sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Estamos pobres mas não estamos infelizes.

O Algarve está numa encruzilhada por mais que queriam fazer crer o contrário. Não se trata de pessimismo nem de catastrofismo, mas sim da mais pura e dura realidade.
Senão vejamos:
O desemprego atingiu números inimagináveis há uns anos atrás. É uma das regiões com a maior taxa e onde parece não haver renovação do tecido económico, o que pode significar a completa incapacidade de criação de novos postos de trabalho que possam ajudar a inverter a situação. Mais de 13% da população activa não tem emprego. De região recebedora de mão-de-obra proveniente de vários pontos do planeta, que tinha na construção civil o principal sector, temos agora a situação de debandada generalizada. Não há trabalho para os de cá, quanto mais para os de lá. Aliás, neste domínio o Algarve parece hoje, nalgumas zonas, um imenso estaleiro de obras abandonadas, já para não falar dos milhares de apartamentos e moradias que estão concluídos mas vazios por falta de quem os compre. Tão cedo a situação não se irá inverter, pelo menos enquanto a banca mantiver uma política de restrição ao crédito.
No turismo, como já não bastava a nuvem da crise financeira que assola toda a Europa nomeadamente alguns países que são clientes potenciais do destino que é o Algarve (a Irlanda é um bom exemplo), a qual retrai a procura, o governo decidiu ajudar o sector aumentando a taxa do IVA. Resultado: hotéis fechados nalgumas alturas do ano, restaurantes vazios e comércio às moscas.
Mesmo com a Ryanair a vender bilhetes de avião ao preço do bacalhau a pataco, não é suficiente para contrariar o sentimento negativo que se verifica no sector. Até o turismo nacional é melhor não contar muito com ele, uma vez que em 2012 e 2013 se algumas famílias não vão receber o subsídio de férias, talvez não tenham argumentos suficientes, leia-se euros, para descer até à melhor região da Europa. Mesmo que passem o ano inteiro a fazer poupança e nalguns casos isso pode significar deixar de comprar bens de primeira necessidade, dificilmente poderão vir gozar o sol e a praia. Acredito que ainda hajam pessoas que prefiram passar 11 meses de angústia e de pobreza envergonhada, para terem a oportunidade de se vir pavonear uma ou duas semana para o calçadão de Quarteira, para a avenida marginal da Praia da Rocha ou sacudir o esqueleto no Manta Beach. Mas serão a minoria.
Por fim os demais sectores de actividade estão cada vez mais decrépitos e vetados ao abandono, desde logo a agricultura e as pescas que hoje não se constituem como motor da economia, bem pelo contrário. O turismo era a nossa única indústria lucrativa e como é sabido parece haver todo um plano para a aniquilar e não é de hoje.
A cereja em cima do bolo bolorento que nos querem dar a provar, é o estado caótico em que se encontram as autarquias da região, umas mais do que outras, que vivem numa situação financeira aflitiva, sem condições para honrar a tempo e horas compromissos com fornecedores, com a implicação que isso tem nas empresas, sejam elas micro, pequenas ou médias. Para além disso, descapitalizadas como estão, não têm condições de fazer investimento público o que significa falta de trabalho para muitas empresas que empregavam centenas de pessoas e estão a deixar de o fazer. Falo das autarquias uma vez que na maior parte dos concelhos, senão mesmo em todos, são a maior entidade empregadora e as que mais investimentos locais fazem.
Para fechar com chave de ouro, vamos ter o pagamento de portagens na Via do Infante com todas as implicações económicas e sociais que isso irá significar na vida das pessoas e das empresas, empurrando-nos para uma estrada miserável e assassina como é a125, cheia de buracos, cruzamentos e entroncamentos, casas dentro da berma e nalguns casos quase na faixa de rodagem, repleta de armadilhas e semáforos que não permitem uma viagem normal de 20 quilómetros de distância ser feita em menos de meia-hora.
Este é o Algarve que temos hoje e não há garantia nenhuma que o de amanhã seja melhor. Não sei se fizemos mal a alguém ou se isto é apenas o resultado de não termos tido a coragem e o desvelo para prevenir males como estes.
Nem tudo é mau. Temos um estádio que é um encanto, pese embora quase não ser utilizado, uma auto-estrada que nos leva à capital em pouco tempo, a Ryanair que nos liga à Europa por meia dúzia de euros, uma Ria Formosa que é uma maravilha da natureza, praias como não há outras na Europa, peixe fresco a assar na grelha, boa aguardente de medronho e o Zézé Camarinha que é o ícone da virilidade masculina nacional.
Estamos pobres mas não estamos infelizes.

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