terça-feira, 28 de junho de 2011

Seguro contra nenhum risco

O assunto não me diz respeito mas eu dou a minha opinião na mesma a qual é na base da suposição e do gozo.

Se eu fosse do PS gostava que Francisco Assis ganhasse as eleições para secretário-geral. Como não sou, quero que ganhe António José Seguro.

Em todo o caso, e para que fique bem claro, qualquer um dos dois tem hipóteses de chegar a primeiro-ministro se chegar a líder do PS, independentemente das qualidades próprias. Basta para isso que Pedro Passos Coelho e o seu governo desatem a fazer disparates. Já tenho provas suficientes para concluir que em política o Poder não se conquista: perde-se.

Centrando na questão do próximo secretário-geral, a minha opinião é que Assis é mais qualificado, mais político, mais perspicaz, mais sensato e quando fala percebe-se que há um fio condutor, um raciocínio e sobretudo ideias. No entanto não domina o aparelho, bem pelo contrário. É talvez até um exemplo da lógica antagónica do funcionamento aparelhístico do PS que durante muito tempo conviveu num silêncio ensurdecedor com as diatribes de Fátima Felgueiras, que Assis enfrentou e na pele sofreu o atrevimento do acto. Este é talvez o melhor exemplo.

Seguro em matéria de ideias e de pensamento político é mais árido que o deserto do Saara. No entanto é mais próximo dos militantes e dos, muitos, caciques socialistas. Fez a escola da jota, saltou para o partido, andou pelo governo, abancou no parlamento e nos últimos tempos conspirou pacientemente contra o agora politicamente defunto José Sócrates. Mais do que isso, surfou a onda da derrota socrática com um exercício de acrobacia dentro de um elevador do Altis, onde subiu solidário para dar um abraço ao derrotado e desceu para se apresentar aos holofotes da ribalta, qual abutre a devorar a presa que jaz morta e apodrece. Oportuno ou oportunista, caberá a cada militante do PS decidir. Mas não terá sido por acaso que António Costa disse não o conhecer, sabendo quem é de ginjeira. Deixa-se à imaginação de cada um o sentido da frase.

Julgo no entanto que, independentemente da escolha, e desconfio que a mesma acostará em porto Seguro, dos próximos quatro anos de mingua na oposição ninguém os livra. Passos Coelho não é Santana Lopes que arranjou mil maneiras de ser posto fora do barco, se bem que quem veio a seguir – Sócrates – fez dele um menino de coro, nem é Durão Barroso que na primeira dificuldade fugiu para o el dorado europeu. O actual primeiro-ministro é feito de outra fibra. Tem outra determinação e outra palavra. É homem para aguentar a tormenta, sem deixar o leme, com aquela calma olímpica que lhe é reconhecida. Pelo menos é esta a ideia que tenho dele nos dias que correm.

Sendo assim ao PS resta-lhe esperar e para o efeito tanto faz que seja Assis ou Seguro. O estilo porventura não será igual. Segundo consta há mesmo uma relação de amizade entre Passos e Seguro que pode nalgum momento de maior dificuldade pesar para o lado do entendimento. Mas disso não estou 100% certo. Tudo dependerá da forma como as coisas estiverem quando o verniz estalar. Porque uma coisa é certa, com troika ou sem ela, com mais ou menos cooperação institucional ou magistratura activa de Belém, os próximos quatro anos são muito duros para Portugal e para os portugueses. A rua, a determinada altura, vai endurecer o tom da conversa e não será de estranhar novos movimentos de contestação daqueles que desesperados ou apenas interessados em agitar, se manifestarão ruidosamente.

Seguro ou Assis lá estarão no meio da rua a aproveitar as labaredas dos sound-bytes e da insatisfação como se o estado a que Portugal chegou não tivesse, nomeadamente, o dedinho dos dois. Dedinhos? Mãos completas, braços e antebraços.

Os dois apoiaram de modo mais ou menos eloquente as políticas socráticas que conduziram o país à beira do abismo. Seguro pode até dizer que chamou a atenção para alguns aspectos. Puro oportunismo de circunstância. Ele nunca teve preocupações de Estado nem de outra natureza que não fosse o seu posicionamento para o pós-Sócrates. Só quem ainda não perdeu a virgindade da política pura e dura acredita na benevolência e nos bons propósitos de Seguro.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

No melhor pano cai a nódoa

Tinha e ainda tenho, boa opinião da ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. Achava mesmo que ela dificilmente ficaria muito tempo no cargo porque o desempenho que tinha de frontalidade e coragem, colidia com a política do governo de Sócrates que era no final do primeiro mandato, mais de propaganda do que acção. Era uma ministra que não tinha como critério cuidar da sua imagem pública em detrimento da acção governativa, nomeadamente na forma como enfrentou os múltiplos e variados interesses corporativos dos professores. Vê-la agora a ser acusada pelo Ministério Público pelo crime de prevaricação - recorde-se que estar acusada não significa ser culpada – é algo que me surpreende.
Não sendo necessário fazer mais comentários sobre o assunto, aguarda-se que seja julgada e que a verdade apurada. Se for mesmo culpada que pague por isso. A um político o grau de exigência pelo cumprimento da lei é um factor de decisivo na avaliação do seu desempenho. Há que dar o exemplo aos outros, caso contrário é o pântano.
Quem passa por cargos públicos pode não conseguir cumprir com tudo o que se propôs, até porque no decorrer das suas funções, as circunstâncias e as variáveis podem alterar-se substancialmente. Mas tem a obrigação, pelo menos, de sair de mãos limpas e com a mesma honestidade, quem a tem, com que tomou posse.
Em relação ao que esteve em causa no alegado crime, é já uma situação habitual e que rapidamente alvo de atenções redobradas. O Estado seja central ou local, tem no seu seio um conjunto de pessoas que podem desenvolver trabalhos que normalmente são adjudicados fora. O caso mais gritante é os pareceres jurídicos. Não há nenhum ministério, instituto, direcção-geral ou regional, bem como autarquia, que não tenha nos seus quadros um grupo de juristas. No entanto, todos os anos são contabilizados valores astronómicos gastos em pareceres a escritórios de advogados, uns mais bem pagos que outros. Não se percebe a lógica.
Com a consultadoria técnica específica passa-se a mesma coisa. Se faz falta um estudo qualquer que muitas vezes pode ser desenvolvido por técnicos superiores ao serviço do Estado, aproveita-se para contratar uma equipa de consultores que em muitos casos produzem documentos que não servem para nada. Não é estranho que essas empresas de consultadoria pertençam a pessoas próximas ou mesmo do círculo de amizades do titular do cargo público que adjudica a prestação de serviço. E quem diz estes casos, não tem dúvidas que existem muitos mais. No fim são entregues relatórios cheios de banalidades escritos por pessoas que sabem toda a teoria que vem escrita nos livros mas muitas vezes não têm um sentido prático da vida e das soluções dos problemas.
Não fazendo tábua rasa sobre o assunto, haverá com certeza situações que justificam o apoio externo, mas nem sempre é assim.
A contratação exterior por parte do Estado é um oceano de oportunidades nebulosas para se beneficiar financeiramente um amigo, um familiar ou mesmo o próprio partido. Por isso não é estranho à opinião pública o surgimento de casos que não ficaram no segredo dos gabinetes e foram descobertos pelas entidades competentes, tendo transitado para as barras dos tribunais, o que não significa necessariamente que seja feita Justiça.
É preciso muito cuidado com este lamaçal em que se pode tornar a contratação pública de serviços que são nalguns casos redundâncias, duplicações e noutros simples favores.
Já tem uns aninhos a famosa e famigerada Fundação para a Prevenção Rodoviária do então governante socialista Armando Vara e outros amigos próximos, que independentemente da forma como terminou, deixou um rasto de suspeitas ao ponto de ter sido prontamente extinta. No melhor pano cai a nódoa. E o detergente nem sempre é eficaz.

sábado, 18 de junho de 2011

Ò Barbosa, vai dar banho ao cão

Este sábado em Lisboa está a decorrer um evento que, goste-se ou não, é interessante e até pedagógico. Um mega pic-nic tem a importância que tem. Ouvir o Tony Carreira, para quem gosta, também está muito bem. Mas transformar a Avenida da Liberdade numa enorme quinta com produtos agro-pecuários nacionais, nos dias que correm em que mal sabemos o que comemos, é matéria que merece registo e apreço.
A iniciativa não é inédita e já tem sido feita noutros pontos da Europa. Recordo-me bem de ver fotografias dos Campos Elísios transformados em plantações de alfaces, tomates, couves e pepinos dos bons.
Como é óbvio para montar um evento desta envergadura é preciso causar constrangimentos no trânsito e no dia a dia das pessoas que vivem ou trabalham na Avenida da Liberdade. Nem podia ser de outra forma. E é aqui que eu gostava de me centrar.
Acho que foi ontem que vi o presidente da Câmara de Lisboa a ter de responder com uma calma olímpica bestial, ao comentário idiota do presidente do Automóvel Clube de Portugal, um tal de Barbosa, que estava indignado devido às dificuldades que estavam colocados naquela zona da cidade ao tráfego dos carros. É preciso ter lata, a mesma com que são fabricadas as viaturas que todos os dias invadem os centros das cidades e ocupam espaços que são devidos aos cidadãos.
O tal Barbosa deve gostar de tomates nacionais bem como de pepinos, mas prefere que os mesmos sejam promovidos noutra zona da cidade ou quiçá do país. Talvez fosse bom fazê-lo na planície alentejana, onde não passam viaturas a não ser os todo-o-terreno dos amigos do Barbosa quando andam a espatifar caminhos agrícolas, muitas vezes apoiados nessa missão com dinheiros públicos. Os mesmos dinheiros públicos que são dados em subsídios a organizadores de corridas de automóveis que ninguém vai ver.
Trazer o campo à cidade, organizar um dia diferente a quem vive permanentemente a respirar gases poluentes da combustão do gasóleo e da gasolina, é mau. O que é bom é andar com o rabo tremido numa viatura automóvel, a fazer poluição e barulho no centro da cidade. Porquê? Porque as pessoas precisam dos carros no seu dia-a-dia, e isso ninguém contesta, não podendo ser estorvadas ou impedidas de circular duas ou três vezes durante o ano. Se fosse para garantir uma prova de desporto automóvel na Avenida da Liberdade, conforme já aconteceu, estava tudo bem. Mas couves e galinhas…
Felizmente o presidente da Câmara de Lisboa é exponencialmente mais visionário e sensato que o Barbosa e decidiu que hoje a Avenida da Liberdade seria só para as pessoas, as verduras e a pecuária nacional. Bem haja por isso.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Dirigentes pequenos num clube grande

Nos meus quase 40 anos de benfiquista – já nasci com este privilégio imenso – e a partir do momento em que ganhei consciência própria para interpretar o que está à minha volta, habituei-me a ver o meu clube a ser grato aos que melhor o serviram. Podendo haver um caso ou outro que não correu bem, a verdade é que as principais glórias do Benfica sempre foram reconhecidas por isso no momento em que a idade e as circunstâncias os impediram de prestações adequadas às exigências da equipa profissional de futebol.
Ao ver hoje como estão a tratar Nuno Gomes, que foi só um dos jogadores que mais golos marcou com a camisola do clube, fico com a ideia que por aqueles lados a lógica mercenária é cada vez mais um padrão de gestão técnica do plantel. Na dispensa deste jogador há claramente uma mão: a de Jorge Jesus. Mas há também uma ausência ou uma falta de comparência naquilo que é a defesa do brio e sobretudo do dever de gratidão do clube e aqui cabe a direcção e o seu presidente.
A não renovação do contrato do jogador Nuno Gomes por mais um ano, permitindo-lhe fazer uma última temporada e despedir-se com dignidade dos sócios e adeptos, é uma facada nas costas da grande nação benfiquista. Ao contrário do que alguns podem fazer crer, nem se tratava de um acto de caridade. Essa andou o Benfica a fazer estes anos todos com o Pedro Mantorras, infelizmente, uma vez que se perdeu também um grande jogador cheio de potencial. Nuno Gomes passou a temporada toda sentado no banco de suplentes e das poucas vezes que foi chamado ao serviço, cumpriu com dignidade e competência. O capitão do Benfica, que recentemente teve o infortúnio de perder o pai, foi sempre de uma entrega irrepreensível, tendo no fim da temporada sofrido uma lesão com gravidade o que o obrigou a uma intervenção cirúrgica. Ainda assim não baixou os braços e desejava continuar a servir o clube.
Se olharmos para as opções de Jorge Jesus este ano que passou, sempre que Cardozo não podia jogar ou por opção era poupado, Jorge Jesus insistia em colocar um tipo brasileiro com o nome do percursor da doutrina espírita: Alain Kardec. Pois nem todos os espíritos do além serviram para inspirar este jogador que no Portimonense ou na Naval 1º de Maio era capaz de ter alguma utilidade, mas num clube que defendia o título de campeão da Super Liga, disputou a Champions e depois a Liga Europa, não tinha qualquer enquadramento. O resultado é aquele que se sabe.
Mas um dia os responsáveis do Sport Lisboa e Benfica vão perceber o erro que agora estão a cometer, porque são benfiquistas e o serão a vida toda. Já o actual treinador, talvez seja possível um dia o ver fazer troça deste episódio, rodeado de elementos da Juventude Leonina. O tempo o dirá.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Os boys do Portugalex

Hoje o Portugalex, a rubrica humorística que há cinco anos faz rir os ouvintes matinais da Antena 1, brincava com os “boys” do PS que vão ficar desempregados em breve. Na rábula era feita a descrição de uma fila deles à porta do Banco Alimentar Contra a Fome e nem faltou a sua líder, a brincar naturalmente, Isabel Jonet a informar que em breve iam fazer uma campanha apenas dedicada aos socialistas despedidos, onde só eram admitidos produtos gourmet.
Isto não passa de uma brincadeira para caricaturar todos aqueles que vivem à custa do sistema e que para além dele não possuem uma profissão e em muitos casos nem um saber fazer. Toda a vida foram qualquer coisa através do partido e nunca tiveram uma profissão fora da política. No dia em que a coisa corre mal, ficam desamparados.
Por isso considero que uma das condições para exercer-se a actividade política é ter uma profissão fora dela. Dá uma independência e uma autonomia maior à pessoa e não a obriga a violar a consciência, as que a têm, para lá do aceitável. Sim, porque o exercício da actividade política pressupõe, várias vezes, escolher entre a coerência ou a disciplina. Quem diz o contrário está a mentir. E no melhor pano têm caído nódoas. Exemplos não faltam.
Em Portugal é assim e no resto da Europa não é diferente. Á volta dos partidos há os profissionais da política que tanto se encaixam em cargos de assessoria ou similares nas Pescas, como no Ambiente, nas Obras Públicas ou na Justiça. Umas vezes são “especialistas” em Turismo e noutras em Segurança Social. Se for necessário fazem uma perninha no Emprego e no ano seguinte na Administração Interna. Saltam de um organismo do Estado para o outro sem qualquer ligação ou semelhança. Não há um fio condutor. O único factor de escolha é serem do partido e a conveniência dos próprios.
Para estes quando chega a hora da mudança, é uma tragédia. Por isso agarram-se que nem lapas aos lugares e só saem quando os mandam embora. Não têm a dignidade de sair no dia seguinte à mudança, colocando o lugar à disposição. Ficam à espera até ao último segundo pela mais do que óbvia vassourada.
Por isso ter uma profissão, seja qual for a remuneração ou reconhecimento social, é um descanso. Mudar não custa. O que custa é não ter para onde mudar.
Ser um profissional honesto, competente e respeitado devia ser condição sine qua non para alguém um dia poder exercer um cargo público. E tão honesto, competente e respeitado é um varredor de ruas como um engenheiro que projecta pontes ou um médico que salva vidas. Qualquer um deles tem o direito de um dia exercer a actividade política. E quando tiverem de mudar, terão sempre um ponto de chegada.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Mapa autárquico algarvio para enfrentar a crise

Um dos assuntos falados quando troika esteve a analisar a situação catastrófica a que Portugal chegou, foi a redução do número de autarquias, ou seja as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia. No caso concreto do Algarve temos hoje 16 municípios e 82 freguesias. Em relação às Juntas de Freguesia a sua agregação depende do modo como os municípios possam ficar configurados. Sendo assim só depois de se definir o novo mapa é possível fazer a organização das novas freguesias.
Não sendo um assunto pacífico, é aliás uma espécie de barril de pólvora que dificilmente não explodirá se houver mesmo vontade de alterar a actual divisão administrativa de Portugal, jogo para cima da mesa a minha sugestão para a região do Algarve:

Municípios que ficam como estão:

- Loulé
- Silves
- Tavira
- Albufeira

Municípios a agregar:

- Lagos com Vila do Bispo e Aljezur – sede do concelho, Lagos
- Portimão com Lagoa e Monchique – sede do concelho, Portimão
- Faro com Olhão e São Brás de Alportel – sede do concelho Faro
- Vila Real de Santo António com Castro Marim e Alcoutim – sede do concelho Vila Real de Santo António

A ideia é passar de 16 municípios para 8. Metade.
Com este novo mapa é possível que em Olhão apareça um grupo de Resistência disposto a fazer uma guerra civil. Mas isto é apenas uma base de debate. Haverá outras, naturalmente. Esta é a minha.
Voltarei ao tema.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Acabe-se de vez com os Governos Civis

Santana Lopes parece ter querido passar como ideia sua a extinção dos Governos Civis. Não a é. E quando foi primeiro-ministro julgo que não fez nada nesse sentido, certamente por falta de tempo e porque passava os dias a levar pontapés na incubadora.
Mas em todo o caso o importante é juntar mais uma voz a esta causa de extinguir em definitivo este gasto inútil do Estado.
O que vou escrever a seguir é em abstracto mas conheci no passado situações concretas que são demonstrativas daquilo que são os Governos Civis actualmente.
Não vale a pena rodeios e meias palavras. Os Governos Civis são sedes partidárias pagas com dinheiros do Estado. Não há outra forma de o dizer. O titular do cargo é na esmagadora maioria das vezes um destacado militante e dirigente do partido que está no governo. Nalguns casos até costuma ser o líder distrital do partido.
Nos Governos Civis há actualmente muito pouco para fazer. Recebe-se correspondência e algumas pessoas que se vão queixar do azar de não acertarem nos números do Euromilhões, das voltas que o mundo dá ou da vida que parece não andar para a frente. Pelo meio pedem uma cunha ou um emprego para os próprios ou para alguém da família. Para além destas funções, os Governadores Civis e os seus Chefes de Gabinete e Adjuntos, participam em cerimónias para as quais são convidados frequentemente. Vão lá representar o Governo, supostamente. Como se o Governo tivesse que estar representado em cada almoço de aniversário do clube de caçadores ou no aniversário do clube de futsal do bairro xpto.
Depois, a pretexto da interpretação de umas competências que alegadamente a legislação lhes confere, mandam uns bitaites nas questões da prevenção rodoviária, na protecção civil e no funcionamento das autarquias. E aqui neste último capítulo já vi um pouco de tudo. Desde cidadãos fantasmas a queixaram-se de uma autarquia até a pressões variadas juntos de titulares de cargos dirigentes na administração pública desconcentrada para arranjarem encrencas a uma autarquia que não é da cor política do governador ou da governadora, há uma lista longa e variada de trapalhadas feitas a pretexto de conveniências partidárias e isto tudo pago com o dinheiro dos contribuintes.
Depois quando há eleições nos partidos e o pessoal político dos Governos Civis estão envolvidos, é dos telefones, dos faxes e dos computadores do Estado que partem ou chegam informações, pressões, tácticas para o sindicato de voto, ameaças e promessas para os militantes. Atenção que não estou a afirmar que isto seja exclusivo de apenas um partido. Antes fosse. Nesta matéria há santos e pecadores por todo o lado.
Ou seja, a fronteira entre os Governos Civis e as sedes dos partidos é muito ténue.
No passado já houve promessas no sentido da extinção dos Governos Civis, sobretudo do lado do PSD que parece ter menos afectividade à sua permanência. O PS tem até defendido o contrário, neste caso a sua manutenção. No entanto pouco ou nada se fez até agora para acabar de vez com o assunto. Sendo matéria constitucional, presumo que obriga a uma alteração da Lei Fundamental. Que se faça.
Seja como for, o importante é que haja vontade política e determinação. Desta vez tanto PSD como PS defenderam nos seus programas a extinção de vários órgãos do Estado, tendo o primeiro referido em concreto os Governos Civis. Como tal, nem há divergências por sanar. Acabe-se e pronto.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Bloco no fundo

O Bloco de Esquerda é um fenómeno político com os dias contados, se não tomar algumas previdências. Nasceu da génese de três partidos, nunca querendo afirmar-se como o resultado do somatório dos três. Tem um líder que não se identifica como tal preferindo o termo pomposo de coordenador. Desde o seu aparecimento, o Bloco teve sempre os mesmos rostos: Francisco Louçã, Luis Fazenda e Miguel Portas. Porque são todos feios, compuseram o ramalhete com a Ana Drago que é mais engraçadinha. De resto não se lhes conhece mais ninguém que possa ser identificado como rosto do Bloco.
O seu principal coordenador, Louçã, é o estereótipo do político demagogo até à raiz dos cabelos. Usa o verbo fácil, a expressão colérica e o aproveitamento excessivo do protesto e do contra poder para passar a sua mensagem. Às vezes quando o ouço fico com a ideia que quer bater nas pessoas, tal é a agressividade com que fala. Louçã gosta de fazer esse teatro em que quem não está com ele está contra ele. A forma como carrega na letra r para enfatizar as palavras que a contêm, revela-o mais como uma destilaria de ódio do que propriamente um político sensato a falar.
Depois tem coisas que são de uma incongruência muito grande. Afirma-se como não sendo igual aos outros políticos mas tem todos os tiques, para pior. No domingo à noite, depois de ter sido cabalmente derrotado por sua única responsabilidade, não fez aquilo que os políticos responsáveis costumam fazer quando perdem metade dos votos em relação à eleição anterior: demitir-se. Lembram-se das rábulas que fez sobre os políticos manhosos? Pois é, pergunta o roto ao nú porque não te vestes tu.
Neste capítulo, Sócrates teve muito mais dignidade e interpretou com clareza os sinais que vinham das urnas de voto. O seu tempo, por agora, tinha chegado ao fim. O de Louçã também, mas ele ainda não percebeu.
Na realidade o coordenador do Bloco está agarrado ao poder, que é um dos defeitos que normalmente aponta aos outros. Lembre-se o que disse tantas e tantas vezes de Sócrates ou mesmo de Santana Lopes, dois líderes que perante o cenário de derrotas afastaram-se pelos próprios meios, e chegará a boas conclusões. Louçã merece que os seus camaradas lhe dêem um pontapé no traseiro, mandando-o pregar para outra freguesia.
Em relação às causas do resultado do Bloco, o mesmo só surpreende quem anda distraído. O apoio a Alegre nas presidenciais foi o começo das trapalhadas dos bloquistas. Ninguém entendia, porque era anedótico, que os deputados e dirigentes do Bloco andassem de mãos dadas com o PS numa altura em que os sinais da crise política que se adivinhava já eram bastante visíveis. O Bloco criticava o PS e o Governo durante o dia, mas à noite partilhava a assistência e o palco dos comícios de Alegre. Mais do que isso, o Bloco foi a primeira força política a apoiar publicamente o candidato derrotado nas presidenciais, até como forma de forçar o PS a tomar uma decisão. Estratégia errada e nefasta. Ainda bem que o fizeram.
Depois protagonizaram aquele número estranho que foi apresentar uma moção de censura ao Governo, pedindo ao PSD e ao CDS que não votassem a favor. Ou seja apresentava a moção mas não queriam a sua aprovação. O Batatoon não faria melhor.
Por fim o Bloco decidiu, tal como o PCP, colocar-se à margem da solução de financiamento externo, não reunindo com os elementos da troika. Ou seja, preferiu cavalgar a onda do problema que estava criado em Portugal pelo PS e pelo Governo, julgando que retiraria benefício político da questão. Só que a questão era e é mesmo grave e os portugueses perceberam que no gesto dos bloquistas não havia sentido de responsabilidade, mas sim uma certa vocação pela política da terra queimada e do quanto pior melhor. Em tempos de emergência, estas coisas não se perdoam.
E agora? Agora que vão ao fundo com roupa e tudo e paguem pela incoerência do seu líder. Que tentem assemelhar-se ao funcionamento democrático dos outros partidos onde há militantes, eleições livres e diversas candidaturas. Que deixem de ser o partido das causas fracturantes e dos assuntos que só servem para acrescentar páginas aos jornais e passem a olhar com outros olhos para os problemas das pessoas. Que em vez de andarem aos gritos contra quem cria riqueza e postos de trabalho em Portugal, percebam que o mundo mudou e não é mais uma cooperativa de produção colectiva. Que de vez em quando estejam do lado da solução em vez de permanecerem teimosamente e sempre do lado do problema. E já agora, mandem o coordenador embora e arranjem um líder, que seja escolhido por voto secreto em eleições directas. Ter sempre a mesma pessoa à frente do partido já não se usa. Até em Cuba já mudaram para o irmão de Fidel. Só na Coreia do Norte é que o Bloco de Esquerda encontra exemplo de permanência ad eterno no poder.
Tratem-se, antes que os portugueses os tratem em definitivo ou então vão divertir-se para a Coreia.

domingo, 5 de junho de 2011

Notas soltas sobre as eleições legislativas

1 – A abstenção voltou a fazer estragos. 40% dos eleitores não foram votar. Uns porque não puderam, mas a esmagadora maioria porque não quiseram. Acho que já chega de dizer que a culpa é dos políticos e dos partidos. A culpa é das pessoas, que não querem saber, nem respeitam o valor do voto. Talvez preferissem viver num tempo em que não tinham esse direito. Em que comiam e calavam. Em que havia polícia política, repressão, falta de liberdade de pensamento e de organização, entre outras coisas. Quem não vota porque não quer, mais do que não ter direito a reclamar, não merece viver em democracia. Mesmo que não se revejam num partido, podem e devem ir às urnas espelhar esse sentimento.

2 – O PSD não tem propriamente um resultado histórico, conforme aconteceu por duas vezes com Cavaco Silva, em 1987 e 1991, mas tem de facto um grande resultado. Cavalgou a onda da contestação a Sócrates e deu-se bem. Mais uma vez acho que, pese embora o mérito de Passos Coelho, foi o PS que perdeu o Poder e não o PSD que o conquistou. Mas isso também pouco importa. Quem governa ou o faz bem ou vai para a rua.

3 – Sócrates passou a campanha a colocar culpas no PSD por tudo e mais alguma coisa. Consta até que o culpado do terramoto no Japão foi o PSD. Deu-se mal com essa estratégia. Os portugueses que votam, são cidadãos responsáveis e sabem distinguir quem lhes fala a verdade ou o seu contrário. A crise política criada com o chumbo do PEC IV tinha todo o sentido. Portugal queria mudar porque estava farto do PS e sobretudo de Sócrates.

4 – Aparentemente o PSD é o único partido que ganha lugares no Parlamento. Todos os outros perdem, mesmo o CDS. O Bloco perde 10 deputados e o PS 32. Se no PS esta perda é conjuntural, no dia em que voltar a ganhar eleições altera este valor, no Bloco é sintomática. Este partido tinha todas as condições para fazer um bom resultado, tendo em conta que a sua estratégia assenta no tirar partido da contestação e os últimos tempos foram propícios a isso. O resultado é óbvio. Mesmo com o país em transe com tanta dificuldade, o Bloco perde metade dos deputados. Esperar não espero nada, mas achava piada ver um assumir de responsabilidades interno com Louçã a explicar o que aconteceu e porque aconteceu.

5 – Passos Coelho não teve uma campanha fácil. Havia muita gente à sua volta a falar demais, uns a dizer verdadeiros disparates e ele próprio de vez em quando teve observações que davam a ideia de uma navegação á vista, o que é sempre complicado. Nos últimos dias a coisa acalmou-se para os lados da São Caetano à Lapa e o PSD entrou em velocidade de cruzeiro para a vitória. Nestas circunstâncias não há volta a dar. O mérito da vitória e o demérito da derrota é sempre do líder do partido. Quem acha que por ser cabeça de lista num distrito qualquer pode fazer a diferença, está muito enganado. Mais facilmente tira votos do que os acrescenta. Como tal foi Pedro Passos Coelho quem ganhou as eleições, tendo em conta que Sócrates as perdeu.

6 – No Algarve o PS teve um resultado quase catastrófico. Se a informação que tenho não está errada, elegeu apenas 2 deputados. Quando Santana Lopes foi candidato a primeiro-ministro, o PSD teve uma derrota pesada na região e apenas elegeu dois deputados. Não foi capaz de ganhar um único concelho. O que há em comum nestas duas derrotas e resultados? As portagens na Via do Infante. Não terá sido apenas isso, uma vez que estes dois últimos governos do PS foram os que mais maltrataram a região. Mas é sintomática a alergia que causa aos algarvios saberem que vão pagar injustamente a circulação numa estrada em que boa parte não foi construída em regime SCUT e foi paga por fundos comunitários. Pior do que isso, os algarvios conhecem bem a alternativa que neste caso não existe. A Avenida 125 é uma rua em mau estado, perigosa e onde vão voltar a morrer muitas pessoas quando as portagens forem impostas aos algarvios. Os de cá responderam da melhor maneira possível a esse sentimento de indignação derrotando veementemente o PS.

7 – Como já vem sendo costume, a esquerda quando sai do governo, neste caso o PS, nunca deixa o país melhor do que o recebeu. Foi assim em 1985, em 2002 e agora. Estranhas coincidências.

Há mais para dizer mas fica para o resto da semana.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O fim da campanha e do pesadelo

Chegou ao fim uma das campanhas eleitorais mais importantes da vida democrática do nosso país. A situação de emergência é de tal ordem que ficar indiferente ao que se passou nas últimas semanas e meses é difícil.
Pese embora as sondagens não serem instrumentos de certezas absolutas, a verdade é que quase todas elas foram mostrando resultados muito semelhantes ao longo do tempo, dando como certa uma disputa muito renhida. Só nos últimos dias foi possível perceber que o PSD será o vencedor das eleições, ficando apenas por esclarecer se chega ao cenário de maioria parlamentar com o CDS.
No “the day after” das eleições, ficará clara a geometria do novo governo, nomeadamente no que respeita ao número de ministros que o CDS vai querer impor ao PSD. Vem nos livros de Ciência Política, e de resto nem é novidade, que nestes ambientes de coligação o partido menos votado, o parceiro menor, é quem manda. O maior obedece, sob pena de não conseguir construir uma solução governativa segura. Tal como aconteceu com Durão Barroso, Passos Coelho vai ter de negociar com Portas e provavelmente ceder aos seus pedidos e chantagens. É verdade que no passado ficou a imagem de um CDS que honrou os seus compromissos com o partido de coligação, ainda que não me pareça que a sua passagem pelo governo seja um grande motivo de orgulho. Ficou a tal cortina de fumo e de dúvida que não favorece ninguém. O abate dos sobreiros na margem sul em Santo Estêvão, bem como o nunca bem explicado negócio dos submarinos, serve de lastro a este CDS que se diz detentor da moralidade política mas que a mim nunca me enganou. Não fico tranquilo com Portas num governo. Mas fico em pânico com Sócrates novamente como primeiro-ministro.
No entanto, a situação do país é de facto grave e o país necessita de uma solução de estabilidade como de pão para a boca.
Por outro lado é preciso castigar Sócrates e este desgoverno que tivemos de aturar, nomeadamente nos últimos dois anos. Em condições normais, se o PS tivesse o estofo de outros tempos e não fosse hoje uma central de gestão de interesses tentaculares variados, alguns deles por descobrir, Sócrates jamais seria o candidato a primeiro-ministro. Só o é porque no subconsciente da cúpula dirigente ainda habita a ideia que é possível manter o poder pelo poder. Imagino que domingo seja o primeiro dia de um período de facas longas onde o secretário-geral do PS será imolado. Depois de Sócrates não há mais Sócrates. Alguém tratará de o mandar para bem longe, provavelmente para um eldorado qualquer convenientemente apadrinhado pela Internacional Socialista. Duvido que fique sentado nas últimas filas do hemiciclo.
O ainda primeiro-ministro disse antes da campanha eleitoral que entre ele e o FMI havia dez milhões de portugueses. Acho que não são tantos. Mas há seguramente os suficientes para o mandar embora. O pesadelo deverá terminar no domingo.
Veremos.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dia da Criança

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Criança que supostamente deveria ser um dia igual aos outros e não precisar de uma efeméride, conforme acontece, por razões diferentes, com o da Mulher.
Em Portugal vive-se hoje uma situação política e social que me leva a crer que as crianças não são uma prioridade, nem são olhadas com o carinho e a atenção que merecem.
Da parte política muito haveria para dizer mas no essencial, e pegando nas notícias mais recentes, observa-se que neste domínio dá-se com uma mão e retira-se com a outra.
O mesmo governo que distribuiu computadores Magalhães pelas crianças do nosso país e fica embevecido a olhar como elas carregam na tecla Enter, encerra maternidades e serviços de pediatria no interior. Aliás, antes só o fazia no interior, agora já o faz na própria cidade de Lisboa. Dirão que é por uma questão de garantir a qualidade e a segurança dos serviços. Será mais para poupar euros, neste caso para os gastar noutra coisa qualquer.
Depois olha-se para a assistência social que é dada às famílias, nomeadamente as que mais necessitam e observam-se os cortes cegos nos abonos. Ao que se sabe mais de 600 mil famílias viram os serviços da Segurança Social cortar-lhes o abono. Ainda que possam haver casos com alguma justiça, presumo que a esmagadora maioria são situações que deveriam ser ajudadas e só não o são a pretexto da diminuição da despesa pública. Será muito populismo e demagógico dizer que deviam cortar nas mordomias do Estado em vez do abono às famílias, mas a verdade é que assim é.
Depois há outros exemplos mais conhecidos do que outros, que também nos mostram como a nossa sociedade e os seus principais agentes, tratam as crianças. Vão passar ainda muitos anos até se fazer justiça no caso que mais abalou a opinião pública portuguesa envolvendo crianças. Hoje há um sentimento generalizado que nenhum dos agressores acusados e condenados de pedofilia no Processo Casa Pia, irá cumprir pena de prisão. Até mesmo o asqueroso que confessou ter violado centenas de vezes crianças casapianas, está cá fora a dizer disparates à tripa forra e a apanhar o mesmo sol que ilumina todos os dias aqueles que foram violentados. Outros haverá que nem beliscados foram porque são poderosos e influentes e a sua condenação teria consequência em terceiros e não apenas nos próprios. Por isso se safaram a pretexto de erros processuais sem nunca terem sido capazes de afastar a cortina de suspeita que sobre eles pairava.
Por fim a cereja em cima do bolo, o modo de vida que temos hoje onde a carreira profissional nuns casos e as condições laborais precárias noutros, atiram as pessoas para uma situação em que o afecto, a presença e o acompanhamento das crianças fica para terceiro plano. Somos hoje escravos de um padrão de vida que nos querem cada vez mais incutir, em que se vive para trabalhar e não se trabalha para viver. As crianças crescem sozinhas, convivendo com os pais apenas em fugazes minutos ou horas diárias. Um dia os pais despertam e apercebem-se que a criança não é mais criança. Transformou-se num adolescente perigoso, abandonado à sua sorte, convencido que é senhor do seu nariz, sem regras nem valores. Talvez o encontrem num vídeo colocado no Facebook a dar pontapés na cabeça de outro adolescente.
Nem sempre é assim, felizmente. Mas estas coisas acontecem.