terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Como Tavira estagnou – A minha resposta ao deputado Paulo Sá.

O único deputado eleito pelo PCP no círculo eleitoral do Algarve (não é este o termo correcto mas é assim que eu gosto de referir) veio a Tavira, não sei se já cá esteve muitas vezes, constatar que o concelho estagnou. Bastou-lhe uma manhã para chegar a essa conclusão, o que me leva a crer que está a generalizar e não faz uma análise rigorosa.
Dito isto assim desta maneira, não se fica com a ideia ao que se refere. Mas lendo o resto do texto publicado na blogosfera, aí sim consegue-se perceber que fala essencialmente do comércio local, uma vez que este é o único que o preocupa, como se nas grandes superfícies não trabalhassem também pessoas e se os negócios pertencessem apenas aos que os comunistas chamam de “senhores do grande capital”.
Eu que sou de Tavira, gosto da minha cidade da mesma maneira como gosto da minha família e até não sou um cidadão completamente desatento e desinformado, encontrei nas conclusões do deputado Paulo Sá coisas acertadas, porque também as há, mas outras que merecem reparo. Como o PS de Tavira só se preocupa com as urbanizações e as casas que foram feitas nos mandatos do PSD e não responde a quem diz que o concelho está estagnado, se calhar até concorda, faço-o eu.
Na verdade o que se passa a nível local no chamado comércio tradicional não é diferente do que está a acontecer noutros pontos do país. A quebra do consumo privado das famílias associado à mudança de hábitos, entre outras coisas, leva a que as pessoas estejam mais retraídas na hora de comprar e quando o fazem preferem as grandes superfícies.
Há então aqui uma lógica, que eu nem sempre entendo, que o Estado através das autarquias, por exemplo, deve intervir com dinheiro público para proteger um sector, quando não o faz em relação a outros como a agricultura, o turismo ou a industria, pelo menos com a mesma pertinência e regularidade.
Diz o deputado comunista que há circunstâncias que são sobretudo originadas pelo Poder Central que afectam negativamente o comércio local, nomeadamente o aumento da carga fiscal e a liberalização dos horários de funcionamento das grandes superfícies. Se com a carga fiscal elevada estou de acordo, com o restante não concordo.
Depois afirma que no centro de Tavira há pouco estacionamento. Conhece mal e não sabe do que fala. Há estacionamento mais do que suficiente e a prova disso é que a taxa de ocupação das zonas tarifadas nunca é a 100%, bem pelo contrário. E o ser tarifado tem vantagens para o comércio e não o contrário, uma vez que permite rotatividade e não a permanência de viaturas durante um dia inteiro conforme acontecia no passado.
No Plaza o estacionamento é gratuito, mas o espaço é privado e além disso não tem o problema da permanência como se verifica no centro da cidade. A poucas centenas de metros da chamada baixa comercial de Tavira existem parques de estacionamento gratuitos que foram construídos em anteriores mandatos o que permite às pessoas deixarem os seus carros quando vão às compras.
O deputado Sá aponta igualmente como causa nefasta para o comércio local a desertificação do centro histórico, devido à saída dos serviços da Segurança Social e da instalação da Loja do Cidadão no Plaza. Mas mais, diz que esta foi uma medida errada uma vez que havia locais na baixa da cidade onde instalar estes serviços. Só não diz é quais são esses locais e não diz porque eles não existem.
Os serviços da Segurança Social estavam mal instalados em condições muito precárias num edifício antigo mas central, é um facto. Foram deslocados para uma loja nova, propriedade da Câmara Municipal, numa zona que não se podendo dizer que é o centro da cidade, fica a uns 500 metros a pé de onde estava, zona essa onde está igualmente localizada a esquadra da PSP, a biblioteca municipal e várias lojas de comércio, para além de centenas de fogos, sobretudo de habitação social e cooperativa. Sei do que falo, porque conheço a minha cidade como a palma das minhas mãos. O deputado Sá, talvez não.
Em relação à Loja do Cidadão ela não foi instalada no centro da cidade, na chamada baixa comercial, porque todos os locais disponíveis que foram indicados não tinham as características que a Secretaria de Estado da Modernização Administrativa do governo Sócrates exigia. Não se instala uma Loja do Cidadão num quiosque de esquina ou num gaveto qualquer. Existem características de dimensão e de outra natureza para o efeito. Se foi para o Plaza é porque foram esgotadas todas as possibilidades e até prova em contrário não é liquido que isso prejudique os utentes. Se o deputado Sá sabe de espaços onde a Loja do Cidadão pode ser instalada, que os diga.
Por fim refere o pagamento de portagens na Via do Infante, mas eu aí não vou mais uma vez chover no molhado. Neste aspecto dou-lhe razão. As portagens afectam todos os sectores da economia da região sem excepção. É uma desgraça para o Algarve e para os algarvios.
Em jeito de conclusão, acho que o deputado Sá teve o mérito de falar do assunto, mas nem tudo o que disse é correcto, pelo menos na minha opinião.
Hoje em Tavira o comércio local está a passar por uma grave crise. Até as lojas referidas como dos chineses sentem os efeitos, ainda que essas lutem contra a mesma de outra forma, nomeadamente mantendo horários de funcionamento mais compatíveis com os hábitos e disponibilidades dos clientes. O resto é aquilo que se sabe.
Acrescento que o executivo autárquico do PS teve a brilhante ideia de partir a Praça da República ao meio convencido que ia resolver algum problema no comércio local. O resultado está à vista. Até os comerciantes chineses já fecharam estabelecimentos na baixa comercial. Esta medida teve apenas duas motivações e nem uma nem outra são sinónimas de grande responsabilidade. Uma foi beneficiar uma minoria muito pequena de contestatários à intervenção feita na Praça da República, prejudicando o cidadão que circulava a pé de forma muito mais tranquila naquela zona. A outra é porque a obra que é uma referência para a cidade sendo a grande sala de visitas do município, onde se juntam milhares de pessoas sempre que é necessário, tinha sido pensada e executada pelos executivos do PSD. Quem se move e motiva desta maneira, acaba por não tomar boas decisões. Na Europa dita civilizada, as cidades com centros históricos retiram os carros para dar mais espaço às pessoas. Em Tavira fez-se o contrário.
Em relação ao deputado Sá fico à espera que apresente propostas concretas para tirar Tavira da estagnação e já agora um local no centro da cidade para instalar a Loja do Cidadão. Espero é que essas medidas não sejam de inspiração chinesa ou norte-coreana, uma vez que nessas realidades não existem regras laborais nem de livre concorrência, coisas que em Portugal não abdicamos.

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