quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Custe o que custar

Não vale muito a pena chover no molhado. Ainda não mudei de opinião sobre o castigo que o Sócrates devia ter tido: ficar a resolver o problema em que estamos metidos e para o qual ele tanto contribuiu. Perder as eleições, para ele, foi como sair-me o Euromilhões. Como esta lógica não está completa uma vez que não há meio de acertar nos cinco números e duas estrelas, só me resta acreditar que em matéria de sorte ele teve mais do que eu, não merecendo. É que nem sequer está obrigado a viver numa daquelas casas folclóricas que, com tanto esmero, projectou. Nem isso. Deve viver num lindo apartamento ou moradia em Paris, projectada por um engenheiro a sério. É mesmo sortudo.
Porém, alguém ficou a resolver o problema: o Passos Coelho.
Já Portugal inteiro sabe que a troika nos deixou trabalho de casa para fazer nos próximos anos e se não o fizermos decentemente levamos castigos de penitência e mandam-nos para o canto da sala com umas orelhas de burro enfiadas na cabeça. Como tal, o caminho que temos pela frente é uma espécie de frete que nos levará sabe-se lá onde. Uns dizem que o resultado final será o pagamento do reembolso do empréstimo que nos salvou da bancarrota. Outros acham que não o conseguiremos pagar. Há depois uma outra corrente que defende uma situação que a mim me parece quase certa: vamos pagar mas a economia nacional e as famílias estarão nessa altura numa situação de quase penúria.
E é aqui que encaixa, mal por sinal, o «custe o que custar» que o primeiro-ministro sentenciou esta semana a propósito do esforço que o país quase todo está a fazer para pagar o que nos foi emprestado.
A expressão «custe o que custar» tem muita força. É a que empregamos para obrigar um filho a comer a sopa até ao fim. Serve também para insistirmos numa teimosia qualquer. Por exemplo, os adeptos do sporting, não deixam de o ser «custe o que custar» e tem custado bastante.
Sendo assim, custa-me um pouco alguém dizer que tenho de me atirar para o poço, custe o que custar. Ou tenho de pagar os erros dos outros, custe o que custar. Ou tenho de ficar pobre, neste caso mais pobre, para salvar a “honra do convento” custe o que custar.
Eu acho que o Passos Coelho arrisca-se, custe o que custar, a ter uma legião de portugueses contra si. É como o Presidente Cavaco que, custe o que custou, arranjou um sarilho à conta das suas próprias contas e da incapacidade de as liquidar com o pouco que ganha. É que na verdade não custa nada arranjar sarilhos com o povo, ainda mais quando ele joga as mãos aos bolsos e só consegue encontrar contas e impostos para pagar. Logo, eu acho que a determinação e a coragem não devem ser cegas e muito menos penalizadoras para os outros. Dir-me-ão, conforme se ouve todos os dias, que não há alternativa. Eu acho que só não há alternativa à morte. Quando chega a hora não nos perguntam se queremos abalar ou não. Mas no resto tem de haver alternativas. O que não pode ser dito, na minha opinião, é que temos de meter o pescoço no cepo com um sorriso nos lábios, custe o que custar.
É que para um primeiro-ministro que mesmo não ganhando nem a décima parte do que ganha o Catroga na EDP, o custe o que custar não custa tanto como às pessoas que vivem com 500€ por mês, as que vivem. Muitas nem isso.
Ou seja, não me alegrou ouvir o primeiro-ministro em quem votei, dizer que «custe o que custar» vamos por aí, mesmo que isso signifique uma coisa menos boa para todos nós. Porque sim ou porque não, não é resposta. É o que costumo dizer à minha filha.

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