quarta-feira, 24 de abril de 2013

25 A de agonia


Os 39 anos da revolução dos cravos vão ser comemorados com o peso de uma nuvem cinzenta que continua a pairar sobre o nosso país e as nossas cabeças.

Constrangidos por uma crise financeira e económica grave, pelas exigências de austeridade a que estamos sujeitos, pelo desacreditar de soluções políticas provenientes de todo o espetro partidário e sobretudo pela chaga do desemprego que afeta cada vez mais famíliasportuguesas, chegamos à que é considerada a data mais importante da democracia portuguesa.

A face negra desse desalento que tanto preocupa cada um de nós está bem patente no dia-a-dia dos portugueses. Estamos com as expectativas baixas e não se vislumbram alternativas que não passem por um longo período de reajustamento da economia, todo ele bastante doloroso.

Porém, como algumas pessoas têm vindo a frisar e a fazer notar, há um lado preocupante nesta crise que pode minar ainda mais o ânimo dos portugueses. Esse lado é a crise de valores e de crédito no Estado de Direito democrático.

Temos quase tantos anos de democracia como tivemos de ditadura no século passado, cujas consequências, na minha opinião, ainda se fazem notar. Não se pode no entanto dizer que somos um regime democrático jovem. Reportando à idade do ser humano, a democracia portuguesa está no auge da sua vida ativa. Isso significa que não devia cometer erros de imaturidade, nem devia agoniar perante a falta de fulgor. No entanto, salvo melhor opinião, não é isso que se nota.

Por muito que algumas pessoas achem o contrário, não há democracia sem partidos. Os partidos são, não a única mas a principal forma de organização dos cidadãos num regime democrático. Os movimentos cívicos e as organizações corporativas são importantes, mas não se constrói uma democracia saudável sem partidos, uma vez que são as células principais de organização.

O descrédito que se assolou sobre os partidos e os políticos, asfixia a saúde democrática do país, em grande parte motivado pelo beco sem saída a que chegámos. Por muito que tentem dizer o contrário e pese embora a crise financeira mundial que trouxe até nós as suas consequências, grande parte do que estamos a sofrer teve origem numa classe política de vistas curtas, preocupada com os atos eleitorais e vocacionada por manter-se no Poder a todo o custo.

Faltou-nos o arrojo e a determinação que só os grandes estadistas conseguem ter. Mais do que isso, convenceram-nos que podíamos viver gastando mais do que aquilo que produzimos, contraindo responsabilidades atrás de responsabilidades como se isso não fosse uma enorme bola de neve que não para de crescer. Ninguém foi capaz de dizer basta, porque dizê-lo tinha consequências nas sondagens e nas eleições.

Não é portanto de estranhar que muita gente já defenda à boca pequena que isto não vai lá com conversa suave, o mesmo é dizer com democracia. Mesmo na ligeireza de um programa de televisão e em pleno período democrático, perguntam aos portugueses quem foi o melhor de todos os portugueses e as pessoas respondem: António Oliveira Salazar. E é este o problema principal. Até que ponto conseguimos manter a confiança num regime que se desmultiplica em soluções mas nenhuma nos mostra um caminho certo e que cada vez mais perde as referências de liderança política contemporâneas e suspira pelas do passado.

Seria uma tragédia um dia recordar o 25 de Abril de 1974 como a data em que Portugal entrou num período de auto degradação, porque não soube viver em democracia e caiu novamente nas trevas de um totalitarismo populista, que nos dá com uma mão o imediato, mas nos retira com a outra o futuro.

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