quarta-feira, 24 de julho de 2013

Aos olhos de quem está de fora

Portugal viveu nas últimas duas semanas um período de crise política completamente desnecessária que nos fez perder tempo e dinheiro. Motivada pela demissão mais do que prevista do Ministro das Finanças e pelo consequente desvario de Portas, criaram-se condições para que a solução de estabilidade que saiu das últimas eleições legislativas se desmoronasse como um castelo de cartas.
A oposição sentiu que tinha terreno fértil para lançar sementes de contestação no sentido de precipitar eleições antecipadas e o Presidente da República viu-se obrigado a intervir em dois momentos. No primeiro para pedir aos partidos que assinaram o memorando de entendimento com a troika que se entendessem, propondo um prazo para a realização de eleições antecipadas. No segundo para dar continuidade ao mandato do governo.
Os três partidos que se sentaram à mesa, dois estavam, segundo se percebeu, com vontade de um entendimento, mas um deles, neste caso o PS, tudo fez para que não houvesse entendimento. E fê-lo de modo propositado.
Levando consigo propostas maximalistas que colocariam em causa o cumprimento daquilo que assinaram há dois anos e condicionados pela vontade dos senadores socialistas com Soares e Alegre à cabeça, o PS de Seguro foi a jogo apenas para não dar falta de comparência. Fez figura de corpo presente.
O PS não tinha qualquer interesse em participar numa solução de governo nem de caucionar medidas de austeridade que ainda possam vir a ser presentes aos portugueses.
Confortado por sondagens que lhe dão a vitória numas eleições a curto prazo, o PS estava motivado para a dissolução da assembleia e posterior convocação do acto eleitoral, tendo mesmo proposto a data das autárquicas. Até lá iria repetindo um conjunto de medidas as quais sabe que nunca as cumpriria se chegasse ao governo.
Por tudo isto, e ao meus olhos que estão de fora e apenas observam o que nos mostram, o PSD e o primeiro-ministro fizeram aquilo que se impunha. Passos Coelho foi líder e teve sentido de responsabilidade quando não aceitou o desvario de Portas. Mais do que isso, abriu a porta a um entendimento com uma parte que não queria qualquer acordo e manteve intactas as condições de governabilidade. E isto foi o menos mau para Portugal e para os portugueses, tendo em conta que um cenário de dissolução da assembleia e de eleições antecipadas não trariam ao nosso país nenhuma solução melhor do que aquela que temos atualmente.
O actual PS no governo significaria uma de duas coisas: ou a manutenção da política de austeridade que não é mais do que o caminho tortuoso que temos de percorrer para proceder ao reajustamento da economia e ao cumprimento do acordo que nos salvou da bancarrota, independentemente do que dissessem no período eleitoral aos eleitores (sim, Seguro faria em campanha o que Passos também fez, não diria a verdade para ganhar as eleições) ou em alternativa praticar uma política de abrandamento dos sacrifícios e quiçá distribuição de benesses simpáticas que nos colocariam novamente numa rota ainda mais descendente para o abismo, do qual não estamos ainda livres.
O que iria acontecer era certamente a primeira coisa, ou seja o PS não falaria a verdade às pessoas e chegado ao governo faria o contrário ou seja manteria a política de austeridade porque as alternativas, infelizmente, são poucas ou nenhumas se desejamos voltar a ser respeitados pelos credores que nos emprestaram dinheiro no passado, bem como pelos parceiros comunitários e os investidores internacionais. Um país em roda livre não capta nem um cêntimo de investimento estrangeiro e isso significa o cavar ainda mais profundo do problema do desemprego.
Antes fosse possível e praticável um alívio de sacrifícios e uma mudança radical do caminho a percorrer. Não há. Esta é a nossa triste sina depois de termos chegado a um situação que nos envergonha e nos obriga à perda de soberania uma vez que deixámos de ter controlo sobre grande parte das medidas de política económica e financeira.
Pode quem quiser gritar que se lixe a troika e rasgue-se o memorando de entendimento. Ninguém com juízo faria uma coisa dessas. O Bloco e o PCP fariam? Mas esses não têm juízo.