quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Porque insistem em diminuir os portugueses?



Eu não acredito em nenhuma teoria da conspiração em relação a Portugal e aos portugueses mas às vezes parece que existe qualquer coisa que nos ultrapassa. 

É verdade que hoje não somos uma grande nação, como já fomos antes, daquelas que se sentam à mesa do G8 (nações mais ricas). Não temos petróleo, nem ouro, nem diamantes (mas temos o Alqueva). Não exportamos mais do que importamos. Não produzimos muito e andamos permanentemente em greves e conflitos laborais. Temos uma classe política que nos empurrou para uma situação financeiramente aflitiva e tivemos de receber lições e recomendações de uns senhores estrangeiros que nos vieram meter na linha e ensinar-nos a viver dentro das nossas possibilidades, entre outras coisas.

Mas que raio, se há uma nação que ajudou a construir o mundo moderno que somos actualmente, essa nação foi Portugal. No entanto, há sempre um tipo qualquer com direito a umas horas de tempo de antena nas televisões para nos vir reduzir à condição de tristes coitadinhos, nomeadamente em áreas onde até somos bons.

Senão reparem: o nosso compatriota Cristiano Ronaldo é um rapaz que nasceu numa ilha no meio do Atlântico, no seio de uma família que não era propriamente rica, fez-se jogador de futebol, veio para a capital aprender o que ainda não sabia, com muito tenra idade foi comprado por um dos melhores clubes do mundo, o Manchester United, onde triunfou individual e coletivamente, foi comprado com uma proposta milionária pelo planetário Real Madrid que entretanto não o quer deixar ir embora e reforçou a sua condição salarial, é permanentemente nomeado para melhor jogador de futebol do mundo, marca golos de todas as maneiras e feitio em quase todos os jogos, é, segundo os seus treinadores, um exemplo de profissionalismo e um moiro de trabalho e mesmo assim há um bur(r)ocrata do futebol que sobrevive das influências que tem conseguido gerar ou comprar junto das federações de futebol do mundo inteiro, a depreciá-lo e ridicularizá-lo publicamente. E eu pergunto: mas porquê?

Sinceramente acho que o faz porque o Cristiano Ronaldo é um self-made man português de grande sucesso. Mas o Messi é argentino o que também não é grande coisa em termos de prestígio enquanto nação, comparada com outras que mandam realmente no planeta (já sentiu o sabor amargo da bancarrota, entre outras humilhações). Mas nem que fosse etíope ou sudanês. Para o tonto do Blatter qualquer coxo serviria para desprestigiar o Cristiano. Porquê? Porque o nosso rapaz é realmente bom, talvez mesmo o melhor de sempre, ombreando em igualdade de circunstância com os grandes nomes do futebol mundial. Messi é mau? Não. É igualmente bom como o Cristiano. É apenas o que está mais à mão do tonto do Blatter para nos depreciar, até porque é no momento o único grande rival.

E este é um sentimento que parece ter episódios mais do que repetidos ao longo da História.

O Infante Dom Henrique foi o precursor da navegação marítima numa altura em que o mar era uma vastidão de desconhecimento, mas o mundo conhece bem é o Cristóvão Colombo. Egas Moniz e José Saramago foram ambos Prémios Nobel mas o primeiro nem alguns portugueses conhecem ou imaginam o que fez, quanto mais os estrangeiros. Descobrimos e colonizámos países que hoje olham para nós com sentido de superioridade apenas porque têm recursos, muitos deles conquistados com o esforço quase escravizado de parte da sua população. Sim, também lá fizemos algumas patifarias. Mas até Angola já fala de galo para nós e nos mete em sentido. E que grandes exemplos e lições têm para nos dar esses senhores onde a opulência do regime vive paredes meias com a miséria e a fome de parte da sua população. Mas como são marxistas são mais os que fecham os olhos do que aqueles que denunciam.

Milhões de portugueses deixaram as nossas fronteiras para ajudar a construir e nalguns casos reconstruir países que são hoje grandes nações, mas mesmo assim continuam a olhar para nós como os pobretanas preguiçosos que não gostam de trabalhar, quando somos exatamente o oposto. No quase inacessível mundo da investigação científica e tecnológica existem portugueses anónimos espalhados pelo planeta que descobrem soluções para o mundo moderno, desde a medicina à robótica. Mas para os outros ainda somos um povo analfabeto a sofrer as consequências dos anos sombrios da ditadura de Salazar. Ou seja, somos tudo e não somos nada.

É mesmo muito estranho este comportamento. É que se gozam de nós naquilo que somos realmente bons o que não dirão nas áreas em que temos maiores carências e dificuldades?

Deve dar um aperto no estômago dos Blatters deste mundo saberem que apesar de pequeno país periférico à beira-mar plantado e tantas vezes confundido como mais uma região de Espanha, há gente de muita qualidade e prestígio. Que no meio dos escombros de um país fustigado por uma ditadura que jogou para a guerra toda uma geração de jovens portugueses, estão a emergir talentos em várias área desde o desporto à cultura, passando pelas ciências e pela tecnologia.

Nós somos tão bons que até nos damos ao luxo de o português que nos deixou de mão estendida a pedir esmola, ter ido a França tirar um curso, escrever um livro, haver quem o compre e isso ser notícia. 

Do que nos envergonhamos então? No que somos inferiores? Olham-nos assim de modo tão vulgar, porquê?

Só pode ser inveja de termos um simples jogador da bola que leva tudo à frente, até as miúdas mais giras dos outros países.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A política autárquica está divertida



Agora que me reformei da política é que ela ficou divertida, diria mesmo cómica. Se já não bastavam todos os episódios burlescos da campanha eleitoral de norte a sul do país, onde listas independentes albergavam ressabiados partidários e outras candidatos que não fazem a mais pálida ideia o que é uma autarquia, militantes de toda uma vida de um partido a candidatarem-se por outros que sempre combateram, coligações patéticas com partidos inexistentes (como aconteceu em Tavira e não só), promessas de toda a espécie como se não tivessem noção da situação que o país vive, cartazes anedóticos a desafiar a imaginação inimaginável, tudo e mais alguma coisa que se pudesse algum dia imaginar  que existisse, eis então que o pós-eleições é ainda mais verdadeiramente surpreendente. 

Não conheço todos os casos mas estes são suficientes para se perceber ao ponto a que isto chegou:

Em Portimão o PSD e o CDS tiveram um somatório de votos superior ao PS. Significa, ainda que no plano teórico, que a soma das partes seria o suficiente para vencerem as eleições. O que fizeram? Não fizeram. Foi cada um para seu lado, alguns militantes do PSD encontraram guarida nas listas dos centristas, outros fizeram pior e deslumbraram-se com o aroma da rosa e agora como se já não bastasse o enorme nó cerebral a que os portimonenses foram sujeitos quando olharam para as listas, o PS convidou o candidato do PSD para o executivo de modo a garantir uma maioria e este aceitou. Isto não é invenção minha nem sonhei numa noite de pesadelo. É mesmo verdade.

Em Loures a CDU com Bernardino Soares à cabeça conseguiu a proeza de reconquistar uma autarquia que já tinha sido sua. Porém sem maioria. Vai daí olhou para os lados e quem estava ali à mão se semear? O PSD e o seu dinossauro autárquico das Caldas da Rainha que havia migrado para sul em direcção a Loures, tal como outros também o fizeram noutras zonas do país. E o que fez o bom do Bernardino? Uma coligação que no caso em apreço pode ser denominada de vodka-laranja. Sim, o até agora líder parlamentar comunista fez uma coligação com os malandros do PSD que assinaram um pacto de agressão com a troika, que são os rostos de uma política neo-liberal criminosa e que estão ao serviço do grande capital na exploração da classe operária. Os chavões não são meus, podem ser encontrados em qualquer discurso do chefe Jerónimo na euforia do encerramento da Festa do Avante.

Em Sintra, o PSD não manteve a câmara porque não quis. Nem mais nem menos. Cansou-se de ser Poder naquele município, um dos mais populosos do país e de maior importância estratégica no que concerne à força do voto urbano e na geometria da liderança da área metropolitana de Lisboa, exportou o Seabra para ser imolado em Lisboa e entregou numa bandeja de prata aquele município ao PS do socialista histórico Basílio Horta. Não é histórico? É cristão-novo? Mas olha que imita muito bem. E entregou como? Candidatando o amigo do chefe na lista oficial provocando a candidatura independente do até então vice-presidente da autarquia, ao qual se juntaram figuras gradas da social-democracia. O que aconteceu? O primo Basílio venceu as eleições. Mas por poucos votos. Então o que fez? Coligou-se. Com quem? Com o PSD oficial.

Estes são apenas três exemplos mas haverá mais. 

Façam o favor de pensar um pouco nisto porque o assunto é mais ou menos sério, nomeadamente para aqueles que acham que ainda há esperança de termos em Portugal uma classe política que nos possa trazer alguma réstia de orgulho e de decência.

Não me venham dizer que as eleições autárquicas são diferentes porque nessa justificação não pode caber tudo. Deixem algum espaço para a ética política, para o direito à diferença e para a separação das águas em que se perceba que isto não é tudo igual nem a mesma coisa.

Otto Kirchheimer, um dos mais relevantes constitucionalistas alemães do século passado, foi o percursor do “catch-all-party” uma espécie de partido de todo o mundo cuja principal característica era a relativa desincorporação da sociedade civil em prejuízo da segmentação a forças corporativas mais representativas. Não é isso que se pretende mas a verdade é que a política autárquica actual e quem sabe a legislativa no futuro, poderá caminhar para uma situação em que não há como distinguir quem é quem, uma vez que depois de eleitos os políticos misturam-se uns com os outros num cocktail que a mim me parece algo pernicioso. 

Confrontam-se, combatem-se e até se enxovalham nas campanhas eleitorais, mas quando cai o pano e se sabe o veredicto, tratam de se encaixar uns nos outros, na maior parte dos casos por mera conveniência pessoal.

Ao contrário do que possa parecer, isto não é grande coisa e terá a prazo o seu resultado.