sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O que sobrou da greve?

Qual foi o problema que a greve geral do dia de ontem resolveu? Nenhum.
Os cortes nos subsídios dos funcionários públicos e dos reformados mantêm-se. O aumento do horário laboral no sector privado, também. Não houve nenhuma alteração, nem era expectável que houvesse.
Então o que sobrou da greve?
Quem a fez vai ter o reflexo financeiro negativo no ordenado do próximo mês. A produtividade do país foi prejudicada. Os cidadãos foram muito incomodados. A PSP teve de distribuir umas porradas e uns energúmenos que desafiaram a ordem pública foram passar a noite a uma esquadra.
Hoje o país acordou pior do que adormeceu na noite anterior à greve.
No meio disto tudo os dirigentes sindicais fizeram o número mediático. Apareceram na imprensa. Bramiram contra o governo e os patrões. Contabilizaram uma vitória de Pirro para os respectivos partidos, neste caso o PCP e o PS.
Há mais alguma coisa importante a referir? Parece que sim. Numa sondagem feita há poucos dias o primeiro-ministro mantém a melhor popularidade entre os políticos, pese embora as medidas de austeridade que teve de apresentar, acrescido ao facto de ter manifestado publicamente alterações de opinião em relação ao que disse na campanha eleitoral. Significa isto que, pese embora a surpresa que isso possa causar, os portugueses não olham para Passos Coelho como um problema mas sim como uma solução. O problema foi para Paris. A solução poderá estar em Massamá.
Em relação às motivações da greve, julgo que nenhum português com juízo deixará de compreender a violência que significa para algumas famílias a perda de rendimentos com os quais contavam para equilibrar a economia doméstica. Mas fazer greve altera alguma coisa? E se essas medidas não forem tomadas o que acontecerá daqui a uns tempos? Haverá dinheiro para pagar ordenados no Estado? Para garantir a segurança dos cidadãos? Para manter hospitais abertos a funcionar com condições de assistência? Para manter aquilo a que chamam o Estado Social que tem servido em grande parte para gastar acima das possibilidades do próprio Estado?
Provavelmente não.
Mas também para que serve um Estado com as contas saldadas e o seu povo sem dinheiro para comer e as empresas sem recursos financeiros para investir e criar postos de trabalho? É de facto uma encruzilhada aquela em que vivemos.
Ainda assim, isto não significa que não possam ser feitas outras coisas, nomeadamente reduzir os gastos supérfluos do Estado a que vulgarmente agora se chama de “gorduras”. Também sou dos que acham que é preciso apurar melhor alguns mecanismos de controlo e repartir o esforço por todos e não apenas por alguns. Há uma carga fiscal pesada sobre parte dos contribuintes, mas também há muitos que ainda conseguem passar entre as pingas da chuva sem se molharem.
Uma última nota para o que se passou ontem em frente ao Parlamento. Quem lá esteve a manifestar-se tem um conceito de liberdade e de democracia diferente do meu. Para eles a liberdade significa fazer tábua rasa do conceito de Estado de Direito, avançado em sinal de provocação contra as forças da autoridade. Arrogam-se de propósitos que só eles entendem, a pretexto de uma liberdade que é só deles. A cambada que esteve a provocar e a insultar as forças de segurança na escadaria do Palácio de São Bento não são democratas. Se fossem entenderiam que a representação do Estado é escolhida através de eleições cujo resultado todos devem respeitar. Se eles se indignam em relação a um Estado que não existe para os sustentar, eu indigno-me com o ideal anárquico com que se arrogam para desafiarem a autoridade e colocarem em perigo a ordem pública. Sou contra qualquer tipo de violência, mas nestes casos é começar numa ponta e acabar na outra. Quem não quer viver com regras básicas de respeito e convivência, tem de sofrer as consequências.

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