quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dia da Criança

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Criança que supostamente deveria ser um dia igual aos outros e não precisar de uma efeméride, conforme acontece, por razões diferentes, com o da Mulher.
Em Portugal vive-se hoje uma situação política e social que me leva a crer que as crianças não são uma prioridade, nem são olhadas com o carinho e a atenção que merecem.
Da parte política muito haveria para dizer mas no essencial, e pegando nas notícias mais recentes, observa-se que neste domínio dá-se com uma mão e retira-se com a outra.
O mesmo governo que distribuiu computadores Magalhães pelas crianças do nosso país e fica embevecido a olhar como elas carregam na tecla Enter, encerra maternidades e serviços de pediatria no interior. Aliás, antes só o fazia no interior, agora já o faz na própria cidade de Lisboa. Dirão que é por uma questão de garantir a qualidade e a segurança dos serviços. Será mais para poupar euros, neste caso para os gastar noutra coisa qualquer.
Depois olha-se para a assistência social que é dada às famílias, nomeadamente as que mais necessitam e observam-se os cortes cegos nos abonos. Ao que se sabe mais de 600 mil famílias viram os serviços da Segurança Social cortar-lhes o abono. Ainda que possam haver casos com alguma justiça, presumo que a esmagadora maioria são situações que deveriam ser ajudadas e só não o são a pretexto da diminuição da despesa pública. Será muito populismo e demagógico dizer que deviam cortar nas mordomias do Estado em vez do abono às famílias, mas a verdade é que assim é.
Depois há outros exemplos mais conhecidos do que outros, que também nos mostram como a nossa sociedade e os seus principais agentes, tratam as crianças. Vão passar ainda muitos anos até se fazer justiça no caso que mais abalou a opinião pública portuguesa envolvendo crianças. Hoje há um sentimento generalizado que nenhum dos agressores acusados e condenados de pedofilia no Processo Casa Pia, irá cumprir pena de prisão. Até mesmo o asqueroso que confessou ter violado centenas de vezes crianças casapianas, está cá fora a dizer disparates à tripa forra e a apanhar o mesmo sol que ilumina todos os dias aqueles que foram violentados. Outros haverá que nem beliscados foram porque são poderosos e influentes e a sua condenação teria consequência em terceiros e não apenas nos próprios. Por isso se safaram a pretexto de erros processuais sem nunca terem sido capazes de afastar a cortina de suspeita que sobre eles pairava.
Por fim a cereja em cima do bolo, o modo de vida que temos hoje onde a carreira profissional nuns casos e as condições laborais precárias noutros, atiram as pessoas para uma situação em que o afecto, a presença e o acompanhamento das crianças fica para terceiro plano. Somos hoje escravos de um padrão de vida que nos querem cada vez mais incutir, em que se vive para trabalhar e não se trabalha para viver. As crianças crescem sozinhas, convivendo com os pais apenas em fugazes minutos ou horas diárias. Um dia os pais despertam e apercebem-se que a criança não é mais criança. Transformou-se num adolescente perigoso, abandonado à sua sorte, convencido que é senhor do seu nariz, sem regras nem valores. Talvez o encontrem num vídeo colocado no Facebook a dar pontapés na cabeça de outro adolescente.
Nem sempre é assim, felizmente. Mas estas coisas acontecem.

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