terça-feira, 8 de maio de 2012

Socialismo à portuguesa


Li a entrevista de Mário Soares ao jornal i e fiquei com a ideia que estava na presença de um dirigente do Bloco de Esquerda, em vez de um ex-primeiro-ministro e ex-Chefe de Estado. Pior ideia tive quando me lembrei que o entrevistado já se viu obrigado no passado a governar o país com o FMI a dizer o que tínhamos de fazer para nos ajudarem financeiramente a resolver os problemas.
Defender que o PS deve rasgar um acordo que subscreveu há um ano é um acto de tanta responsabilidade como conduzir embriagado um automóvel a 200 quilómetros por hora dentro de uma localidade. Não encontro outra comparação.
Um político experimentado e consciente não defende estas coisas e a mim espanta-me especialmente que Soares o faça, na medida em que nenhum em Portugal tem tanta experiência política como ele. Como não há registo que o problema seja falta de lucidez a questão é mesmo: como não somos nós, quanto pior melhor e já agora sofram vocês com o mal que nós fizemos..
Achei mediana piada o facto de um político como Soares defender que o actual governo não vai chegar ao fim da legislatura, o qual é sustentado por uma maioria absoluta na Assembleia da República e tem em Belém um presidente que não tendo sido capaz de correr com Sócrates, também não o fará com qualquer outro primeiro-ministro, na medida em que pior é impossível. 
Mas não vai porquê? Porque não está a cumprir um programa de entendimento que o PS subscreveu com o PSD e o CDS? Porque há algum sentimento na opinião pública desfavorável, fora da esfera da CGTP e do Mário Nogueira dos professores? Porque o PS tem uma alternativa melhor? Porquê, afinal?
Percebi mais à frente que a questão é mesmo a do PSD apanhar os cacos da miserável governação socialista e depois quando a coisa estiver orientada e o pior ultrapassado, então PS volta que estás perdoado.
É que não há um único estudo de opinião que não dê ao PSD e a Passos Coelho a preferência do eleitorado se as eleições fossem realizadas naquele momento. Então no que se baseia Soares? Nas letras das músicas dos Homens da Luta?
Já terá Soares reparado que no PS ninguém se entende, ninguém respeita Seguro e ninguém sabe para onde caminha o partido?
Isto tudo porque Hollande ganhou as eleições em França e isso, na opinião de Soares, significa ventos de mudança. Talvez, mas antes desses ventos passarem pelo Eliseu em Paris, passaram por São Bento em Lisboa no ano passado. 
Então e o que aconteceu na Grécia em que o PASOK ficou em terceiro lugar atrás dos conservadores e da extrema-esquerda, a qual defende o mesmo que Soares, rasgar-se o que foi acordado? Então o resultado eleitoral do berço da democracia com o histórico socialista português gosta de referir, é para ser analisado com o mesmo padrão de rigor político ou não?
Talvez seja só impressão minha, mas esta não foi a melhor entrevista que Soares já deu.
Mas na sua génese está a matriz política do socialismo português, que é: nós gastamos. A seguir saímos fora quando a coisa fica má. Alguém vem e paga. Depois voltamos para rebentar com o resto.

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