quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Estamos entendidos


As pessoas têm direito a manifestar-se?
Sim
E a atear fogo na escadaria da Assembleia da República?
Não.
Então onde podem atear fogo?
Simplesmente não podem, mas se isso for um imperativo de consciência que o façam na casa de cada uma delas, se for completamente isolada da do vizinho.
Mas isso pode estragar a casa?
Naturalmente.
Mas podem desnudar-se?
Depende.
Depende do quê?
Da qualidade dos que está debaixo da roupa.
Mas despir-se pode ser ofensivo?
Pode.
Para quem?
Para quem está habituado a ver melhor do que aquilo que é mostrado.
E para os que não estão?
Fica ao critério de cada um.
Então pode?
Poder pode, mas nalguns casos é melhor ficar vestido.
E mandar garrafas à polícia?
Nem à polícia, nem a outras pessoas
Nem de plástico?
Nem de plástico.
E se forem de vidro?
É melhor jogarem para o vidrão, se estiverem vazias.
E se não estiverem?
Depende.
Do quê?
Se vale a pena beber o conteúdo previamente.
Mas e se a intenção é agredir a polícia?
Não se pode.
Porquê?
Porque são pessoas iguais a nós que estão a trabalhar e também podem estar indignadas com a situação mas cuja função é garantir a segurança dos cidadãos, inclusive os energúmenos que os insultam, arremessam garrafas e dão fogo à escadaria do Palácio de São Bento.
Então não se pode agredir a polícia?
Não.
Mas a polícia pode agredir os manifestantes?
Se não for agredida nem provocada, também não o fará.
E há piada em fazer uma manifestação e não partir a cabeça a um polícia?
Há. Mas o problema não está na piada está na atitude.
Mas não se pode ver no arremesso da garrafa o sentido figurado de protestar contra o governo?
Pode, mas a polícia não é o governo.
Então não há alternativa?
Claro que há.
Qual?
Outras formas de protesto.
Tais como?
Bater com a cabeça numa parede que seja dura.
Isso é protestar?
É
Mas isso pode aleijar quem protesta?
Pois pode, tal como aleija o polícia que leva com uma garrafa de vidro.
E chamar nomes?
Depende dos nomes.
Filhos da puta?
Isso não é nome, é insulto.
Então no que ficamos?
Se não conhecem as mães das pessoas e não têm a certeza sobre a integridade moral das ditas, é recomendável não insultar.
Mas pode ser em sentido figurado?
Não existem figuras de estilo para a filha da putice. Ou se é ou não se é.
Então que outras formas de luta e de protesto existem?
Votar nas eleições quando elas são convocadas.
Temos de esperar pelas eleições?
Convém.
Porquê?
Porque é assim a democracia e se queremos continuar a conviver com ela, é bom que se cumpram as suas regras.
Mas e quem não gosta de cumprir regras?
Não cumpre.
Mas isso tem consequências?
Claro.
E quem também não quer ter consequências?
Isola-se numa ilha deserta no Pacífico.
Mas isso não é muito longe?
É.
Não há alternativa?
Há.
Qual?
Respeitar a ordem pública numa sociedade onde não estamos sozinhos.
Mas pode-se manifestar e protestar?
Pode-se.
Mesmo mostrando as mamas?
Sim.
Mas existem mais formas?
Existem.
Quais?
Participar activamente no desenvolvimento democrático do país.
Como?
Integrando movimentos cívicos ou militando em partidos.
Mas e se a pessoa não se revê em nenhum partido dos existentes?
Junta amigos e forma um partido novo.
Mas isso não dá muito trabalho?
Dá.
Mostrar as mamas, chamar nomes, atear fogo ou arremessar garrafas não é mais fácil?
É.
Então para quê complicar?
Porque o resultado é diferente.
E manifestações sem insultos, nem violência?
Parece-me bem. Já dizia o Mário Soares, quando lhe convinha, que as pessoas têm direito à indignação.
Mas e vale a pena?
O poeta diria que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Eu acrescento: quando se acredita e há razão.
A democracia é assim tão chata e exigente?
É, mas não a ter é muito pior.
Há quem não a tenha?
Há.
E não se manifestam?
Não.
Porquê?
Porque não têm esse direito.
Ok, percebi…estamos entendidos.

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