segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Je ne suis pas Charlie Hebdo nem pouco mais ou menos

O ataque à redacção do jornal francês Charlie Hebdo conseguiu gerar uma onda de solidariedade nunca vista. Os motivos eram óbvios: ninguém queria, nem quer, ficar sob o jugo da intolerância, do fundamentalismo islâmico e, consequentemente, do terrorismo.

Era, naquela circunstância, muito fácil escolher o melhor lado, diria mesmo, o único lado aos olhos da tolerância do chamado mundo ocidental.

Porém houve muita gente que conseguiu ver para além do óbvio e, apesar do lamento pela morte dos jornalistas, observar e chamar a atenção para o lado desnecessariamente provocatório das publicações do Charlie Hebdo, as quais parecem ter legitimidade face à barbárie protagonizado ao longos dos anos, mas muito particularmente nos últimos, pelos grupos radicais e pelas próprias sociedades islâmicas que vivem segundo ancestrais tradições e costumes que chocam qualquer um de nós. Associou-se à liberdade de imprensa a inocência imprescindível às democracias modernas em que nos orgulhamos de viver.

Mas o Charlie Hebdo é tudo menos um jornal inocente e tem uma particular vocação para apagar fogueiras com gasolina. Senão veja-se o cartoon que publicou recentemente sobre a queda de um Airbus russo em solo egípcio, cujas causas são ainda desconhecidas, apesar do Estado Islâmico (EI) ter reclamado a sua autoria. O cartoon é uma vergonhosa provocação aos familiares das vítimas entre as quais várias crianças que com certeza não são culpadas  dos bombardeamentos da Russia às posições do EI.

O Charlie Hebdo no fundo não distingue nada nem ninguém quando se trata de fazer vincar a sua opinião, também radical, sobre os assuntos e os acontecimentos que acontecem por este mundo fora. O Charlie Hebdo é, também ele, um lado da intolerância e da violência uma vez que a faz gerar não apenas junto dos radicais islâmicos mas também de pessoas honestas e anónimas que tiveram o azar de ter um familiar a bordo de um avião de linha aérea que se despenhou e do qual não há sobreviventes. Isto não é liberdade de imprensa, é o mais radical e desnecessário humor negro que não faz rir o mais divertido dos leitores.


Bem fazem os líderes mundiais quando se juntam para protestar contra o terrorismo e pela liberdade de imprensa. Mal fazem quando a pretexto disso se associam a um jornal que outra coisa não faz senão acicatar ódios convencido que tudo nesta vida é alvo de sátira, inclusive a morte de pessoas inocentes.

sábado, 24 de outubro de 2015

O meu Caminho de Santiago - Última etapa: Lalin - Santiago de Compostela

 A terceira e derradeira etapa do meu Caminho começou em Lalin. Na verdade o traçado oficial não passa naquela cidade mas sim um pouco mais a sul, perto da Estrada N-525. Por questões de logística optei por finalizar a etapa do dia anterior em Lalin em vez de fazer mais 15 quilómetros até Silleda. Foi uma boa opção.

A distância até Santiago de Compostela eram aproximadamente 57 quilómetros com 1100 metros de acumulado de subida. Ou seja, menos exigente que as etapas anteriores mas com uma dificuldade que contarei mais à frente.

O caminho entre Lalin e Silleda é marcado pela travessia da ponte de Taboada sobre o rio Deza, datada do século X. Nas suas imediações o caminho é feito de empedrado que exige grande perícia para quem segue em cima de uma bicicleta. Junto à ponte encontrei um grupo de escuteiros espanhóis muito animados e acompanhados por um frade que me deram um muito sonoro «Buen Camino».

Uns poucos quilómetros mais à frente parei junto à igreja deSantiago de Taboada onde recolhi o carimbo bem como para visitar aquele templo. No seu interior fui surpreendido com mais um símbolo da religiosidade portuguesa. Num dos altares laterais lá estava, mais uma vez, a imagem da Nossa Senhora de Fátima acompanhada dos pastorinhos. Perguntei à pessoa que estava a vigiar a igreja o porquê daquela imagem, uma vez que no dia anterior tinha encontrado uma semelhante em Viduendo. Respondeu-me que naquela zona da Galiza havia uma grande devoção à Nossa Senhora e que Fátima era uma referência para os católicos galegos. A imagem não era muito antiga e tinha sido oferecida por um devoto.

Segui o meu caminho em direcção a Silleda onde tinha a família à minha espera junto à igreja de Santa Eulália. Chegado ao local apenas abasteci os bidons com água fresca porque aquele era o dia mais quente da viagem e o calor já se fazia sentir a meio da manhã.

Os quilómetros seguintes foram quase sempre a rolar sem grandes dificuldades. Encontrar peregrinos no Caminho era cada vez mais frequente. Para quem seguia a pé aqueles seriam os últimos dois dias uma vez que é normal as etapas diárias serem de sensivelmente 20 quilómetros.

Depois de passar no pueblo de Bandeira foi sempre a rolar com pequenas subidas e descidas até às imediações de Puente Ulla onde, ai sim, comecei a encontrar grupos maiores de peregrinos que por serem tantos ocupavam toda a largura do caminho ou da estrada. As brincadeiras de pedir boleia e as palavras de incentivo e de desejo de boa viagem sucediam-se. O ambiente entre estes peregrinos era bem diferente dos do dia anterior, talvez pela maior proximidade ao destino e também por se tratar de grupos numerosos. Para mim era o derradeiro dia. Mas para eles muito provavelmente seria o penúltimo ou antepenúltimo. Em todo o caso era a fase final de uma longa jornada para quem faz o caminho a pé.

Logo à saída da ponte sobre o rio Ulla, junto à Igreja de Santa Madalena encontra-se o local para recolher o carimbo. Acabei por parar também para abastecer porque o “motor” estava a pedir combustível. Nada que um magnífico bocadillo de jamon não resolve-se.

O fim estava próximo. Por isso pedi á família para rumar em direcção a Santiago de Compostela e esperar por mim na Plaza de Obradoiro. Não havia motivo para parar antes. Eu estava bem e tinha água e energia suficiente para chegar a Santiago de Compostela.

Assim foi. Eles seguiram confortavelmente de carro e eu fui enfrentar uma subida de vários quilómetros com o sol a fritar o corpo. A espaços olhava para a paisagem de modo a abstrair-me da subida que se complicava a cada minuto devido ao calor e ao cansaço acumulado. A saída de Ulla é dura mas muito bonita em paisagens. No topo da subida o prémio foi um fontanário de água fresquinha perto de mais uma pequena capela de estilo românico. Fiquei depois a saber que era mais um local de romaria e de referência para quem faz a Via da Prata. Tratava-se da Capela de Santiaguiño em San Pedro de Vilanova, Outeiro. Poucos metros mais à frente fica um albergue de peregrinos com muito bom aspecto.

Segui a minha viagem em direcção a Santiago de Compostela e tinha pela frente os últimos 20 quilómetros os quais foram percorridos por trilhos mas também por estradas num sobe e desce sem grande dificuldade. Entretanto o calor continuava a castigar já em plena hora do almoço e a ansiedade por ver a zona urbana de Santiago começava a crescer a cada minuto.

Já muito perto de Santiago voltaram a surgir umas subidas mais acentuadas e o silêncio dos campos que me acompanhou durante muito tempo foi substituído pelo ruído de carros. Estava já junto à auto-estrada e um pouco mais à frente passei sob uma das suas pontes. Aí tive a primeira visão da proximidade de Santiago. Ao meu lado direito estavam os magníficos edifícios da Cidade da Cultura da Galicia. Foi também nessa altura que encontrei o mais jovem peregrino a pé. Não devia ter mais de 16 anos e caminhava sozinho. Fui uns metros ao seu lado e meti conversa. Era uma madrileno que vinha de Ourense e caminhava há seis dias. Estava muito perto de chegar ao seu destino. Tal como eu que vinha de mais longe mas apenas com metade dos dias. Desejei-lhe sorte e continuei em frente.

Já nas imediações de Santiago cheguei à Rua de Sar, uma descida em empedrado onde avistei finalmente as torres da Catedral. A viagem estava a chegar ao fim e as dificuldades estavam ultrapassadas. Pensava eu.

A Via da Prata entra na cidade de Santiago de Compostela através de uma rua não muito larga com trânsito nos dois sentidos e uma subida muito íngreme onde a presença de um ciclista com elevados níveis de cansaço e ansiedade só serve para atrapalhar ainda mais quem por ali passa. Ainda tentei desviar-me para cima do passeio mas foi um esforço inglório. O passeio é para os peões e eu tive que esperar por uma nesga de tréguas no trânsito para vencer o desnível da rua.

Este é mesmo o último obstáculo físico. Depois só resta a ansiedade de percorrer as ruas que dão acesso à Plaza de Obradoiro que em Agosto estão pejadas de gente espalhadas pelas esplanadas, pelas lojas ou simplesmente a circular. O ambiente era fantástico. Peregrinos a chegar, uns de mochilas às costas e outros de alforges nas bicicletas. Mais uma vez senti-me um privilegiado na medida em que não tive de suportar o peso da carga inerente à viagem.

Uns metros mais à frente surge então a Plaza de Obradoiro e toda a imponência da  Catedral voltada de frente para o também imponente edifício do Ayuntamiento. A Sónia estava à minha espera bem no meio da Plaza pronta para me receber. Quando parei olhei para a Catedral. Que sensação fantástica. Todo o objectivo que é superado, seja com maior ou menos dificuldade, é sempre um momento de alegria. O calor era bastante. À minha volta havia festa. Eram os vários peregrinos que chegavam também ao seu destino alguns deles também com família e amigos à espera. Era uma celebração colectiva ainda que cada um à sua maneira. Para o meu tio Fernando que me acompanhou nesta aventura e sem ele teria sido tudo muito mais difícil, comemorar a chegada pressupunha abrir um garrafa da cava. Assim foi. OApóstolo já deve estar acostumado a estes festejos pouco ortodoxos como tal julgo que não cometemos qualquer pecado que não tenha perdão.

Tentei cumprir as formalidades inerentes à chegada, nomeadamente abraçar o Apóstolo mas a fila era enorme. Nem consegui perceber onde terminava. Contentei-me com uns breves minutos de silêncio e reflexão sentado num dos bancos da Catedral de frente para o altar-mor. Findo esse tempo fui tratar da minha Compostela (o documento que atesta ter percorrido o Caminho dentro das regras que estão definidas, mediante a apresentação da credencial com os respectivos carimbos).

Mais uma fila mas desta vez, nem sei bem porquê, um voluntário dos serviços do Caminho de Santiago retirou-me da fila e mandou-me avançar para um balcão onde teria acesso à Compostela. Fiquei com a ideia que os ciclo-peregrinos gozam do benefício de prioridade na fila para a recolha do diploma. Não posso dizer que seja pela maior dificuldade de fazer o Caminho de bicicleta em relação a pé porque na verdade ficou-me essa dúvida. Vi tantos rostos de cansaço e agonia ao longo do Caminho que não sou capaz de afirmar qual a modalidade mais penosa. De bicicleta não sendo propriamente um passeio na medida em que obriga a alguma preparação física, também não se pode dizer que é extremamente exigente.


Já com a Compostela na mão senti o doce sabor da superação de um desafio. Afinal de contas é esse o nosso dia-a-dia: superar desafios. Normalmente não nos apercebemos mas a verdade é que viver é um desafio constante onde se superam obstáculos e se ultrapassam momentos difíceis sempre na expectativa de vivermos um momento de alegria que a superação de um objectivo nos possa trazer. Mas a este tenho de juntar a extraordinária colaboração da Sónia e do meu tio Fernando. Certamente chegaria na mesma a Santiago de Compostela mas a dificuldade tinha sido muito maior e a alegria não era partilhada. Por isso ainda bem que fomos juntos. 



As motivações de cada peregrino quando decide fazer o Caminho de Santiago são diversas e cada qual merece a sua condição de reserva. Mas julgo que não estarei errado se disser que tem pelo menos um ponto que é comum a todos. Vencer um obstáculo. Superar um desafio. Está na condição humana. As nossas vitórias são feitas com base nessas premissas. É isso que nos faz levantar todos os dias. E todos nós, mesmo inadvertidamente, temos objectivos na vida. Este era um que tinha guardado. Está feito. Tratarei de alcançar outros, porém com uma certeza: voltarei a Santiago de Compostela.

sábado, 12 de setembro de 2015

O meu Caminho de Santiago - Segunda etapa: Ourense - Lalín

Quando acordei na manhã do dia da segunda etapa a Caminho de Santiago estava com a sensação de ter sido atropelado por uma manada de touros nas ruas de Pamplona. Não passei bem a noite e percebi que o dia não ia ser fácil por falta de descanso.

Porque a etapa era mais curta que a anterior parti para o Caminho mais tarde. Eram quase 10 horas da manhã. Obviamente que a esta hora já devia estar com quilómetros nas pernas, até porque ao longo do dia cheguei à conclusão que apesar de mais curta que a anterior etapa, esta era claramente a mais exigente do ponto de vista físico e anímico. Foram 65 quilómetros bem mais duros que os 100 do dia anterior.

Para complicar um pouco mais a situação tomei um pequeno-almoço impróprio para quem vai pedalar. Poucos hidratos de carbono. Porquê? Porque não estava bem. Simplesmente. Coisas do organismo. Tem dias.

Fiz-me ao Caminho tendo como referência a monumental Ponte Vella de Ourense a qual permitiu-me atravessar o rio Minho. Seguramente por ela passaram muitos peregrinos ao longo dos séculos, numa ponte com muita história. Em seguida tinha uma pequena subida com um nome incentivador – Santiago – a qual serviu para começar a aquecer os músculos das pernas. O problema principal estava mesmo em encontrar uma posição para me sentar no selim. Aparentemente não existia sem que implicasse alguma dor. Com o tempo fui-me aconchegando e para aliviar, sprintava. A minha surpresa em relação às dores era grande. Trazia quilómetros suficientes para elas não surgirem com aquela intensidade. Os músculos das pernas estavam bem. As zonas de fricção estavam uma lástima. Se já não tinha dúvidas em relação ao assunto, naquele dia confirmei: a qualidade do equipamento é muito importante, principalmente os calções.


Cruzada a estrada N-525 tinha diante de mim o Caminho Real. Não li o suficiente sobre este “obstáculo” por isso comecei a fazê-lo devagar com prudência. Ainda bem. Tratava-se de uma parede com cinco quilómetros de extensão e com pendentes vaiáveis. Não quero exagerar mas algumas estão seguramente nos 20%. Fui subindo com sacrifício lembrando que Cristo também sofreu na subida ao Calvário. Era a única metáfora que me ocorria. Exagero da minha parte, é certo. Mas cada um carrega a sua cruz e a de Cristo foi a mais pesada de todas.

As pessoas que se cruzavam comigo iam dando os bons dias em galego. Um suplemento de força muito bem recebido. Exactamente como na Serra de Tavira onde toda a gente diz bom dia ou boa tarde a quem passa. Ali também é assim. Os peregrinos fazem parte do seu dia-a-dia durante todo o ano.

Foi no Caminho Real que encontrei os primeiros peregrinos a pé. E que peregrinos. Um grupo de mais de 20 jovens espanhóis que ao verem-me com um equipamentos preto, verde e branco começaram a gritar pelo Bétis. Estavam parados a descansar junto a Ermida de São Marcos, local onde se pode contemplar uma espectacular vista panorâmica sobre Ourense. Nesse local estava mais uma família de peregrinos com quem conversei por breves instantes.

Conforme tinha referido no relato da primeira etapa, no dia anterior não me cruzei com peregrinos. Um só que fosse. Não quer dizer que não os houvesse mas eu não os vi. Nesta etapa como na seguinte encontrei muitos. Não os contei mas seguramente foram mais de uma centena nesses dois dias, principalmente no último. Fiquei depois a perceber que os peregrinos que fazem o Caminho a pé, muitos deles escolhem como ponto de partida locais que estejam a 100 quilómetros de Santiago de Compostela para poderem cumprir o mínimo exigido. Ou seja, o mesmo raciocínio que eu fiz quando optei por Chaves, sendo certo que no meu caso tinha outras razões para iniciar da cidade flaviense. Essa família de um casal e dois filhos tinha acabado de começar o Caminho em Ourense e sobretudo os pais já não estavam com bom aspecto. Talvez tenham subestimado o desafio o qual queriam cumprir em seis dias. Oxalá tenham chegado bem à Plaza de Obradoiro.

Depois de descansar, fotografar e conviver fiz-me ao Caminho para completar o resto da subida que me faltava. Finalizado o Caminho Real entrei numa zona de características rurais sem grande histórias para contar até encontrar mais uma magnífica ponte medieval do século XIII, a qual permitia cruzar o rio Barbantiño. Desci da bicicleta para fotografar a ponte e como havia muito pouca água desci mesmo até ao leito do rio.

Nas imediações dessa ponte junto a um aglomerado de casas em ruína encontrei mais um grupo de peregrinos. Quatro raparigas que caminhavam em silêncio e que só deram pela minha presença já muito perto delas o que as assustou. Nesta etapa e na seguinte voltou a acontecer-me o mesmo. Os peregrinos que seguiam a pé não se apercebiam da minha presença e nalguns casos ocupavam toda a largura do caminho. Para os avisar que estava ali travava e pedia licença para passar. Em muitas ocasiões vi os seus rostos uma vez assustados outras vezes de espanto. Depois de muitas situações destas conclui que pese embora algumas excepções o sacrifício de uma jornada a pé desta dimensão, envolvida em momentos de reflexão, oração e muito cansaço, levam a que o peregrino se abstraia do que está à sua volta e só se aperceba que há mais alguém quando isso se trona absolutamente inevitável.

Mais à frente teria outra surpresa. O meu destino era Cea, terra de pão, de fornos comunitários e de padarias, mas antes de lá chegar tive de passar em Viduendo. No centro da pequena aldeia havia uma pequena igreja, igual a tantas outros de estilo românico, e ao seu lado um conjunto de imagens nas quais pontificava a Nossa Senhora de Fátima e os três pastorinhos. Foi mesmo um momento de agradável surpresa ainda mais quando a seu lado esvoaçava ao vento a bandeira de Portugal. Costuma-se dizer que é no estrangeiro que valorizamos mais os símbolos e as referências nacionais. Portugal é mesmo ali ao lado da Galiza, mas Viduendo é seguramente um lugar quase perdido no mapa e uma bandeira portuguesa ainda é uma bandeira portuguesa para quem gosta de ser português.

Chegado a Cea à sua Plaza Mayor sentei-me no primeiro banco que encontrei. Era o alívio das pernas e de outras partes do corpo que exigiam uns minutos de tranquilidade. Só que o meu organismo já vinha dando sinais de falta de “combustível” devido ao fraco desayuno uma vez que o jantar não constituiu reserva energética suficiente, antes sim um inimaginável repasto desfrutando os prazeres da carne bovina. Muita proteína mas poucos hidratos. O tão famoso chuletón.

A família que me acompanhava já estava alertada para o estado de sítio em que se encontrava o meu défice energético e por isso providenciou o que me fazia falta naquele momento: um bocadillo XXL de jamon e queso, que a Sónia preparou com aquele infinito carinho que lhe é próprio, uns bolos secos e fruta. Tendo em conta a espiritualidade do Caminho posso dizer que comi como um abade…

Refeito e com os bidons da bicicleta cheios com água e isotónico voltei à minha tarefa. Em Cea há a possibilidade de optar por um de dois traçados do Caminho. A divisão é feita junto ao estádio de futebol, numa zona alta daquele pueblo. Para a direita no sentido Norte os peregrinos seguem em direcção a Oseira onde se encontra um magnífico mosteiro do século XII, porém quase totalmente reconstruído no século XVIII. Para a esquerda vão na direcção de Piñor por um caminho igualmente oficial. Eu fui por Oseira. É o caminho mais longo, mais duro mas mais bonito e com a possibilidade de passar junto ao Mosteiro.

Até chegar a Oseira tive muitas vezes de ir a pé porque estava num troço muito antigo com predominância de enormes pedras onde era praticamente impossível pedalar mais de cinco a dez metros de cada vez. Entretanto as dores começaram a aumentar e o que tinha comido ainda não estava a fazer efeito no “motor”. Para complicar ainda mais um pouco eram perto das 13 horas e o calor fazia-se sentir. Cheguei a Oseira com sentimentos contraditórios. Por um lado a satisfação de ver a monumentalidade de um mosteiro cisterciense perdido no meio do nada mas já com algum cansaço, dores e a certeza que a dificuldade maior, superior à saída de Ourense, estava a chegar. Tinha feito apenas metade da etapa mas a dureza do Caminho estava bem presente.

Em Oseira a família já estava à minha espera. Ponderámos a hipótese de visitar o Mosteiro mas decidi não fazê-lo uma vez que perderia mais de uma hora. No albergue de peregrinos procurámos pelo responsável com o objectivo de obter o carimbo na credencial mas ele não estava naquele momento. Foi então que decidi prosseguir o meu Caminho. A família ficou com a credencial para confirmar a minha passagem pelo local e eu segui viagem. Antes de o fazer e porque estava já a entrar na fase da agonia pedi um comprimido. Era inevitável. Há coisas que só acontecem quando menos esperamos e as dores costumam ser uma delas. Tenho muitos quilómetros feitos nos últimos anos mas nunca tinha sentido tantas dores a pedalar como naquele dia. Parecia mesmo uma provação. O Apóstolo queria pôr-me à prova. E pôs.

Saí de Oseira em direcção a um monte que confrontava o Mosteiro a norte. Sabia que tinha uma subida dura pela frente, percebi logo isso nos primeiros 200 metros, o que não contava é que fosse um troço de escalada. É praticamente impossível pedalar naqueles dois quilómetros a subir com uma pendente média de 8%. O calor apertava e a bicicleta umas vezes era empurrada e noutras vinha literalmente às minhas costas. Imagino que para um peregrino a pé esta subida seja muito dura com uma mochila pesada. Garanto que o desconforto de carregar uma bicicleta é superior. Não foi mau. Foi muito mau.

A meio da subida quando não tinha ideia da posição em que me encontrava, eis que surge o asfalto. Durante dois segundos respirei de alívio. Sim, o Caminho continuava do outro lado da estrada com a mesma dureza no piso e pior inclinação. E assim foi até encontrar novamente uma estrada, essa sim a marcar o ponto final naquela subida terrível. Obviamente não estava sozinho com a bicicleta naquela subida. As dores fizeram questão de nos acompanhar e só um pouco mais tarde baixaram as armas e permitiram que pedalasse com um pouco mais de conforto.

O Mosteiro de Oseira ficou para trás mas a ele voltarei em breve para visitar e conhecer.

Uns metros mais à frente tinha um novo desafio. Depois de passar junto à povoação de Vilarello reparei que estava fora da rota. Achei estranho porque não tinha visto o marco do Caminho. Voltei atrás e onde o GPS indicava a mudança de direcção mas só via mato e vegetação espessa. Cheguei mais perto e lá estava o marco. Significava que ia entrar num single-track  completamente fechado pela vegetação. A designação até está generosa. Aquilo era mais um half single-track. Para complicar o aperto a vegetação era composta por ramificações espinhosas. Logo tinha de pedalar mais devagar possível para não ficar arranhado e ainda mais doído. Ou seja, estou a referir-me a meia dúzia de quilómetros a partir de Oseira os quais levei praticamente uma hora a percorrer, grande parte a pé. Aquilo já não era BTT. Era castigo.

Ultrapassados estes troços inqualificáveis segui o meu Caminho por uma zona tipicamente rural composta por pequenas hortas onde os habitantes produzem muito daquilo que consomem. Entretanto a água estava a terminar porque o calor era significativo, mas ao contrário do que acontece na Serra de Tavira onde não existe com frequência pontos de água, no interior da Galiza, pelo menos naquela zona, qualquer pequeno pueblo tem um fontanário de água potável e muito fresca. Foi como uma dádiva dos céus que achei uma dessas fontes, mais precisamente em Carbellediña. Refresquei-me, enchi os bidons e segui em frente em direcção a A Gouxa, Bidueiros e San Martiño onde iria reencontrar a estrada N-525 que me levaria até Dozon onde a família me esperava para reabastecer.

Estava já relativamente perto de Lalin onde iria pernoitar e por isso pedi à família que seguisse para aquela cidade. Eu iria cumprir o caminho pelo seu traçado conforme estava estabelecido. Entretanto verifiquei que me encontrava a uma altimetria bastante considerável, acima dos 800 metros. Significava que até ali o percurso tinha sido predominantemente de muita subida e pouca descida.

Dali em diante foram mais uns 20 quilómetros de sobe e desce até Lalin mas sem grandes dificuldades, comparadas com as que já tinha deixado para trás. A cidade de Lalin não fica propriamente no Caminho. É necessário desviar um pouco. Mas no planeamento prévio que fiz das etapas deu-me jeito. Ainda ponderei incluir mais 20 quilómetros até Silleda mas ainda bem que não o fiz. É que uma coisa são 20 quilómetros de asfalto a direito e outra são em BTT por caminhos rurais que não conhecemos. No dia seguinte percebi que tinha feito a melhor opção.

E assim cheguei a Lalín com a bicicleta muito suja de bosta de vaca que me obrigou a passar pela lavagem de uma estação de serviço. Não o referi anteriormente mas antes de Dozon faz-se uma dezena de quilómetros numa zona rural de forte produção pecuária em que os caminhos estão bem “contaminados” daquilo que o gado bovino inevitavelmente deixa por lá. Para quem faz o Caminho a pé, vejam com atenção onde os colocam, não vão ter uma desagradável surpresa.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O meu Caminho de Santiago - Primeira etapa: Chaves a Ourense

Passavam poucos minutos da 8:30 quando iniciei o meu Caminho. Na primeira etapa tinha previsto despachar metade da distância que me levaria até Santiago de Compostela. Por ser uma cidade grande e muito bonita mas também porque era essa a rota do GPS que tinha comigo, defini Ourense como primeira paragem para pernoitar.

Pela frente tinha essencialmente dois desafios de maior dificuldade. Um logo após a cidade de Verin e outro mais à frente depois de Allariz. Estava em causa seguir pelo Caminho Português Interior até Verin e depois “cruzar” com a Via da Prata cuja origem é Sevilha. Ainda na fase de planeamento cheguei a ponderar a hipótese de rumar a Laza, após passar em Verin. Porém tinha vontade de ir a Allariz e isso só seria praticável se seguisse por Xinzo de Limia. Em termos de dificuldade julgo que seria sensivelmente a mesma. Optei por seguir pelo caminho mais a sul.

À partida combinei com a família que me acompanhava encontrarmo-nos hora e meia depois em Verin para obter o carimbo no meu “passaporte” de peregrino. O percurso até Verin é todo a rolar sem qualquer dificuldade e dista 30 quilómetros desde Chaves. Por isso consegui chegar oito minutos mais cedo da hora prevista e ainda tive tempo para parar e tirar umas fotografias.

Em Verin na Oficina de Turismo recolhi o carimbo de passagem pelo local e continuei até Albarellos onde percebi que a rota que levava no GPS não estava em conformidade com as marcações do Caminho. Decidi optar pelas marcações e esquecer momentaneamente o GPS.

Aproveito para esclarecer que na minha opinião as marcações não são inequívocas e quando viajamos de bicicleta a atenção deve ser redobrada, uma vez que existem marcos tapados pela vegetação ou setas desenhadas em sítios que não estão muito visíveis. Tendo em conta que por vezes vamos com alguma velocidade é fácil perder uma indicação. Optei por olhar para o GPS sempre que encontrava um cruzamento ou uma bifurcação e algumas vezes que não o fiz tive de voltar atrás.


Depois de Albarellos encontrei a povoação de Infesta a qual não constava do meu GPS e aí começou a primeira dificuldade do dia. Tinha pela frente uma subida com 9 quilómetros de extensão e uma pendente média de 5%, a qual começou logo com uma espécie de parede em cotovelo com mais de 10% de inclinação. Sublinho que esta subida, metade dela é feita num piso de terra batida muito bom sem pedras soltas o qual me pareceu estar devidamente tratado para facilitar a ascensão.

A meio desta subida cruzei com a estrada N-525 e um pouco mais à frente voltei aos trilhos de terra até chegar à povoação de Rebordondo. Pelas minhas contas estava a meio da subida mas a pior parte estava para chegar. As inclinações começaram a ser superiores e para agravar a situação o piso era arenoso e com muita pedra solta. O coração começou a bater a grande ritmo e a certa altura optei por parar um pouco para baixar o ritmo e enfrentar o que faltava de subida, bem como para contemplar a paisagem que era fantástica. Já estava perto dos 840 metros de cota altimétrica onde terminava a subida e tinha o meu carro de apoio à espera. Retomei a subida nas calmas e pouco depois cheguei onde tinha de chegar.

Abastecido de água e depois de aumentar o nível da glicémia fiz-me ao caminho até Xinzo de Limia. Era tempo de descer um pouco para encontrar um vale com cerca de 23 quilómetros para rolar sem qualquer dificuldade. E assim foi.

Na parte da manhã tinha cumprido 65 quilómetros por isso mais de metade da etapa já estava feita. Os primeiros quilómetros tinham sido rápidos e a subida aos quase 900 metros de altitude tinha servido como primeiro obstáculo. Sentia-me bem.


Parei em Xinzo de Limia para comer e mais tarde em Allariz, cidade que recomendo uma visita pela beleza das suas ruas e do seu centro histórico. Porém antes de chegar a esta cidade tinha feito uma descida num trilho que percebi tratar-se de uma antiga estrada romana ou medieval ou as duas coisas, que foi simplesmente fantástica. Adrenalina no estado mais puro. Não dá para olhar para os lados. Se olhas, cais. Se cais, aleijas-te. Foi depois da povoação de San Salvador e recomendo a todos os que façam este troço do Caminho que disfrutem desta descida como eu desfrutei.

Depois de Allariz e a caminho de Turzás voltaria às dificuldades da etapa. Tinha pela frente uma subida a qual não teria grande problema se parte dela fosse ciclável. Tratava-se de mais um troço de estrada muito antiga e com pedregulhos enormes os quais impediam de pedalar. Não tive outro remédio se não saltar de bicicleta e levá-la pela mão ou às costas. 

Ultrapassada esta dificuldade foi sempre a descer até Pereiras e depois a A Castellana à entrada do Polígono Industrial que antecede Ourense, onde me esperava a família para dar apoio num local de descanso para peregrinos.

Daí até à Catedral de Ourense foi um pulo rápido e só não foi mais porque tratei de me perder nas ruas daquela cidade não só mas também devido ao muito trânsito automóvel que à imagem do português pouco respeita os ciclistas.

Passados uns minutos encontrei o caminho para a Catedral onde fui recolher o último carimbo do dia e reencontrar a família que me aguardava com uma caña fresquinha a servir de recovery. Infelizmente pelo cansaço que trazia e pela necessidade de ir para o hotel acabei por não ver com a devida atenção aquele monumento religioso. Noutra altura quero lá voltar porque se trata de uma catedral de enorme espectacularidade e beleza.

Estava assim cumprida a última etapa com o Strava a marcar 113 kms e o Polar 109. Este último na minha opinião é o mais fiável de modo que considerei as 6:45 horas a pedalar como o tempo efectivo. A viagem em si demorou mais tempo uma vez que parei para abastecer de água, comer, carimbar a credencial e claro fotografar.

Esta primeira etapa foi a mais extensa mas das três a mais fácil. Boa parte dela é feita em asfalto, acredito que tenham sido pelo menos uns 40%, e em termos de dificuldade só mesmo a subida após Verin faz algum estrago em betetista menos preparados, como eu. Tudo o resto é relativamente simples e acessível ainda que uma centena de quilómetros a pedalar em cima de uma bicicleta já seja uma distância respeitável.

Curiosamente nesta etapa não encontrei um único peregrino no Caminho, ao contrário do que ia acontecer nas duas etapas seguintes. Depois de falar com alguns percebi a razão.


Continua.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O meu Caminho de Santiago – Preparação e Motivação.

Há muitos anos que ouvia falar do Caminho de Santiago como sendo uma das mais bonitas rotas de peregrinação do mundo, conhecido também pela exigência dos seus vários percursos os quais saem das mais diversas proveniências.  Tendo o gosto pela prática do BTT e sabendo do desafio que constitui chegar à Plaza de Obradorio onde se encontra a Catedral que guarda as relíquias do Apóstolo Santiago (assim o dizem), planeei para estas férias partir de Chaves em direcção a Santiago de Compostela, perfazendo a distância mínima exigida em bicicleta: 200 quilómetros.

O meu “Caminho” não foi feito em autonomia total como muitos ciclo-peregrinos o fazem e como eu acho que deve ser feito, levando na bicicleta a mercadoria necessária para os dias de viagem e pernoitando nos albergues que existem disponíveis para o efeito. No entanto porque a minha vontade era sobretudo experimentar a sensação de percorrer o Caminho de Santiago e o tempo disponível para o efeito eram três dias, fui acompanhado da família (a Sónia e o meu tio Fernando) a qual tudo fez para que nada me faltasse, abastecendo-me de água e bebidas isotónicas, de comida (bocadillos, bolos secos e fruta), de comprimidos para as dores quando elas apareceram e sobretudo de ânimo uma vez que o percurso tem a sua dureza e percorrê-lo sozinho a pedalar implica capacidade para abstrair das dificuldades que ainda são algumas.

Uma vez que sou um utilizador da bicicleta de ocasião e não tenho uma preparação física cuidada e devidamente planeada em termos de treino, era óbvio que ia sentir algumas dificuldades físicas. Para um ciclista bem treinado, não é nada de especial percorrer 200 quilómetros em três dias com cerca de 4000 metros de acumulado de subida. Mas para mim as dificuldades estiveram muito presentes, não é vergonha admiti-lo, as quais foram sempre temperadas com a vontade enorme de chegar a Santiago de Compostela cumprindo o objectivo.

Este ano tenho feitos cerca de 2500 quilómetros de bicicleta o que para alguns parece muito mas são seguramente poucos para ciclistas mais exigentes. Digamos que foi essa a minha preparação ainda que com muito menos quilómetros seja possível fazer o Caminho de Santiago nas condições em que eu fiz. Aliás, dias depois conheci uma jovem que fez no ano passado o mesmo percurso e apenas se preparou dois meses antes. Como ia acompanhada de betetistas experientes sempre que se sentia cansada alguém a animou/empurrou para seguir em frente. É normal e faz todo o sentido que assim seja.

Foi assim que planeei toda a logística para no dia 17 de Agosto partir do Largo Luís de Camões em Chaves, mesmo em frente à Igreja Matriz, local de grande significado para os muitos peregrinos que ao longo de séculos percorreram o Caminho Português Interior, onde está colocado o marco de sinalização com a distância para Santiago de Compostela: 209 quilómetros.

E assim fiz-me à estrada, neste caso ao Caminho, por volta das 8:30 da manhã.

Podia entrar em grandes pormenores de ordem técnica, física, psicológica ou espiritual para dourar as dificuldades do desafio a que me propus mas a verdade é que isso não faz sentido nem corresponderia à realidade. Quem quer fazer o Caminho de Santiago nas condições em que fiz, sem ser em autonomia total, só tem de ter em conta meia dúzia de coisas, que são: 1)dispor de uma bicicleta de montanha robusta e fiável sem ser necessário uma muito pro-racing ( a minha esteve à altura dos acontecimentos e só o desviador da frente deu os seus habituais problemas); 2) estar habituado minimamente a andar neste tipo de bicicleta tendo em conta que vai encontrar trilhos muito técnicos; 3) estar bem fisicamente e sobretudo preparado para levar a bicicleta às costas uma vez que existem troços não cicláveis, bem como enfrentar subidas longas e algumas delas com mais de 10% de inclinação; 4) dispor de família ou amigos que queiram participar e ajudar neste desafio dando apoio ao longo do Caminho. Se for sozinho é mais difícil mas também muito mais aliciante e corajoso; 5) planear os locais onde vai pernoitar uma vez que por não seguir em autonomia total não pode nem deve optar pelos albergues de peregrinos; 6) ter uma motivação forte e concreta seja ela qual for. Cada um tem a sua a qual pode ser mais espiritual ou apenas desportiva e de lazer.

Porém há algo que é fundamental. Seja qual for a motivação de cada um, o Caminho de Santiago é para ser percorrido tendo bem presente três valores de vida fundamentais: respeito, dignidade e solidariedade. Respeito porque se trata de uma rota de características religiosas e quem não se guia por essas convicções deve respeitar quem as tem. Dignidade porque é assim que devemos estar em tudo o que fazemos na vida, seja fácil ou difícil. E solidariedade porque no Caminho nunca se está sozinho. Se alguém precisa de ajuda, devemos dá-la sem olhar a quem pede.


Continua…