terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Moedas de Beja

Há umas semanas atrás quando se soube que o português escolhido pelo governo para o cargo de comissário europeu era Carlos Moedas, a oposição em peso contestou o nome, uns com mais veemência que outros. De todas as reacções achei particular piada à do PS que achava que a escolha devia ter recaído sobre Maria João Rodrigues, euro-deputada socialista (vá lá não se terem lembrado da Ana Gomes). Olhem que engraçado: o partido que quando esteve no governo mandou o camarada António Vitorino para a Comissão Europeia queria agora que o PSD escolhesse uma socialista.

Entretanto o mais curioso foi terem sentenciado que Carlos Moedas era um desconhecido para a opinião pública europeia, leia-se elite de esquerda da Europa, apenas conhecido pela troika (os maus da fita).

Hoje Carlos Moedas foi sujeito a uma espécie de prova oral a qual passou com distinção. Mais do que isso, o alentejano de Beja Carlos Moedas, provou que é possível a qualquer cidadão, mesmo de uma cidade do interior, chegar aos maiores palcos da política internacional como ele chegou, desde que para isso trabalhe muito como ele trabalhou, estude muito como ele estudou e seja uma pessoa reconhecidamente competente para desempenhar um cargo público desta dimensão. Mas mesmo assim a contestação não abrandou.

Os mesmos de sempre, aqueles que há mais de 20 anos, alguns 30, aparecem sucessivamente em listas para tudo quanto é lugar ou colonizam os lugares de nomeação política quando o seu partido está no Poder, acham naturalmente estranho que alguém novo de idade e com actividade política recente alcance um lugar desta dimensão. Porquê? Porque para eles a política dos lugares só faz sentido se for para os mesmos que há décadas nos aparecem pela frente como se fossem venerandas figuras intocáveis às quais qualquer cargo assenta sempre bem.

Mas o pior não é isso. É que para o coro de protesto da esquerda, Carlos Moedas não é um dos seus com a agravante do seu falecido pai ter sido um convicto comunista e resistente antifascista, como se a ideologia fizesse parte da herança genética.

Pois eu acho que Carlos Moedas, pese embora existirem outras pessoas que reconhecidamente mereciam chegar ao cargo de comissário europeu, é um português que personifica bem quando o esforço se traduz em mérito. Foi aluno brilhante logo no liceu em Beja e licenciou-se no Técnico (não na Universidade Independente onde alguns alunos se licenciavam por fax aos domingos). Foi estudar para o estrangeiro onde se qualificou com reconhecido mérito académico de excelência e na vida profissional passou por instituições que pese embora haver quem não goste, só lá trabalha quem é realmente bom. Carlos Moedas é o rosto do cidadão comum que pode vencer sem ser com falsos truques e artimanhas, cunhas ou ajudinhas.


Não é de esquerda? Temos pena. 

sábado, 15 de março de 2014

Faro e Olhão tiveram azar e nós todos também

Quem está confortavelmente sentado no seu local de trabalho a poucos metros ou quilómetros de casa e não tem todos os dias de enfrentar o inferno da avenida 125 ou suportar os custos da Via do Infante não precisa ler este texto.

Aos outros, nos quais me incluo, chamo a atenção para o seguinte:

1 – A cidade de Faro é a capital do distrito e por conseguinte onde se concentram uma série de serviços da administração pública, bem como diversas empresas e recebe todos os dias milhares de pessoas de outros concelhos que se deslocam preferencialmente de carro, uma vez que a realidade dos transportes públicos na região é a que se sabe.

2 – Para entrar em Faro de carro existem sobretudo três entradas: a avenida 125 tanto a poente como a nascente e a nacional 2 (a estrada que rasga em latitude o território português da capital algarvia até Chaves). Esta estrada nacional 2 é também conhecida por acesso à Via do Infante. Certamente o pior acesso de todos os que a A22 tem.

3 – As entradas em Faro, nos dias que correm, sobretudo a do lado nascente (Olhão), estão ao nível do que existe no terceiro mundo.  A do lado poente que aglomera trânsito junto às grandes superfícies Fórum Algarve, Pingo Doce, antigo Faro Shopping, Staples, entre outras está um pouco melhor mas não muito. O troço da nacional 2 até à Via do Infante, em horas de ponta, faz-nos perder todo o tempo que conseguimos ganhar na A22 numa normal deslocação. Ou seja ganha-se num lado e perde-se no outro, sem contar que a cidade de Faro está a 10 quilómetros da Via do Infante.

4 – Para quem vem de Tavira, o “terror” começa na mais de uma dúzia de semáforos, alguns limitadores de velocidade, onde o “pára-arranca” é constante para salvaguardar a segurança das pessoas dentro das localidades. Tem o seu momento mais alto no cruzar da cidade de Olhão e o seu epílogo na entrada de Faro. Repare-se que Olhão é hoje uma espécie de túnel do Marquês a céu aberto onde os níveis de poluição do ar e sonora não devem ter paralelo com outro local do Algarve. Olhão e os olhanenses não mereciam isto…

5 – O troço entre Olhão e Faro envergonha qualquer algarvio que se dê ao respeito. Atualmente o piso está decrépito nalgumas zonas com enormes fissuras e sem a chamada camada de desgaste, o separador central tem ervas daninhas a nascer em toda a sua extensão, por falta de manutenção, e a meio do caminho construíram uma rotunda descentrada com o eixo da via a qual ainda não percebi a sua utilidade, mas o problema é certamente meu.

6 – No último quilómetro antes de entrarmos no perímetro urbano da cidade de Faro o cenário torna-se surreal. Para além dos muitos edifícios outrora comerciais abandonados e em estado lastimável com passeios ou acessos inexistentes ou de terra batida, junta-se o que resta de ruínas de antigos edifícios das quintas rurais, alguns deles muito bonitos mas a caírem aos bocados. Mas a cereja estragada em cima do bolo fora de validade é a obra da variante que ficou por construir e onde agora pontifica um cartaz do PS a exigir a sua conclusão, como se este partido não tivesse nada a ver com as causas da interrupção dos trabalhos e como se a responsabilidade política não fosse também sua. Antes de chegarmos à rotunda que nos dá as boas vindas a Faro, junto às bombas de gasolina do Jumbo, dá-se o afunilamento da estrada e aí vale a pena reparar nas laterais onde encontramos o que resta de antigos muros rurais a caírem com o passar dos anos. Esta é a entrada nascente da capital da região mais conhecida de Portugal e uma das mais conhecidas da Europa. Faro e os farenses não mereciam isto…

7 – Estas situações levam a que entrar em Faro a horas de ponta não seja propriamente um exercício de enorme boa disposição, não só pelo que se espera mas também pelo que se vê e se sente. Bem sei que em Lisboa na Segunda Circular ou no IC19 é pior. Mas estamos a falar de uma cidade de província com pouco mais de 40.000 habitantes e não de outra realidade. Dentro de Faro o trânsito que devia circular por fora porque está apenas de passagem, junta-se ao urbano e aumenta os problemas rodoviários numa cidade que afinal de contas não é assim tão grande que justifique tanto congestionamento.

8 – Obviamente que a situação já não era boa no passado mas agora ficou ainda mais grave. A imposição injusta de pagamento de portagens na Via do Infante fez descer para a avenida 125 ainda mais problemas do que aqueles que já existiam. A situação de bancarrota a que o país chegou, ajudou a piorar o resto.

9 – Circular nestas condições, por entre estaleiros de obras abandonadas onde frequentemente se encontram separadores de plástico brancos e vermelhos, ressequidos pelas milhares de horas ao sol por manifesto desleixo, numa estrada que tem um piso miserável cheio de fissuras e buracos, onde em muitos locais não se pode sequer circular à velocidade regulamentar, faz de nós um povo azarado, jogado à sua sorte e com particular destaque negativo para as pessoas que vivem em Faro e Olhão ou aquelas que trabalham ou circulam por aqueles lados.

10 – É nestas condições de “qualidade de vida” que os algarvios vão participar nas próximas eleições para o parlamento europeu, para eleger um conjunto de figuras venerandas que vão para Bruxelas e Estrasburgo com ordenados principescos, tratar de assuntos importantíssimos para a construção europeia.
Vão-me perdoar o desabafo a que alguns não deixarão de chamar populista ou demagogo, mas o que se assiste no quotidiano do Algarve neste momento não é a construção europeia, é sim a destruição da nossa qualidade de vida. A mim pouco me importa quem tem mais culpa. O que me custa mesmo é ver a desresponsabilização de uns e a incapacidade de outros. Há os que acham que assim está bem, certamente porque não vivem este problema todos os dias.


É que pimenta nos olhos dos outros é refresco.