quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Zico

O Zico foi um dos meus grandes heróis na infância e adolescência. Foi, à época, o melhor jogador da selecção brasileira de futebol e salvo erro dos primeiros a encetar a aventura europeia de jogar no então muito desejado e milionário Calcio italiano.

Ontem, hoje e seguramente nos próximos dias, o nome Zico é visto nas redes sociais como o cão que atacou uma criança em Beja, causando-lhe a morte.

Este texto é, portanto, um desabafo da alma, depois de ver e ler coisas que me deixaram sem fôlego.

Li por aí a organização de petições a pedir que o Zico não fosse abatido, como determina a lei, a procurarem um advogado para defender o cão (uma coisa algo folclórica) e até pessoas que se disponibilizam para adoptar o animal, tratá-lo e dar-lhe uma segunda oportunidade de voltar a matar. Não me admira se nestes dias ou no dia em que o Zico for abatido, alguém se lembre de organizar uma vigília à porta do canil municipal de Beja ou no limite em frente ao Parlamento, com direito a pedradas e tudo.

Nos sítios onde li coisas sobre a indignação canina, não vi uma única palavra escrita a lamentar a morte de uma pobre criança de 18 meses. Uma só que fosse. Não vi tudo, é certo, mas vi alguma coisa. 

De repente salvar o Zico é mais importante que respeitar a memória de um ser humano que sofreu um ataque que o levou à morte. Diz-se até que o cão não sabe o que faz quando ataca a criança mas pelos vistos a criança sabe o perigo que corre quando fica sozinha com um animal potencialmente perigoso.

Mais do que isso. Li no facebook um comentário de uma senhora estimável que desconheço a sua identidade e a circunstância de ser ou não também mãe, que escreveu:  - Deus queira que este menino ainda não tenha sido abatido…

O menino a que a senhora se refere é o Zico, não é a criança que morreu. Isto para mim, desculpem-me a franqueza, é o estado puro do talibanismo a que chegou a defesa cega dos direitos dos animais. Não há aqui nada de razoável nem de tolerante. É fundamentalismo puro, ainda por cima com a evocação de Deus pelo meio para soar mais dramático.

Aliás, isto para mim não é defesa dos direitos dos animais, é a mais absoluta subversação da condição humana e do valor da vida. Não tenho outra forma de ver o assunto.

Obviamente o Zico vai ser abatido através de um processo civilizado de eutanásia, sem sofrimento, ao contrário do que aconteceu à criança que chegou ainda com vida ao hospital, mas gravemente ferida. Porquê? Porque enquanto vivermos num Estado de Direito as leis são para cumprir. E é assim que tem de ser para protecção das pessoas, nomeadamente as mais indefesas como foi o caso.

Naturalmente que as responsabilidades não ficam apuradas e resolvidas com o abate do animal. É preciso que o processo não fique pela falta de provas em relação à negligência grosseira de deixar uma criança indefesa junto de um cão potencialmente perigoso. Alguém tem de ser preso. Mas eu desconfio que não é isso que vai acontecer.

Reclamo assim aqui a minha indignação perante tudo isto. 

Há umas semanas atrás um individuo que maltratou de forma consecutiva uma criança, foi presente a tribunal e o juiz sentenciou-lhe uma pena de prisão suspensa o que levou ao arguido a sorrir no banco dos reús perante tão confortável decisão. Ele quase matou uma criança indefesa e o juíz não o prendeu. E com o dono do Zico se calhar vai acontecer o mesmo, porque nalguma cabeça da Justiça deste país estará presente ou que o cão não sabia o que fazia e já foi abatido ou que o arguido, sendo provavelmente primário, tem direito à segunda oportunidade de voltar a negligenciar a segurança e a guarda do seu animal de estimação.

Isto não seria tão grave se não se visse tanta gente preocupada com o abate do Zico e ao mesmo tempo a silenciar e até branquear a morte de um ser humano. E vejo isto em que menos esperava, porque algumas dessas pessoas sabem com certeza o que é uma criança de 18 meses, mais que não sejam as suas que têm ou já tiveram essa idade.

Oxalá o Zico não tivesse de ser abatido. Oxalá a criança não tivesse sido atacada e não estivesse morta. Oxalá o bom-senso não fosse uma coisa assim tão rara para quem acha que é no extremismo dos seus gostos e das suas opiniões que está o caminho para a razão.

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