quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Malandragem



Mesmo quando estou a dormir sou contra as coligações que o PSD faz com o CDS de Portas. Já escrevi noutras circunstâncias e sempre que o faço, admito por uma fracção de segundos que um dia virá em que conclua que estava enganado em relação ao assunto. Acontece que até hoje não tive motivos para acreditar que a minha teimosa convicção esteja baseada em falsos pressupostos e agora, então, muito menos.

Não tenho outra forma de dizer a coisa: a atitude correcta de Passos Coelho no fim de semana que passou era ter demitido o Portas e consequentemente todos os ministros e secretários de Estado que foram indicados pelo CDS, o que, à partida, pressuporia o fim deste governo, com toda a consequência que isso acarretaria, nomeadamente ver o PS do marciano Seguro e a tralha socrática a voltar ao governo. Quiçá…mesmo assim não sei.

É preciso ter lata e Portas tem-na de sobra. Um tipo que sabe o que diz o memorando da troika porque também o assinou. Que foi avisado das medidas de austeridade, antes das mesmas serem anunciadas. Que se refugiu num silêncio fúnebre, a pretexto de ouvir o partido, como se não soubesse o que o mesmo pensa sobre o assunto. E que veio manifestar as suas reservas e discordâncias, depois de ver o resultado da manifestação de sábado para poder passar para a opinião pública a ideia que está do lado dos que sofrem, revela na prática um exercício de patifaria política digno de uma crónica de bons malandros.

O governo é composto por dois partidos em que um deles teve muitos mais votos que o outro. O outro é o CDS que não teve a maioria dos eleitores que foram às urnas a votar nos seus candidatos e no seu programa. Quem os portugueses escolheram para formar governo foi o PSD, o qual por não ter obtido uma maioria absoluta chamou o CDS para uma solução governativa, a fim de fazer face ao caderno de encargos que a troika nos entregou e que estes dois partidos, mais o PS, assinaram.

Sei que as circunstâncias são outras, mas tenho infinita pena que o PSD nunca mais tenha tido um líder com o estofo que Cavaco Silva teve em 1985. Para os que não se recordam, nesse ano o actual presidente da república ganhou as eleições legislativas sem maioria absoluta. O que fez? Formou um governo pequeno, sem coligações nem acordos parlamentares, com gente qualificada da política que nessa altura havia em maior número do que há hoje e fez-se à vida até que um dia o famigerado PRD lembrou-se de inventar uma moção de censura que serviu de passaporte para uma maioria absoluta de Cavaco em 1987.

Vão ser necessários alguns anos, para esquecer este bom exemplo, até porque nunca mais surgiu alguém com a determinação inabalável de Cavaco nos finais do século passado. Muito diferente do que é agora, por sinal.

Voltando ao Portas e aos meninos e meninas de bem do CDS, a solução era simples: a porta da rua é serventia da casa. Façam-se à vida e curem a vossa superioridade intelectual e vocação para a malandrice com mais uns anos de oposição e se estiverem aborrecidos vão para as margens do Tejo ver os submarinos do querido líder.

É que uma coisa são militantes de um partido ou do outro sem responsabilidades políticas ou governativas, manifestarem a própria opinião. Mais houvesse porque na diferença também se encontra um caminho. Outra é a segunda figura do governo (para mim não passa de figurinha) cavalgar a onda da contestação que a manifestação de sábado provocou, para aparecer junto dos portugueses na posição de: calma que eu estou do vosso lado, apesar de ter aqui um acordo com o rapazolas que vos está a fazer mal.

O PSD não é um poço de virtudes mas ganha eleições, ao contrário do CDS que nunca ganhou coisa alguma a nível nacional. Como tal isto era pontapé no rabo e vai já para as feiras distribuir beijinhos e abraços.

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