção de censura que serviu de passaporte para uma maioria absoluta de Cavaco em 1987.

Vão ser necessários alguns anos, para esquecer este bom exemplo, até porque nunca mais surgiu alguém com a determinação inabalável de Cavaco nos finais do século passado. Muito diferente do que é agora, por sinal.

Voltando ao Portas e aos meninos e meninas de bem do CDS, a solução era simples: a porta da rua é serventia da casa. Façam-se à vida e curem a vossa superioridade intelectual e vocação para a malandrice com mais uns anos de oposição e se estiverem aborrecidos vão para as margens do Tejo ver os submarinos do querido líder.

É que uma coisa são militantes de um partido ou do outro sem responsabilidades políticas ou governativas, manifestarem a própria opinião. Mais houvesse porque na diferença também se encontra um caminho. Outra é a segunda figura do governo (para mim não passa de figurinha) cavalgar a onda da contestação que a manifestação de sábado provocou, para aparecer junto dos portugueses na posição de: calma que eu estou do vosso lado, apesar de ter aqui um acordo com o rapazolas que vos está a fazer mal.

O PSD não é um poço de virtudes mas ganha eleições, ao contrário do CDS que nunca ganhou coisa alguma a nível nacional. Como tal isto era pontapé no rabo e vai já para as feiras distribuir beijinhos e abraços.

domingo, 9 de setembro de 2012

Sobre as novas medidas de austeridade tenho a dizer o seguinte:


1 – Já referi várias vezes que quem devia estar a governar neste momento era o PS e José Sócrates. Foram os socialistas que ganharam as eleições em Setembro de 2009 e como tal o mandato só terminaria em 2013. Como em 2011 negociaram e assinaram o memorando de entendimento com a troika e como uma boa parte da responsabilidade do estado a que o país chegou, eminente bancarrota, é dos socialistas e do seu fartar vilanagem governativo, deviam ser eles a resolver o problema que em grande medida arranjaram. Acontece que não foi isso que aconteceu por razões que são conhecidas.

2 – Eu não acredito nem ninguém de bom senso acredita que um governo seja de que partido for, goste de tomar medidas duras apenas para chatear as pessoas. Não é assim que as coisas acontecem. Tem de haver uma razão muito ponderosa para se aumentar impostos ou para tomar medidas austeras. Quem não o faz, necessitando, está a hipotecar o futuro a prazo e a correr o risco de chegar a um beco sem saída. Como tal, sei que existem vários problemas para resolver em Portugal que só têm solução com mais dinheiro nos cofres do Estado.

3 – A política tem de ser um exercício de verdade porque ela é baseada numa relação de confiança entre eleitos e eleitores. Não falar a verdade às pessoas tem consequências e mentir premeditadamente, ainda mais graves. Parece-me que Passos Coelho disse coisas em campanha eleitoral que não correspondem à sua prática e outras que não disse acabou por fazer. É portanto natural que o elo da confiança gerado numa expectativa de esperança se esteja a quebrar e em muitos casos já esteja de facto partido. Quem deu a vitória eleitoral ao PSD não foram apenas os seus militantes, foram sobretudo pessoas que não têm militância partidária e que votam alternadamente no PS ou no PSD, conforme as circunstâncias.

4 – A sensação que tenho daquilo que vejo no dia-a-dia, sobretudo quando lido com aqueles que trabalham e não têm forma de contornar as medidas de austeridade do governo, é que já não há espaço de manobra para mais. Muitas famílias portuguesas que pertencem à chamada classe média, as quais trabalham por conta de outrem, seja no Estado ou no privado, estão com a corda na garganta. Endividaram-se, é certo, e muitas bateram de frente contra a parede do desemprego, o que aumenta o grau de preocupação e de risco. Aquelas que ainda têm trabalho, hoje levam muito menos dinheiro para casa, porque o Governo não consegue arrecadar receita de outra forma que não seja aumentando impostos que como é sabido, trata-se de uma medida rápida e eficaz de provisionar os cofres do Estado.

5 – Há portanto uma clara asfixia da classe média que tem uma influência determinante na economia de um país, na medida em que não pesa tanto ao Estado como as classes mais baixas a quem é necessário assistir socialmente, e é o motor da receita fiscal, sendo também quem coloca Portugal a funcionar no local de emprego de cada um. Os que têm, naturalmente.

6 – Em relação às medidas em concreto que foram anunciadas, nomeadamente aquela que faz aumentar a prestação da segurança social, na prática o que vai originar é uma descida do valor do trabalho, uma diminuição na produtividade e um aumento na ansiedade e irritação das pessoas que já estão cravadas de impostos nos seus rendimentos. Ou seja, quem trabalha não só não foi aumentado e isso já foi entendido como um esforço para tirar o país do atoleiro em que alguém o meteu, como agora vêm uma redução significativa no seu ordenado líquido. Para além disso sou daquelas pessoas que acredita que a motivação é um factor determinante para a produtividade. Para além da classe política, dos jogadores de futebol, alguns profissionais liberais e daqueles que vivem da especulação fugindo aos impostos através de esquemas de contas off-shore entre outros expedientes, quem é que está motivado em Portugal porque vive bem daquilo que ganha? Por fim, como dizem os brasileiros, o governo anda a cutucar na onça com vara curta e isso vai sair-lhe caro. Obviamente que vai surgir contestação e a rua, provavelmente, vai incendiar-se com protestos, uns mais genuínos que outros. Porquê? Porque há um limite para tudo ainda mais quando se olha à volta e se observa que quem paga a conta são os mesmos de sempre.

7 – Já pensei 100 vezes no assunto e ainda não consegui perceber a certeza que o governo tem de estar a impulsionar as empresas com a redução da prestação para a segurança social paga pelos patrões relativa aos seus trabalhadores. Mas qual é a empresa que neste cenário de guerra em que estamos, vai criar postos de trabalho apenas porque o empregado fica mais barato em termos de encargos? O que as empresas vão ver é que as pessoas têm cada vez menos dinheiro para consumir e que os impostos indexados ao consumo são elevados, levando a uma retracção. Aliás basta ver o que tem acontecido com as receitas do IVA. Perguntem no Algarve a um empresário do sector do turismo ou da restauração se a partir de 2013 com as medidas agora anunciadas vai criar mais postos de trabalho. Não vai de certeza. O que vai é ter mais dinheiro em tesouraria e mesmo assim não sei em relação a muitas PME´s, uma vez que isso só pode acontecer se produzir e vender e só vende se houver alguém para comprar.

8 – Também é verdade que o Governo tomou esta iniciativa porque levou um chumbo do Tribunal Constitucional em relação às medidas que tinha tomando no ano passado dirigidas aos funcionários públicos e aos pensionistas. E levou um chumbo porque não acautelou a constitucionalidade da medida e o mesmo parece estar a acontecer com esta, o que a verificar-se no futuro terá naturalmente consequências práticas, tanto políticas como judiciais. Nesta matéria o Governo faz-me lembrar aquelas pessoas que estão habituadas a uma determinada situação até que de repente a lei muda. A primeira coisa que essas pessoas fazem é analisar a nova lei para encontrar uma forma de a contornar. Se no caso de um privado esta prática já levanta reparo, no caso do Governo representa alguma falta de respeito pelo Estado de Direito.

9 – Estas coisas em política estão demasiado vistas e até estudadas. É verdade que há problemas muito sérios para resolver em Portugal e que a entrada do financiamento do FMI veio permitir que o Estado honrasse os compromissos imediatos que tinha em curso. As pessoas indignam-se e com razão mas a verdade é que estivemos muito perto de não ter dinheiro para pagar salários a professores, médicos, polícias, demais funcionários públicos entre outros. E também é verdade que não havendo para estes, o Estado pára. Porém ninguém nos garante que tudo isto não seja uma forma de apertar agora para aliviar depois e o problema em vez de se resolver, vai manter-se. Já poucos se recordam mas nunca é demais lembrar, que em 2009 o PS tinha, a poucos meses das eleições legislativas, sondagens com valores muito apertados em relação ao PSD e mesmo não tendo folga para isso baixou impostos e aumentou os salários na função pública. Os que se manifestam hoje mais ruidosamente nessa altura estavam felizes. Mas a factura para pagar estas loucuras não tardou a chegar. E chegou com estrondo. Acontece que o dito cujo já não está cá. A esta hora está a rir-se alarvemente ou a rugir, qual animal selvagem, num qualquer bom apartamento de luxo em Paris.

10 – Em jeito de conclusão, sou contra estas medidas anunciadas pelo primeiro-ministro. As mesmas podem resolver o problema imediato do Governo – duvido - mas prejudicam ainda mais a qualidade de vida das pessoas e a própria economia. Neste cenário presumo que o desemprego não vai parar de subir e o clima de crispação social vai aumentar. Temo o pior e o pior é mesmo uma tremenda confusão nas ruas. Sem recorrer demasiado à memória basta recordar o que se passou em Atenas. O Governo não juntou a estas medidas algumas que lhe tocassem também a si, nomeadamente o corte nas denominadas gorduras do Estado que tanto se falou mas pouco se viu. Começa a não haver margem de manobra para tanta austeridade e o Governo que se diz de matriz social-democrata, não trata todos por igual e deixa muita gente de fora do esforço colectivo que é necessário fazer. Se já não bastavam tantas outras coisas más que nos têm acontecido, esta agora é mesmo a gota que pode transbordar o copo. Não foi para isto que muitos portugueses confiaram o seu voto ao PSD e eu não sou excepção.