VILARINHO DE NEGRÕES



Vilarinho de Negrões podia ser o cenário de um filme. Quando se olha para esta aldeia do Barroso com o Larouco ao fundo e as águas do Alto Rabagão a fazerem dela uma espécie de península, respira-se fundo e espera-se que os sentidos absorvam todas as sensações. É uma espécie de bênção divina. O Criador começou a obra e o Homem fez os acabamentos.
Nas suas ruas estreitas o tempo parece que parou. É o silêncio apenas interrompido por uma conversa que vem de dentro de uma casa, o som do motor do trator que passa, o latido de um cão que não gosta de estranhos ou o chocalhar do gado a caminho do lameiro ou a regressar à loja. Tudo o resto é a música silenciosa da natureza no seu estado mais puro.



Na sua parte mais central, depois de cruzar a fachada da capela, um lavadouro cheio de água cristalina recebe o fluxo através de uma torneira cravada na boca de uma face estilizada no granito. Ao seu redor estão casas, umas mais recentes misturadas com outras bem antigas e um relógio de sol guardado pela imagem de um santo. Nestas paragens os símbolos religiosos são uma presença constante a cada canto. Traz o menino Jesus ao colo e um hábito franciscano. Arrisco no Santo António.


Encostada a uma escada de pedra, está uma bicicleta de criança. Ainda as há por aqui. Tem as rodas cheias, logo não está abandonada. Boas notícias.
Mais à frente o cruzeiro, espigueiros e mais granito. Uma casa antiga serve de proteção a um improvisado estendal de roupa. Numa das paredes de pedra, um nicho guarda outra imagem religiosa. Agora é-me fácil identificar: a Nossa Senhora de Fátima. Não há português que não a conheça. Faz parte da trilogia.

As águas da barragem do Alto Rabagão são observáveis em praticamente todas as ruas. São vizinhança constante. Mais distantes do que na primeira vez que estive na aldeia, mostram que a seca extrema também marca presença nesta terra onde a água corre da montanha até aos rios com relativa abundância. O relativo torna-se absoluto se chover. Se não chover, pede-se aos santos que intercedam junto de São Pedro porque a vida cá em baixo na terra não pode parar, ainda que assim o pareça em Vilarinho de Negrões.


Deixo a aldeia para trás e subo para uma cota mais elevada. 
E aí sim. É o final feliz em jeito cinematográfico. O galã não beija a mulher amada, mas as águas do Rabagão abraçam com suavidade os terrenos e as pequenas hortas de Vilarinho de Negrões. Respira-se fundo mais uma vez antes de partir e guarda-se no melhor canto da memória toda a beleza deste lugar.

Vista de Vilarinho de Negrões

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O meu Caminho de Santiago - Última etapa: Lalin - Santiago de Compostela

Intervenção na Reunião da Câmara Municipal de Tavira a 31 de Janeiro de 2012