quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A diferença entre Soares e Churchill



Mário Soares é o político mais político de Portugal e como tal tem coisas boas, satisfatórias, más e muito más. As suas últimas intervenções a propósito do governo, só podem ser rotuladas de muito más e extraordinariamente populistas.

O senador socialista é dos poucos portugueses que sabe bem o que é governar com imposições de austeridade derivadas de apoio financeiro externo, uma vez que foi no seu tempo de governante que o FMI esteve em Portugal, assistindo-nos e impedindo-nos de ficarmos numa situação de bancarrota sem dinheiro para pagar as mais elementares obrigações do Estado.

Uma vez que tivemos de novo de receber apoio externo porque os mercados deixaram de nos emprestar dinheiro, pela simples razão que não confiam em nós e na nossa capacidade de proceder ao reembolso, Mário Soares sabe bem o que isso implica, mormente porque são-nos e foram-nos colocadas tarefas para cumprir as quais deverão levar ao chamado reajustamento da economia, devolvendo-nos a capacidade de nos financiarmos novamente nos tais mercados. Ou seja, voltarem a ter confiança em nós, coisa que neste momento não existe.

Por saber que é assim e ainda que haja medidas e iniciativas, nomeadamente ao nível da comunicação e da postura do governo face aos problemas, deveria ser alguém muito avisado como Mário Soares o primeiro a colocar-se do lado da razão e não da emoção. Do lado da solução e não do problema.
Não o faz por uma simples razão que está-lhe no sangue: o combate político de derrotar quem não é da sua preferência partidária e a vontade desmedida de protagonismo que um homem público mesmo no ocaso da vida não consegue perder.

E isto é mau? Não. É péssimo.

Se António José Seguro viveu em Marte durante os seis penosos anos da vigência socrática e por isso não tem relação directa com o que aconteceu ao país, Mário Soares parece que esteve por cá mas ficou-se por um silêncio cúmplice, quiçá como resguardo de conforto aos milhões que saiam do Orçamento do Estado directamente para a Fundação que tem o seu nome. Numa altura em que Portugal estava em plena roda-viva, a despesa pública aumentava exponencialmente e o governo assinava contratos ruinosos com as PPPs, Soares assobiava para o ar, por entre uma candidatura presidencial falhada em toda a linha e apoiada por Sócrates e as muitas declarações públicas que fazia, anuindo sempre com o caminho de desastre que o país estava a trilhar. Nessa altura não estava preocupado? Será que alguma vez esteve? Está agora porquê? Está mais consciente agora ou as transferências do Estado para as fundações deixou-o mais alerta?

Existem hoje mais razões de preocupações do que aquelas que haviam na década de 80 do século passado quando o FMI entrou no país e Soares colocou os portugueses a apertar tanto o cinto até não haver mais buracos para suster a fivela? Na minha opinião existem outras diferentes, mas o país hoje está mais capacitado para dar a volta à situação do que estava nessa altura, ainda que o processo esteja a ser tremendamente doloroso.

Mas uma coisa mudou com toda a certeza. Mário Soares tem mais 30 anos do que tinha nessa altura e muito mais responsabilidade, uma vez que no entretanto foi Presidente da República e assumiu perante os portugueses uma posição que lhe permitiria, se quisesse, ser o fiel da balança dos conflitos ou dos consensos. Nunca o fará. É mais socialista que democrata. É mais complicado que simples. É mais protagonista do que assistente. E é também mais desafiador do que desafiado e eu dessa característica até gosto.

Por isso nunca será lembrado em Portugal com o consenso que Churchill tem hoje no Reino Unido e no mundo inteiro. É a diferença entre os grandes homens e os excepcionais. Churchill foi excepcional.

Nota: Chegou ou vai chegar mais um cheque de 4.300 milhões de euros da assistência financeira que servem, não só mas também, para pagar os ordenados a muitos portugueses que estiveram nas manifestações de 15 e de 29 de Setembro. Não é caso para muita publicidade, até porque se trata de uma consequência do cumprimento do acordo feito entre o Estado português e a troika, mas também não é demais lembrar.

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