sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O meu Caminho de Santiago - Primeira etapa: Chaves a Ourense

Passavam poucos minutos da 8:30 quando iniciei o meu Caminho. Na primeira etapa tinha previsto despachar metade da distância que me levaria até Santiago de Compostela. Por ser uma cidade grande e muito bonita mas também porque era essa a rota do GPS que tinha comigo, defini Ourense como primeira paragem para pernoitar.

Pela frente tinha essencialmente dois desafios de maior dificuldade. Um logo após a cidade de Verin e outro mais à frente depois de Allariz. Estava em causa seguir pelo Caminho Português Interior até Verin e depois “cruzar” com a Via da Prata cuja origem é Sevilha. Ainda na fase de planeamento cheguei a ponderar a hipótese de rumar a Laza, após passar em Verin. Porém tinha vontade de ir a Allariz e isso só seria praticável se seguisse por Xinzo de Limia. Em termos de dificuldade julgo que seria sensivelmente a mesma. Optei por seguir pelo caminho mais a sul.

À partida combinei com a família que me acompanhava encontrarmo-nos hora e meia depois em Verin para obter o carimbo no meu “passaporte” de peregrino. O percurso até Verin é todo a rolar sem qualquer dificuldade e dista 30 quilómetros desde Chaves. Por isso consegui chegar oito minutos mais cedo da hora prevista e ainda tive tempo para parar e tirar umas fotografias.

Em Verin na Oficina de Turismo recolhi o carimbo de passagem pelo local e continuei até Albarellos onde percebi que a rota que levava no GPS não estava em conformidade com as marcações do Caminho. Decidi optar pelas marcações e esquecer momentaneamente o GPS.

Aproveito para esclarecer que na minha opinião as marcações não são inequívocas e quando viajamos de bicicleta a atenção deve ser redobrada, uma vez que existem marcos tapados pela vegetação ou setas desenhadas em sítios que não estão muito visíveis. Tendo em conta que por vezes vamos com alguma velocidade é fácil perder uma indicação. Optei por olhar para o GPS sempre que encontrava um cruzamento ou uma bifurcação e algumas vezes que não o fiz tive de voltar atrás.


Depois de Albarellos encontrei a povoação de Infesta a qual não constava do meu GPS e aí começou a primeira dificuldade do dia. Tinha pela frente uma subida com 9 quilómetros de extensão e uma pendente média de 5%, a qual começou logo com uma espécie de parede em cotovelo com mais de 10% de inclinação. Sublinho que esta subida, metade dela é feita num piso de terra batida muito bom sem pedras soltas o qual me pareceu estar devidamente tratado para facilitar a ascensão.

A meio desta subida cruzei com a estrada N-525 e um pouco mais à frente voltei aos trilhos de terra até chegar à povoação de Rebordondo. Pelas minhas contas estava a meio da subida mas a pior parte estava para chegar. As inclinações começaram a ser superiores e para agravar a situação o piso era arenoso e com muita pedra solta. O coração começou a bater a grande ritmo e a certa altura optei por parar um pouco para baixar o ritmo e enfrentar o que faltava de subida, bem como para contemplar a paisagem que era fantástica. Já estava perto dos 840 metros de cota altimétrica onde terminava a subida e tinha o meu carro de apoio à espera. Retomei a subida nas calmas e pouco depois cheguei onde tinha de chegar.

Abastecido de água e depois de aumentar o nível da glicémia fiz-me ao caminho até Xinzo de Limia. Era tempo de descer um pouco para encontrar um vale com cerca de 23 quilómetros para rolar sem qualquer dificuldade. E assim foi.

Na parte da manhã tinha cumprido 65 quilómetros por isso mais de metade da etapa já estava feita. Os primeiros quilómetros tinham sido rápidos e a subida aos quase 900 metros de altitude tinha servido como primeiro obstáculo. Sentia-me bem.


Parei em Xinzo de Limia para comer e mais tarde em Allariz, cidade que recomendo uma visita pela beleza das suas ruas e do seu centro histórico. Porém antes de chegar a esta cidade tinha feito uma descida num trilho que percebi tratar-se de uma antiga estrada romana ou medieval ou as duas coisas, que foi simplesmente fantástica. Adrenalina no estado mais puro. Não dá para olhar para os lados. Se olhas, cais. Se cais, aleijas-te. Foi depois da povoação de San Salvador e recomendo a todos os que façam este troço do Caminho que disfrutem desta descida como eu desfrutei.

Depois de Allariz e a caminho de Turzás voltaria às dificuldades da etapa. Tinha pela frente uma subida a qual não teria grande problema se parte dela fosse ciclável. Tratava-se de mais um troço de estrada muito antiga e com pedregulhos enormes os quais impediam de pedalar. Não tive outro remédio se não saltar de bicicleta e levá-la pela mão ou às costas. 

Ultrapassada esta dificuldade foi sempre a descer até Pereiras e depois a A Castellana à entrada do Polígono Industrial que antecede Ourense, onde me esperava a família para dar apoio num local de descanso para peregrinos.

Daí até à Catedral de Ourense foi um pulo rápido e só não foi mais porque tratei de me perder nas ruas daquela cidade não só mas também devido ao muito trânsito automóvel que à imagem do português pouco respeita os ciclistas.

Passados uns minutos encontrei o caminho para a Catedral onde fui recolher o último carimbo do dia e reencontrar a família que me aguardava com uma caña fresquinha a servir de recovery. Infelizmente pelo cansaço que trazia e pela necessidade de ir para o hotel acabei por não ver com a devida atenção aquele monumento religioso. Noutra altura quero lá voltar porque se trata de uma catedral de enorme espectacularidade e beleza.

Estava assim cumprida a última etapa com o Strava a marcar 113 kms e o Polar 109. Este último na minha opinião é o mais fiável de modo que considerei as 6:45 horas a pedalar como o tempo efectivo. A viagem em si demorou mais tempo uma vez que parei para abastecer de água, comer, carimbar a credencial e claro fotografar.

Esta primeira etapa foi a mais extensa mas das três a mais fácil. Boa parte dela é feita em asfalto, acredito que tenham sido pelo menos uns 40%, e em termos de dificuldade só mesmo a subida após Verin faz algum estrago em betetista menos preparados, como eu. Tudo o resto é relativamente simples e acessível ainda que uma centena de quilómetros a pedalar em cima de uma bicicleta já seja uma distância respeitável.

Curiosamente nesta etapa não encontrei um único peregrino no Caminho, ao contrário do que ia acontecer nas duas etapas seguintes. Depois de falar com alguns percebi a razão.


Continua.

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