terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pulhice

Procurei no Google porque tive receio que no dicionário não estivesse o significado. A minha dúvida era concreta e nada subjectiva. Na verdade suspeitava do significado mas tinha dúvidas no termo. O que queria saber era o nome mais adequado para a circunstância de alguém me pedir para pagar uma coisa já paga e que no momento actual nem está em grandes condições, como aliás nunca esteve. Roubo não podia ser. Porque o objecto não mudou de mãos nem deixou de estar onde sempre esteve. Roubo pressupõe crime e eu sei, sem conhecer os detalhes do Código Penal, que não se trata exactamente disso. Antes fosse. Assim íamos atrás do bandido e a seguir ficávamos na expectativa que se fizesse justiça. Mas nem com isso podemos acalmar o espírito, até porque não é liquido que alguém que nos roube seja condenado e preso. Mas desistir de procurar o termo certo não me pareceu boa solução. Também já não me incomoda muito o autor material ou moral do problema. Isso é tão insignificante. Não nos trás a solução. Como tal, não acalma a minha indignação nem a de outras pessoas que se sentem vilipendiadas como eu me sinto. Somos se calhar um grupo de gente que fez mal a alguém. Por isso estão-nos a ajustar contas.
Para tentar interpretar a coisa e na expectativa que um dia alguém me pergunte o que se passou e porque se passou, só consegui desenhar na minha cabeça um exercício. Imaginei-me a ir à loja e comprar um fato para trabalhar. Experimento, mando fazer as bainhas das calças, dirijo-me à caixa e pago. Uns tempos mais tarde passo em frente da loja e lá de dentro sai o gerente que me intima a pagar de novo o fato que usei durante todo este tempo. O pior é que não me dá alternativa. Ou pago ou dispo. Não me apetece ficar despido na rua. Se fico despido na rua, talvez desagrade a vista a alguém. O melhor é não arriscar. Não se anda despido na rua. Então pago pela segunda vez porque não tenho alternativa. Ficar em cuecas na rua, nem no Carnaval, quanto mais agora que ainda não chegou o Natal.
Sigo então o meu caminho em direcção ao termo certo. Aquele que me permitirá responder aos que me perguntarem: - mas o que aconteceu? Então isto agora paga-se? Mas porquê?
Isto não está fácil. Eu que até conheço tantas palavras, umas maiores que outras, só me vem à cabeça uma. E é feia. Tenho essa consciência. Isto não vai correr bem.
Terei mesmo de ir ao dicionário. E a palavra está lá impressa. Então se calhar não é palavrão. E logo eu que me lembro de brincar com os meus colegas da escola primária cada vez que abríamos a pagina do dicionário onde estava escrita a palavra cabrão. A nossa professora dizia-nos que era feio. Mas estava lá. E a palavra que me ocorre para identificar na perfeição o que vai acontecer no próximo dia 8 na Via do Infante é mesmo isso: pulhice. Uma grande pulhice.

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