quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2012 - Annus Horribilis

No ano que agora termina houve um facto muito significativo para a vida dos portugueses: o governo Sócrates chegou ao fim.
Pese embora as semelhanças que possam haver nas medidas de austeridade agora tomadas e aquelas que Sócrates tomaria se fosse ainda primeiro-ministro, foi muito positivo para Portugal fechar essa página que corresponde sobretudo a dois anos de desvario nas contas públicas, às quais e por uma questão de justiça, não se pode deixar de lado a nacionalização do BPN e com ela o tremendo prejuízo que trazia de lastro, bem como a cratera financeira da Madeira.
As duas coisas não justificam tudo, mas aumentam a dimensão do problema.
Ainda assim, o clima crispado e sempre disponível para a arruaça com a oposição e os diversos sectores de actividade do país, aliado ao limite mínimo da credibilidade que foi perdendo lá fora, isso só por si já justificou a mudança de primeiro-ministro e de governo. Sócrates deixou de ser solução e passou a ser um problema.
Com este ocaso terminou também a era do show-off mediático, das grandes apresentações em power-point, das obras faraónicas para as quais não tínhamos tostão, da propaganda enganosa e de mentiras sucessivas que nos embalaram num sono profundo até ao dia em que acordámos para a dura realidade.
Perante isto Portugal mudou.
Para ser isento e honesto tenho de dizer que hoje estou convencido que se o PSD e o CDS tivessem dito aos portugueses exactamente aquilo que acabaram por fazer quando chegaram ao governo, o resultado teria sido logicamente diferente. Duvido que algum funcionário público votasse num partido que lhe dava como certo o corte durante dois anos nos subsídios de Natal e de férias. Da mesma maneira que estou convencido que Sócrates não teria grande alternativa a esta medida perante a factual necessidade de diminuir a despesa do Estado. Esta é a solução mais fácil, no entanto dramática e em muitos casos bastante injusta.
Assim entramos em 2012 como quem entra numa enorme encruzilhada, onde a certeza do aumento do desemprego, do empobrecimento do país, do aumento da emigração e da destruição da chamada classe média é uma certeza que ninguém consegue negar.
Isto vai ser dramático.
A única incógnita que importa saber é se os sacrifícios vão ser suficientes para tirar o país da situação em que alguém o meteu. Mas mais importante do que isso é saber se findo todos estes esforços resta alguma coisa a Portugal que não seja uma classe alta ainda mais alta e inatingível nos sacrifícios pedidos, uma classe baixa com um aumento exponencial e cada vez mais dependente e a inexistência da classe média que é ao fim e ao cabo aquela que paga a factura do problema, uma vez que não vive do assistencialismo do Estado, paga impostos até ao último cêntimo para que outros sejam assistidos e depende exclusivamente do seu trabalho que nalguns casos irá perder. A equação é difícil de resolver. Contrariar esta realidade é o desafio que temos pela frente.
Por isso estou convencido que 2012 será um annus horribilis (o latim pelos vistos também é uma língua traiçoeira), uma vez que nem toda a gente conseguirá sobreviver a este maremoto de austeridade a que estamos a ser submetidos.
Quem ainda tem trabalho que se cuide. Quem não tem que o procure onde há ou crie o seu. Quem não tem nem quer ter, que vá para o diabo que o carregue.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Meia hora e três dias

A meia hora a mais de trabalho no sector privado e a redução dos dias de férias são duas medidas ridículas que não vão resolver coisa nenhuma, a não ser reduzir ainda mais o valor horário pago aos trabalhadores.
Nenhum problema de produtividade vai ser resolvido mas admito que muitos patrões vão ficar mais confortáveis.
Na verdade no sector privado são poucos os que trabalham apenas as horas a que estão obrigados. A maioria trabalha muitas mais e não recebe por isso. É assim em quase todo o lado. Os horários só são cumpridos na entrada e quase nunca na saída. Ao contrário do que acontece na generalidade da função pública em que o horário da saída, salvo as devidas excepções, é sinónimo do fim da jornada de trabalho, nas empresas privadas isso não se verifica.
É bem verdade que o sector privado não está acima da lei e que a Inspecção de Trabalho tem meios legais para actuar. Mas só por pura ingenuidade se pode pensar que é possível controlar as horas extraordinárias não pagas aos trabalhadores que ficam muito depois do horário de saída sem receber um cêntimo.
Como tal, estas medidas vão servir sobretudo para aumentar o odioso da questão e acicatar os ânimos de muita gente em relação ao governo. Em teoria o aumento do número de horas de trabalho ou mesmo de dias, significa um ganho de produtividade, mas não é líquido que isso aconteça e na maior parte dos casos se calhar não vai mesmo acontecer.
Se a questão central é de facto aumentar o nível produtivo da economia e se isso depende em boa parte do esforço dos trabalhadores, não me parece que esta política de apanhar moscas com vinagre seja de facto boa. Os bons profissionais são incentivados a trabalhar porque lhes melhoram as condições de trabalhos, reconhecem-lhes o mérito naquilo que fazem e os premeiam. Se lhe for dito que para trabalharem mais e melhor vão diminuir aquilo que entretanto adquiriram, julgo que a reacção vai ser contrária.
Por outro lado não entendo bem esta fobia em relação às relações laborais, numa altura em que o desemprego não pára de aumentar. É que está à vista de todos que há uma tentativa de facilitar e tornar mais barato o despedimento, significando isso um aumento da taxa de desemprego. Não será um erro a pretexto de um horizonte de produtividade que poucos conseguem definir como e quando se chega a ele, banalizar o despedimento e aumentar o número de pessoas a receber o subsídio de desemprego? Ou também estão a pensar em cortar esse tipo de assistência social? É que se for assim, a rua é mesmo a única alternativa e quando digo a rua é o roubo, a criminalidade, o desacato e o salve-se quem puder. Ajuda-se alguns patrões mas destrói-se uma boa parte da economia e incendeia-se a paz social que tanta falta nos faz.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pulhice

Procurei no Google porque tive receio que no dicionário não estivesse o significado. A minha dúvida era concreta e nada subjectiva. Na verdade suspeitava do significado mas tinha dúvidas no termo. O que queria saber era o nome mais adequado para a circunstância de alguém me pedir para pagar uma coisa já paga e que no momento actual nem está em grandes condições, como aliás nunca esteve. Roubo não podia ser. Porque o objecto não mudou de mãos nem deixou de estar onde sempre esteve. Roubo pressupõe crime e eu sei, sem conhecer os detalhes do Código Penal, que não se trata exactamente disso. Antes fosse. Assim íamos atrás do bandido e a seguir ficávamos na expectativa que se fizesse justiça. Mas nem com isso podemos acalmar o espírito, até porque não é liquido que alguém que nos roube seja condenado e preso. Mas desistir de procurar o termo certo não me pareceu boa solução. Também já não me incomoda muito o autor material ou moral do problema. Isso é tão insignificante. Não nos trás a solução. Como tal, não acalma a minha indignação nem a de outras pessoas que se sentem vilipendiadas como eu me sinto. Somos se calhar um grupo de gente que fez mal a alguém. Por isso estão-nos a ajustar contas.
Para tentar interpretar a coisa e na expectativa que um dia alguém me pergunte o que se passou e porque se passou, só consegui desenhar na minha cabeça um exercício. Imaginei-me a ir à loja e comprar um fato para trabalhar. Experimento, mando fazer as bainhas das calças, dirijo-me à caixa e pago. Uns tempos mais tarde passo em frente da loja e lá de dentro sai o gerente que me intima a pagar de novo o fato que usei durante todo este tempo. O pior é que não me dá alternativa. Ou pago ou dispo. Não me apetece ficar despido na rua. Se fico despido na rua, talvez desagrade a vista a alguém. O melhor é não arriscar. Não se anda despido na rua. Então pago pela segunda vez porque não tenho alternativa. Ficar em cuecas na rua, nem no Carnaval, quanto mais agora que ainda não chegou o Natal.
Sigo então o meu caminho em direcção ao termo certo. Aquele que me permitirá responder aos que me perguntarem: - mas o que aconteceu? Então isto agora paga-se? Mas porquê?
Isto não está fácil. Eu que até conheço tantas palavras, umas maiores que outras, só me vem à cabeça uma. E é feia. Tenho essa consciência. Isto não vai correr bem.
Terei mesmo de ir ao dicionário. E a palavra está lá impressa. Então se calhar não é palavrão. E logo eu que me lembro de brincar com os meus colegas da escola primária cada vez que abríamos a pagina do dicionário onde estava escrita a palavra cabrão. A nossa professora dizia-nos que era feio. Mas estava lá. E a palavra que me ocorre para identificar na perfeição o que vai acontecer no próximo dia 8 na Via do Infante é mesmo isso: pulhice. Uma grande pulhice.