terça-feira, 29 de maio de 2012

O desemprego é uma doença com cura


Nas minhas actuais funções profissionais, tenho sido solicitado a participar em seminários e colóquios que se organizam em torno do tema do empreendedorismo e da criação do próprio emprego.
Na parte que me toca, falo sobre os sistemas de financiamento ao investimento, nomeadamente na vertente da chamada economia social, ou seja o crédito bancário em condições especiais e protocoladas com o Estado para ajudar aqueles que estão desempregados a sair dessa situação.
Estas sessões infelizmente por um lado e felizmente por outro têm sido bastante concorridas. Infelizmente, na medida em que se as pessoas estão lá é porque não têm trabalho. Felizmente, porque apesar dessa circunstância, acreditam que a sua situação pode mudar e não se resignam à condição de desempregados.
Nestas sessões costumo dizer às pessoas que estar desempregado é como estar doente. Refiro igualmente que a doença da qual padecem tem cura, mas é necessário que o “doente” queira curar-se. Sem isso nada feito.
Afastando a circunstância óbvia que nem todos nascem para ser empreendedores e que o problema do desemprego não se resolve transformando aqueles que não têm trabalho em novos empresários, a verdade é que muitas destas pessoas conseguem iniciar uma nova actividade, aproveitando os meios que o Estado e os bancos lhes disponibilizam, juntando a isso muita coragem, determinação e sobretudo vontade de trabalhar.
Nem todos lá chegam? É verdade. São uma minoria? Também. Mas nestas coisas, quando alguém consegue triunfar, o esforço e a vontade justificam-se.
Por esta razão, quando ouvi o primeiro-ministro dizer que o desemprego deve ser olhado também como uma oportunidade e não apenas como um drama irresolúvel, percebi perfeitamente o que queria dizer.
Mas há quem não queira perceber.
Há quem a cada vírgula, vogal ou ponto final do primeiro-ministro, encontre um motivo de reprovação. Há quem ache que é obrigação exclusiva de um governo proporcionar ao país uma solução de pleno emprego de preferência à conta do Estado. Há quem ache que o problema do desemprego desqualificado e também, porque existe, preguiçoso, é da responsabilidade de quem está a governar o país há menos de um ano. Só que não é.
A criação de novos postos de trabalho está dependente do crescimento económico, da criação de riqueza, mas também da capacidade das pessoas reagirem ao clima de dificuldade que se vive neste momento. Não existe uma fórmula mágica para o efeito e a destruição de postos de trabalho acontece com mais frequência e facilidade que o seu contrário, ainda mais numa fase de recessão, à qual não é alheia a situação de desespero financeiro que o país está a viver. Mas o discurso de um governante não pode ser o da resignação.
É certo que Passos Coelho já teve intervenções menos felizes, as quais só por grande reserva mental em ralação a ele podem ser interpretadas como um acto de leviandade. Quando falou de emigração ou da pieguice dos alunos que não querem estudar, talvez não o tenha feito com a clarividência suficiente para se perceber o que queria dizer, mas neste caso do desemprego, só por manifesta resistência ou má vontade não se percebe o objectivo da sua mensagem.
São sobretudo aqueles que acham que a solução nunca depende dos próprios mas sim dos outros, que geralmente se colocam na situação de eternos coitadinhos do sistema e insistem em pensar que a solução tem de lhes ser servida numa bandeja de prata. São os que ficam em casa a mandar currículos pela Internet pensando que isso é o suficiente para conseguir um emprego em vez de um trabalho e no fim lamentam a ausência de resposta, os protagonistas da ondas de reprovação ao discurso do primeiro-ministro, misturados com os políticos no activo que são sempre do contra (PCP e Bloco), mais os responsáveis pela situação a que o país chegou (PS).
Pois fiquem sabendo que já vi muita gente humilde dar a volta por cima. Porquê? Porque em vez de se lamentarem do problema, procuraram uma solução.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O “reforço” dos Santos Populares em Tavira


Em Junho chegam os festejos dos Santos Populares que são um ponto alto para o concelho de Tavira, nomeadamente o dia 24 em que se comemora o Dia do Município e muito em particular o São João.
Manda a tradição enfeitar as ruas, organizar arraiais populares, com sardinha assada e muita hidratação. Todos os anos, de há muito tempo a esta parte, é comum também as pessoas se juntarem na Praça da República para assistirem ao desfile das marchas populares que ao contrário do que muita gente julga, custa tempo e dinheiro a organizar. O tempo são as pessoas que organizam e participam que o dão, o dinheiro é sobretudo do erário público municipal.
Porque não se vive um tempo qualquer, este ano a Câmara Municipal decidiu não organizar o desfile das marchas, decisão essa que contou com a compreensão dos vereadores da oposição, no sentido de haver poupança de recursos financeiros. Em alternativa monta-se um arraial popular na Praça da República com animação e sardinhada. Do meu ponto de vista não me parece mal, bem pelo contrário.
Quanto ao resto, pelo que percebi, é o mesmo de sempre, pese embora cada vez com menos fulgor. Percebi também que este ano não há fogo de artifício o que considero ser outra decisão acertada. Não é sensato “queimar” euros quando eles fazem falta para outras coisas.
O que não entendi nem entendo é que se diga que este ano os festejos dos santos populares em Tavira vão ser reforçados. Na verdade não vão. Se não há desfile das marchas nem fogo de artificio e se se mantém o resto que já era feito noutros anos – arraiais populares em vários pontos da cidade e do concelho – o reforço só pode estar na cabeça de quem escreveu ou mandou escrever isso na nota informativa da autarquia, publicada na sua página oficial na Internet.
Mas também a esse propósito, e pessoalmente não deixei de o dizer na última reunião de Câmara, era o PS que todos os anos reclamava que o executivo PSD estava a diminuir a importância dos festejos dos Santos Populares em Tavira. A prova está á vista. Não só não têm feito mais e melhor do que já vinha sendo prática, como também retiram eventos que, pese embora a compreensão colectiva, a verdade é que deixam de ser feitos. E não é só agora que há dificuldades. No passado também as houve. Mas há mais.
O 24 de Junho era um dia para se inaugurarem obras municipais e este ano pelo que percebi não parece haver alguma com significado de importância para o fazer. Porquê? Porque as obras que foram deixadas pelo executivo anterior ou já foram terminadas e inauguradas noutros anos ou ainda não estão prontas, como é o caso da Escola da Horta do Carmo.
Ou seja, este ano de 2012, já seria suposto o executivo municipal inaugurar obras da sua integral iniciativa. Não o vai fazer e até ao final do mandato não se prevê que consiga alterar muito esta circunstância, uma vez que as condições para o efeito estão cada vez mais degradadas, não só por razões endógenas mas também exógenas.
Em conclusão, compreendo que este ano o São João seja organizado com menos dinheiro público, o que não significa menos alegria popular, mas não me parece correcto que venham dizer que há um reforço, quando na verdade há uma clara diminuição.
Conheço bem essas regras de comunicação que tentam passar para a opinião pública uma coisa que na verdade não se verifica, ainda mais quando é absolutamente visível aos olhos de toda a gente que Tavira vem perdendo fulgor, dinâmica e capacidade de afirmação nos últimos dois anos. Nunca fui muito apologista dessa regra, mas cada um é que sabe com que linha se cose.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A coleira electrónica


A notícia de hoje é que o Duarte Lima vai ficar em prisão domiciliária até ao julgamento. Eu não sei se concordo com esta medida de coacção, mesmo para aqueles que ainda são apenas arguidos. Por alguma razão, mais que não seja a forte suspeita da prática de um crime e perigo de fuga para o estrangeiro, as pessoas são presas preventivamente. É a mais grave medida a aplicar numa fase em que ainda não houve julgamento, correndo-se o risco de a mesma ser injusta.
Mas vamos fazer um suponhamos: imaginar que alguém, que não tem necessariamente de ser o Duarte Lima, praticou de facto vários crimes, entre eles burla qualificada, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, por exemplo num caso relacionada com a compra de terrenos em Oeiras com dinheiros do BPN. Ou seja, há aqui um conjunto de extraordinárias patifarias que comparadas com os sacrifícios que os portugueses estão a fazer neste momento em termos de carga fiscal para pagar a nacionalização do BPN que foi selvaticamente roubado por uns verdadeiros artistas da finança criminosa, merece medidas de coacção duras, até para persuadir futuros aspirantes a bandidos de colarinho branco. Bem sei que tratar alguém de modo exemplar pode significar uma injustiça dentro da justiça.
Porém, e olhando para o caso concreto do Duarte Lima, a prisão domiciliária representa uma espécie de penitenciária de luxo. É mais ou menos como escolher entre ficar hospedado na pensão Estrelinha de uma estrela no Intendente, ou num luxuoso hotel no Dubai. É que a casa do Duarte Lima não é igual à minha nem à da maioria dos portugueses que hoje, mais uma vez repito sem querer ser maçador, pagam impostos atrás de impostos para tapar o buraco provocado pelas roubalheiras no BPN. A casa do arguido Lima é, suponho, um conjunto de várias paredes que acumulam luxo e mordomias. Numa prisão não há luxos, nem mordomias.
Para controlar um arguido ou condenado que saía da prisão antes da pena cumprida, a Justiça coloca uma pulseira electrónica para saber por onde anda, sobretudo para detectar se ele sai de casa. Mais uma vez discordo. A pulseira é demasiado discreta e a casa do forte suspeito ou condenado demasiado privada. Nestes casos e mais uma vez abstraindo-me da pessoa em causa, a pulseira devia ser uma coleira electrónica bem visível, com luzes florescentes a piscar. E em vez do forte suspeito ou condenado se ficar pela privacidade do lar, devia ser obrigado a ir todos os dias à baixa pombalina, ao Centro Comercial Colombo, percorrer toda a linha do Metro, ir ao estádio nos dias em que há bola e ao Pingo Doce fazer compras no dia 1 de Maio. Assim sim estávamos perante uma medida sancionatória e de coacção. É que de outra forma, a canalha endinheirada deste país fica a pensar que o crime compensa, uma vez que até lhes é permitido dormir na própria cama, usar a casa de banho privativa da suite e desfrutar calmamente do plasma na sala sentada num magnífico sofá de pele genuína, com o comando da televisão numa mão e um flute de Moet & Chandon na outra. Assim é difícil fazer Justiça. Porque o gajo que roubou um champô na prateleira do Lidl, não tem estas coisas todas que dão imenso jeito para o conforto e bem-estar do arguido ou do criminoso.
Resumindo e concluindo sem fulanizar: é forte suspeito da prática de um crime grave? Então espera preso pelo julgamento. Foi condenado? Cadeia até ao final da pena. Mas isso pode levar muito tempo? Então façam as coisas mais rápidas. Porque a verdadeira vergonha da Justiça em Portugal não é apenas o tratamento diferenciado que é dado aos cidadãos com mais ou menor visibilidade e posses, é sobretudo a morosidade da mesma.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Jorge Botelho é meu herdeiro e eu não sabia


Em Outubro de 2009, eu e mais três ilustres cidadãos tavirenses, terminámos o nosso mandato na Câmara Municipal de Tavira. Eu e outra cidadã continuámos como autarcas para um novo mandato, mas agora sem pelouros atribuídos. Os restantes foram fazer outras coisas.
Terminavam então 12 anos de gestão social-democrata em Tavira. E terminava porque um dos cidadãos, o que liderava a equipa, partiu para outro desafio. Se tivesse ficado, hoje seria ainda, de certeza absoluta, presidente do município de Tavira. Quem tem dúvidas disso é porque possui uma tão grande reserva mental em relação à pessoa que não consegue ver o óbvio.
Entretanto o testemunho foi passado aos novos autarcas que compõem hoje o executivo.
Nestes últimos dias fiquei a saber por um jornal, que eu e os meus outros colegas do anterior executivo municipal fizemos uma grande maldade ao actual presidente da Câmara de Tavira. Segundo ele, deixámos-lhe uma herança de muitos milhões de euros em dívidas, bem como um conjunto de maus projectos que teve o trabalho de mandar anular.
Quando me apercebi desta circunstância, fiquei para morrer. Nunca pensei fazer tanto mal a alguém e muito menos ao Jorge Botelho que conheço há muitos anos e com quem mantenho uma saudável e muito cordial relação institucional a qual sem exagero posso chamar de amizade.
Nessa noite não dormi a pensar que, pese embora todas as obras que neste mandato foram concluídas ou estão em curso, as quais vinham já em ritmo muito acelerado de concretização do anterior, umas com concursos de empreitada lançados e adjudicados e outras muito perto disso, não tivessem sido suficientes para o satisfazer, nem façam parte do pecúlio que diz ter herdado. Pior fiquei quando me lembrei de como a cidade e o concelho eram em 1998 quando o PSD chegou à Câmara e como estão agora. Tanto trabalho não chegou para constituir motivo de ponderação no deve e haver da herança.
Por mais que tentasse fechar os olhos para dormir, vinha-me à lembrança, dilacerando-me a consciência e o sono, os muitos quilómetros de estradas feitas onde haviam apenas caminhos de cabras, as escolas todas elas recuperadas, algumas feitas de raiz e uma outra preparada para ser construída, uma biblioteca moderna, equipamentos desportivos por toda a parte, o centro histórico e muito do seu património recuperado o qual estava em estado miseravelmente decrépito ao abandono, os hotéis e pousadas que não sendo obras municipais têm muito trabalho e empenho dos eleitos locais, uma rede de saneamento básico requalificada ao fim de décadas de utilização, centros de dia feitos nas diversas freguesias, dezenas e dezenas de fogos de habitação social para quem não podia ir aos bancos contratar crédito, transportes escolares para todos os alunos que moravam longe das escolas e não tinham meios para se transportar, milhões de euros gastos em equipamentos municipais para servir os munícipes, jardins, parques infantis, de estacionamento e de exposições, pontes e pontões. E tantas outras coisas que foram feitas um pouco por todo o lado. Tudo isso não foi suficiente para satisfazer a anuência do meu presidente de Câmara. Para ele apenas recebeu dívidas e projectos maus para anular.
E mesmo a autarquia em si que em 1998 não tinha sequer meia dúzia de computadores e os que haviam trabalhavam a palha, quando em 2009 todos os funcionários com funções técnicas ou administrativas tinham atribuído um equipamento informático. Ou mesmo a qualidade técnica dos serviços municipais. Em 1998 não havia uma mão cheia de licenciados na autarquia. Em 2009 eram quase uma centena. Já para não falar dos edifícios entretanto reconvertidos para o funcionamento dos serviços, todos eles modernizados e informatizados, ligados em fibra óptica para que ninguém ficasse à espera do papel que a senhora contínua levava em passo de caracol de secretária em secretária. Nada disso pesou na balança da justiça da satisfação exigente do meu actual presidente da Câmara.
Mas a minha insónia de repente transformou-se em pesadelo, quando me lembrei que em 1998, no meio do quase nada que tinha transitado da gestão PS para a do PSD, pontificava um arquitecto corrupto, condenado em tribunal por esse crime, o qual fazia umas coisas estranhas com alguns munícipes na secção de obras particulares da autarquia. Esta prática tinha uma característica curiosa. Era conhecida de toda a gente, menos de quem mandava na câmara. É que às vezes estamos tão absorvidos com o que se passa num concelho grande como o de Tavira que acabamos por não reparar no que acontece nas nossas barbas. Diria até, em jeito de analogia com as declarações do meu presidente da Câmara, que se ele recebeu dívidas do PSD, o PSD recebeu entre muito pouca coisa, um funcionário que não interessava nem ao menino Jesus.
Pessoalmente acho que o meu presidente Botelho teve mais sorte. É que as dívidas devidamente contratadas não são crime. Já uma prática ilícita identificada de corrupção é daquelas coisas que não faz falta a ninguém de boa consciência que esteja na vida pública.
Não quero com isto dizer que os seus camaradas de então sejam culpados de alguma forma dessa situação – e ele muito menos - mas se o problema são as diferenças das heranças, acho que não precisa vir o Diabo para escolher qual a pior.
Sendo assim, na parte que me toca, peço desculpa ao presidente da Câmara de Tavira por termos deixado esta herança: um concelho de Tavira exponencialmente muito melhor do que aquele que em 1998 o PSD recebeu. Oxalá consiga fazer melhor para entregar a quem vier depois.

Nota: Este texto antes de ser tornado público foi dado conhecimento ao Presidente da Câmara Municipal de Tavira, Jorge Botelho.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Socialismo à portuguesa


Li a entrevista de Mário Soares ao jornal i e fiquei com a ideia que estava na presença de um dirigente do Bloco de Esquerda, em vez de um ex-primeiro-ministro e ex-Chefe de Estado. Pior ideia tive quando me lembrei que o entrevistado já se viu obrigado no passado a governar o país com o FMI a dizer o que tínhamos de fazer para nos ajudarem financeiramente a resolver os problemas.
Defender que o PS deve rasgar um acordo que subscreveu há um ano é um acto de tanta responsabilidade como conduzir embriagado um automóvel a 200 quilómetros por hora dentro de uma localidade. Não encontro outra comparação.
Um político experimentado e consciente não defende estas coisas e a mim espanta-me especialmente que Soares o faça, na medida em que nenhum em Portugal tem tanta experiência política como ele. Como não há registo que o problema seja falta de lucidez a questão é mesmo: como não somos nós, quanto pior melhor e já agora sofram vocês com o mal que nós fizemos..
Achei mediana piada o facto de um político como Soares defender que o actual governo não vai chegar ao fim da legislatura, o qual é sustentado por uma maioria absoluta na Assembleia da República e tem em Belém um presidente que não tendo sido capaz de correr com Sócrates, também não o fará com qualquer outro primeiro-ministro, na medida em que pior é impossível. 
Mas não vai porquê? Porque não está a cumprir um programa de entendimento que o PS subscreveu com o PSD e o CDS? Porque há algum sentimento na opinião pública desfavorável, fora da esfera da CGTP e do Mário Nogueira dos professores? Porque o PS tem uma alternativa melhor? Porquê, afinal?
Percebi mais à frente que a questão é mesmo a do PSD apanhar os cacos da miserável governação socialista e depois quando a coisa estiver orientada e o pior ultrapassado, então PS volta que estás perdoado.
É que não há um único estudo de opinião que não dê ao PSD e a Passos Coelho a preferência do eleitorado se as eleições fossem realizadas naquele momento. Então no que se baseia Soares? Nas letras das músicas dos Homens da Luta?
Já terá Soares reparado que no PS ninguém se entende, ninguém respeita Seguro e ninguém sabe para onde caminha o partido?
Isto tudo porque Hollande ganhou as eleições em França e isso, na opinião de Soares, significa ventos de mudança. Talvez, mas antes desses ventos passarem pelo Eliseu em Paris, passaram por São Bento em Lisboa no ano passado. 
Então e o que aconteceu na Grécia em que o PASOK ficou em terceiro lugar atrás dos conservadores e da extrema-esquerda, a qual defende o mesmo que Soares, rasgar-se o que foi acordado? Então o resultado eleitoral do berço da democracia com o histórico socialista português gosta de referir, é para ser analisado com o mesmo padrão de rigor político ou não?
Talvez seja só impressão minha, mas esta não foi a melhor entrevista que Soares já deu.
Mas na sua génese está a matriz política do socialismo português, que é: nós gastamos. A seguir saímos fora quando a coisa fica má. Alguém vem e paga. Depois voltamos para rebentar com o resto.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Esta esquerda é doce mas não pinga


Há muito tempo que não sou cliente do Pingo Doce. Já fui. E não sou por uma qualquer razão especial, mas apenas porque posso escolher onde quero fazer as minhas compras, que é uma vantagem que o mercado livre e concorrencial me permite. Se fosse num país sem esta liberdade, eu teria de ser cliente do único supermercado disponível. Mas em Portugal há muito tempo que não é assim. As pessoas vão onde querem e onde a sua carteira permite. E a carteira de muitos portugueses hoje em dia não pode deixar de ser tentada para um supermercado que lhe faz uma promoção por metade do preço, ainda que a partir de um determinado valor.
Quem tem o hábito de fazer compras sabe que não é difícil encher um carro com mais de 100€ de produtos. É certo que provavelmente virão dentro dele coisas supérfluas, daquelas que só se compram porque “encalharam” connosco ou porque o preço sendo pela metade, abre-se uma janela de justificação. Noutras circunstâncias isso não aconteceria.
Quero com isto referir que me parece de total legitimidade que uma cadeia de supermercados faça, dentro da lei, a promoção que entenda, no dia que lhe pareça ser o mais adequado. Só lá vai quem quer. Ninguém tem outro motivo que não seja o da livre vontade. À minha casa não foi um funcionário do Pingo Doce apontar-me uma arma à cabeça e obrigar-me a fazer compras no dia 1 de Maio. Aliás, eu nem sabia da promoção. E se soubesse também não ia. Não porque seja despicienda a compra de produtos a metade do preço, mas porque simplesmente não me fazia falta ir abastecer naquele dia e sobretudo porque para mim não são 50€ que me levam a enfrentar uma confusão caótica dentro de quatro paredes de um supermercado, num dia feriado. Mas esta é a minha opção. Se tivesse necessidade e vontade, não duvido que iria sem que isso pudesse representar algum demérito social.
O que acho ter feito confusão, foi o facto de ainda termos em Portugal muita gente que não gosta de liberdade, porque é disso que se trata. A esquerda, os mesmos de sempre, arreliou-se não com os compradores mas com os vendedores. Isto foi o que mostraram. Na verdade a zanga é com todos mas só com uns conseguem embirrar publicamente. O PCP, o Bloco e algumas franjas parolas do PS, ficaram indignados com os donos do Pingo Doce, porque não apreciam gestos dos capitalistas que possam agradar ao povo. Essa é a praia deles. Os capitalistas, na sua opinião, servem para massacrar e para ganhar dinheiro à conta dos mais fracos. Não os conseguem aceitar como profissionais que sabem bem o que andam a fazer e cujas contas de aritmética são pensadas e feitas previamente, sabendo-se à partida o que vale a pena e o que não vale.
Num país moderno, com livre concorrência e consumidores esclarecidos, não são os dogmas bafientos da esquerda que fazem disciplinar as vontades. São as pessoas que decidem onde compram e quanto estão dispostas a pagar.
Para além disso foi um tiro no porta-aviões da esquerda que temos em Portugal, saber que milhares de pessoas estão-se marimbando para as manifestações de rua que acontecem todos os anos de igual forma e onde se dizem sempre as mesma coisas, preferindo ir abastecer a despensa, por metade do preço.
Mesmo pesando todos os problemas que surgiram e os momentos mais anedóticos vividos, a verdade é que o Pingo Doce fez uma jogada de marketing genial, só possível num país livre e democrático como o nosso onde cada um dos cidadãos decide uma coisa tão elementar como é a de fazer compras onde quer no dia que lhe dá mais jeito.
Não se pode uma semana antes comemorar o 25 de Abril e depois ser-se contra um gesto de liberdade. Não lhes agrada, não vão. Têm sempre as manifestações com que se entreter.