sexta-feira, 15 de junho de 2012

Vou mas volto. Se não voltar é porque fui preso.


A questão não é clubista, nem se é melhor ou pior do que os outros A questão é formal e sobretudo moral.
Porque o processo está nesta fase em segredo de Justiça, os factos que indiciam a prática de vários crimes por parte de um ex-dirigente do Sporting Clube de Portugal, não permitem falar com rigor e a análise fica pela suposição e por aquilo que a imprensa vai noticiando.
Ainda assim, é fácil verificar que existe tanto fumo que só por mero acaso não haverá fogo. Mas isso será matéria para provar, ou não, nos tribunais.
O que interessa para o caso é verificar a forma como a instituição centenária Sporting Clube de Portugal se deixou envolver neste assunto, que começou por ser uma caça justiceira a um árbitro supostamente corrupto e se transformou em várias outras coisas diferentes, sendo a última delas agora conhecida como burla ao próprio clube. Nem a montanha russa da extinta Feira Popular era tão sinuosa.
Há coisas que não se conhecem e provavelmente nunca se irão conhecer, mas tinha algum interesse saber o que leva um presidente e respectiva direcção do clube a: primeiro, aceitar a reintegração de um dirigente que dias antes se tinha demitido das suas funções para poder responder a um processo no qual é suspeito de prática criminosa, demissão essa que tinha como principal motivação não envolver o Sporting. Segundo, patrocinar a defesa judicial do ex-dirigente, novamente demissionário, o qual é suspeito, entre outras coisas, de peculato e burlar o clube.
Caso tudo isto seja uma enorme cabala ou urdidura, e não haja qualquer culpabilidade por parte do arguido e até mesmo se for possível fazer vingar a ideia que tudo isto tem origem em meios obscuros e que por trás desta “falácia” está o Sport Lisboa e Benfica ou o Futebol Clube do Porto porque o senhor Cristóvão até é uma pessoa muito séria (não esquecer as funções de grande responsabilidade que teve na Polícia Judiciária), então o Sporting fez bem em defender o seu sócio, uma vez que este foi vítima de uma cruzada sem precedentes dos inimigos do clube leonino.
O pior é se isto não se verificar. Ou seja, mau mesmo é se o tal senhor é de facto culpado de alguns dos crimes dos quais está acusado, nomeadamente de peculato e burla ao clube. Como fica a instituição Sporting Clube de Portugal no fim de tudo isto? Fica naturalmente mal e os sócios devem prepara-se para pedir explicações aos que não permitiram que o clube fica-se de fora do problema e assistisse, à conclusão do processo, como parte interessada mas não envolvida.
Uma coisa é certa, julgo que já nenhum sportinguista será capaz de afirmar a pés juntos, conforme vi há dois meses atrás, que o seu ex-dirigente Paulo Pereira Cristóvão é um justiceiro que tentou limpar do futebol português um árbitro corrupto, simulando um acto de corrupção para provar que o clube tem sido vítima das arbitragens.
Talvez o senhor Cristóvão ainda volte em braços a Alvalade como Paulo Pedroso voltou em ambiente de aclamação à Assembleia da República. Mas também é verdade que a história pode acabar de modo diferente e em vez de regressar, ser preso.

Nota: Ser benfiquista é um dos meus maiores orgulhos e assim será até morrer. No meu clube há lastro de dirigentes corruptos que deviam estar presos, nomeadamente um tal de Vale e Azevedo. No entanto, a minha opinião nada tem de valorização clubista. Escreveria exactamente o mesmo se o assunto fosse com outro protagonista e o Sport Lisboa e Benfica.

sábado, 2 de junho de 2012

Back to basics


A política portuguesa há uns anos a esta parte tornou-se pastosa e demasiado nublada. António Guterres quando se demitiu fê-lo para evitar o pântano para o qual foi contribuinte líquido e daí para cá a coisa só teve agravamento.
Mesmo no tempo de Cavaco Silva como primeiro-ministro, anos dourados para o país comparados com estes que se vivem agora, pese embora a sua vontade de modificar o estado em que as coisas estavam e reformar os principais sectores de actividade e o próprio Estado, a verdade é que à sua volta gerou muita bactéria política com interesses financeiros que se vieram a revelar ilícitos mais tarde, o que só demonstra a apetência de algumas figurinhas para se aproveitarem da vida pública para enriquecerem.
Hoje, quase não se fala de política no sentido genuíno do termo. Francis Fukuyama previu o fim das ideologias e a razão assistia-lhe. A política já praticamente não é feita em lado algum por razões ideológicas de bondade, género esquerda direita, capitalismo ou socialismo, mas sim numa óptica de sobrevivência, enriquecimento, aproveitamento, delapidação e ruína do bem público.
Eu diria mesmo que o poder político deixou de comandar para ser comandado. O ordenamento político está subvertido e quem de facto comanda sãos os interesses corporativos que ganham força em sistemas democráticos frágeis onde os eleitores ainda não estão sensibilizados para uma participação mais activa e para o verdadeiro exercício da cidadania. Nesse sentido o poder político subverte-se para poder sobreviver e o sistema já de si inquinado jaz morto e apodrece.
Depois veja-se o que se tem passado nos últimos anos em Portugal. Não se pode dizer que regra geral as coisas tenham corrido todas mal, mas observem-se os principais casos que emergiram da classe política de topo. Nem é preciso descer muito. Basta ficarmos pelos portugueses que exerceram as funções de primeiro-ministro. Barroso fugiu para o “eldorado” de Bruxelas depois de ter levando um valente puxão de orelhas dos portugueses nas eleições para o parlamento europeu de 2004. Em vez de ficar e reconquistar a confiança do eleitorado foi à vidinha dele. Deixou-nos como prémio de consolação Santana Lopes que em meia dúzia de meses cometeu a proeza do presidente da república perder a paciência, ao ponto de dissolver o parlamento e convocar novas eleições. É bem verdade que Santana Lopes não fez nem uma décima parte de prejuízos públicos e políticos do seu sucessor Sócrates. Mas Sampaio era socialista e Cavaco foi um presidente quase ausente no primeiro mandato. Só isso explica que Sócrates tenha sido primeiro-ministro durante seis longos e penosos anos.
Se ainda há dúvidas do que Portugal não precisava mesmo ter passado nos últimos anos, o anterior governo é bom exemplo disso. E quando se conhece aquilo que é dito por testemunhas e arguidos no julgamento do caso Freeport, fica-se com a ideia que perdemos todos o juízo. Um dia vamos querer explicar que Sócrates foi primeiro-ministro e quem nos estiver a ouvir rirá de nós. Sim, também há o BPN onde a malandragem de colarinho branco sugou os recursos financeiros do banco, para mais tarde a classe política o transformar num imenso problema de finanças públicas. Ainda ninguém está condenado mas já estamos todos a pagar o prejuízo.
E por fim o estado a que as coisas chegaram, com um clima da mais completa promiscuidade entre a política, os negócios e os interesses ocultos, onde se utilizam meios do próprios Estado como são os serviços secretos de informação, que deviam servir para coisas mais honestas e importantes do que vigiar a vida de empresários, de jornalistas e sabe-se lá mais de quem. E isto é o que se sabe. O que não se sabe deve ser terrível.
É este fim do sentido de honestidade da política e dos políticos que me preocupa, porque sei que o abismo fica logo ali e todos cairemos dentro dele se não for feita alguma coisa. No dia em que se perder em definitivo a confiança na classe política, a democracia morre. E se a democracia morrer, nascerá uma ditadura ou algo parecido.
Por isso parece-me de vital importância neste tempo que não é fácil, que alguém seja capaz de fazer regressar à política o verdadeiro sentido de serviço público de honestidade e de rigor. Mas para isso não podemos continuar com este sistema de desvalorização permanente da actividade política. É impopular dizer isto mas é verdade: são precisos menos políticos dos que temos hoje, mas muito melhor remunerados. Só assim é possível atrair gente com qualidade e honestidade para fazer regressar o exercício da política ao básico que é servir os cidadãos e o Estado e não se servirem deles.