segunda-feira, 12 de setembro de 2011

No meio do nada surge sempre alguma coisa

O PS fez um congresso para fechar o ciclo definitivo da passagem de Sócrates pelo cargo de secretário-geral e de primeiro-ministro. Lá longe em Paris onde pretende estudar os bons ensinamentos da filosofia clássica que é também uma das fontes de inspiração da ciência política moderna, deve ter sentido um certo alívio por não ter marcado presença na reunião magna dos socialistas seus camaradas.
Mas se ele não estava, marcaram presença muitos dos seus ajudantes, nomeadamente os que possuem cartão partidário, dos quais não teria sido mau ouvir uma palavra de justificação por aquilo que se passou.
Lembro-me em 1996 no Europarque em Santa Maria da Feira, o então líder do PSD Fernando Nogueira, fazer um discurso de assunção de responsabilidades por uma derrota eleitoral no ano anterior, quando o cavaquismo se esfumou perante a mais do que óbvia naturalidade. Fê-lo não por ser o mais responsável, mas por ter feito parte da situação. Na altura, ao passar o testemunho a Marcelo Rebelo de Sousa que dias antes tinha convocado uma descida à terra do próprio Jesus Cristo para o convencer a ser líder do PSD, Nogueira falou ao partido e ao país em jeito de orgulho pelo muito que havia sido feito por Portugal, mas também admitindo os erros e não esquecendo totalmente a forma injusta como foi boicotado, por quem menos se esperava, a poucos dias das eleições. Não terá sido por acaso que desde aí para cá, praticamente nunca mais foi visto nos corredores ou nos salões da política portuguesa. Mas os que se lembram desse tempo, não deixarão de concluir o quanto é diferente e valorizada a atitude de um líder que assume uma derrota e outro que se refugia algures no estrangeiro.
No congresso do PS deste fim-de-semana o que houve foi abstinência de culpabilidade, transformada subitamente em crítica voraz a menos de um trimestre de governação do PSD e do seu parceiro. Pode haver exercício mais básico, injusto e triste na política do que este? Parece-me que não. Mas como na política vale tudo, já ninguém estranha que assim seja.
Já nem vou reclamar propostas novas para o país porque isso era pedir muito ao PS de Seguro. O homem vai agora preparar o laboratório de ideias onde os mesmos “cientistas” de sempre darão largas à imaginação para encher páginas e páginas de texto escrito com o novo acordo ortográfico, para dar algum motivo de atenção mediática a um Seguro ávido de novas ideias que dissimule a ausência das suas. Eu acho que não faz falta tanto trabalho. A troika deixou em Portugal um documento do qual o PS é o primeiro subscritor que dificilmente poderá ser rasgado ou omitido. Como tal, e porque quem é pobre não pode exigir muito, mais vale seguí-lo com algum rigor para ver se amanhã não nos falta o pão em cima da mesa. O que o PS tentou fazer neste congresso, ao passar a ideia que há mais vida para além do acordo de compromisso que nos salvou temporariamente da bancarrota, é muito interessante do ponto de vista teórico, mas significa um desastre ainda maior do que aquele em que já estamos metidos. Pior do que isso, não há na política pior sentimento passado para a opinião pública que aquele em que uma coisa deixa de ser verdade a partir do momento em que se passa da oposição para o Poder ou vice-versa. A isto chama-se “cataventismo” bacoco para entreter mentes desatentas. E as dos portugueses andam cada vez mais atentas.
Por isso digo que no meio do nada que foi este congresso do PS surgiu alguma coisa: é que continuam iguais a eles próprios. Primeiro criam o problema e depois assobiam para o ar como se não fosse com eles.

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